No Jornal da Globo, Tião Viana volta ao debate sobre emendas e ‘parlamentarismo orçamentário’

O ex-governador do Acre Tião Viana voltou ao debate nacional sobre o avanço das emendas parlamentares no Orçamento da União ao participar de uma reportagem recente do Jornal da Globo. Ex-senador, ele comparou o modelo brasileiro ao adotado na Alemanha e criticou a destinação de recursos orientada, em sua avaliação, por interesses eleitorais dos parlamentares.

“Na Alemanha, o Parlamento pode apresentar emendas, mas elas são estruturantes, baseadas no planejamento do governo”, afirmou Tião Viana. Na sequência, fez uma crítica ao funcionamento brasileiro: “Aqui não”. Para ele, parte da lógica das emendas está ligada à tentativa de garantir a eleição do parlamentar para o mandato seguinte.

A declaração foi exibida em uma reportagem que abordou a mudança ocorrida no Orçamento federal a partir de 2015. Naquele ano, a Emenda Constitucional 86 tornou obrigatória a execução das programações oriundas das emendas individuais apresentadas por deputados e senadores, dentro dos limites estabelecidos pela Constituição.

O modelo foi ampliado posteriormente. Em 2019, a Emenda Constitucional 100 estendeu a execução obrigatória às programações apresentadas por bancadas estaduais, aumentando a participação do Congresso na definição de recursos que precisam ser executados pelo governo federal.

A participação retoma uma discussão que Tião Viana já havia levado ao debate público. Em fevereiro de 2024, ele e o jornalista Giba Braga Mello publicaram um artigo intitulado “A República rasa do parlamentarismo orçamentário”. No texto, os autores criticaram a concentração da atuação do Legislativo na liberação de emendas e defenderam que esse processo reduz espaço dos Executivos na definição de prioridades orçamentárias. A expressão “parlamentarismo orçamentário” foi usada pelos autores para descrever essa mudança na relação entre os Poderes.

A discussão também atravessa a trajetória política de Tião Viana. Ele foi eleito senador pelo Acre em 1998, exerceu mandato no Senado a partir de 1999 e foi reeleito. Em dezembro de 2010, renunciou ao mandato parlamentar para assumir o governo do Acre em 1º de janeiro de 2011. Depois, foi reeleito governador e permaneceu no cargo até o fim de 2018.

A experiência nos dois Poderes coloca Tião Viana em uma posição particular dentro da discussão. Como senador, participou diretamente das decisões legislativas e orçamentárias do Congresso. Como governador, passou a comandar um Executivo estadual dependente de planejamento, execução de despesas e transferências de recursos federais.

Tião Viana diz estar “de corpo e alma” na campanha de Virgílio à Câmara dos Deputados

O ex-governador e ex-senador Tião Viana afirmou que está “de corpo e alma” na campanha do filho, Virgílio Viana, que disputa uma vaga de deputado federal pelo Acre. Tião participa ativamente da candidatura e diz que pretende colocar a experiência acumulada na vida pública à disposição do filho, sem interferir na construção de uma trajetória própria para a nova geração.

“Estou de corpo e alma na campanha do meu filho. Quero estar ao lado dele, transmitir aquilo que aprendi ao longo da minha trajetória e, ao mesmo tempo, respeitar o caminho que ele está construindo. Virgílio pertence a uma nova geração e precisa apresentar suas próprias respostas para os desafios do Acre”, afirmou Tião.

Formado em Direito e integrante de uma família com longa atuação na política acreana, Virgílio reconhece a influência da trajetória do pai, mas tenta construir uma candidatura ligada aos problemas atuais do estado. Entre os temas apresentados na campanha estão inovação, empreendedorismo, melhoria dos serviços públicos, sustentabilidade e políticas voltadas à população de menor renda.

“Tenho orgulho do que meu pai construiu, mas sei que preciso conquistar a confiança dos acreanos pelo que tenho a oferecer. Quero olhar para os problemas de hoje, sem perder de vista quem mais precisa do poder público”, afirmou Virgílio.

Tião Viana foi eleito duas vezes senador e governou o Acre por oito anos. Entre as ações associadas às suas gestões estão o Saúde Itinerante, criado para levar atendimento a comunidades com dificuldade de acesso aos serviços médicos, e iniciativas de incentivo a florestas plantadas, com produção vinculada à conservação ambiental. Ao falar sobre a campanha do filho, o ex-governador defendeu que as soluções apresentadas agora precisam considerar as mudanças ocorridas no estado nas últimas décadas.

“Fiz a minha parte e agora quero apoiar meu filho para que ele faça a dele. O Acre mudou, surgiram outras necessidades e cabe a quem chega agora encontrar respostas para esse novo momento. Quero estar presente, ajudar no que puder e colocar minha experiência à disposição dessa nova caminhada”, disse.

A campanha de Virgílio tem colocado entre as prioridades o apoio aos pequenos negócios, a qualificação profissional, a geração de empregos e a melhoria dos serviços públicos. A permanência dos jovens no Acre também entrou no debate diante da perda populacional registrada nos últimos anos.

Dados do Censo 2022 mostram que o Acre teve saldo migratório negativo de 23,7 mil moradores entre 2017 e 2022. Nesse período, 33,9 mil pessoas deixaram o estado e 10,2 mil chegaram. Virgílio defende a criação de oportunidades para quem pretende permanecer no Acre e condições para que jovens que saem em busca de formação ou emprego possam retornar.

Saúde, segurança e educação também aparecem entre as propostas apresentadas durante a campanha. Virgílio defende ampliar o atendimento médico, melhorar a qualidade do ensino e reforçar políticas de enfrentamento à violência, levando em consideração as diferenças entre Rio Branco e os municípios do interior.

A tecnologia é outro eixo da candidatura. Virgílio sustenta que ferramentas digitais podem reduzir os impactos das grandes distâncias entre os municípios e facilitar o acesso à educação e aos serviços públicos. Em publicação recente nas redes sociais, ele também relacionou inteligência artificial, novas profissões e qualificação da juventude ao debate sobre o futuro econômico do Acre.

Na área ambiental, a proposta apresentada é conciliar conservação e atividade econômica, com valorização da floresta em pé e aproveitamento dos recursos naturais em benefício das comunidades. As ideias fazem parte do conceito apresentado pela campanha como “Acre do futuro”, que reúne modernização da gestão pública, desenvolvimento econômico, tecnologia e uso sustentável dos ativos ambientais.

Para Tião Viana, o papel na campanha será contribuir com a experiência política sem definir os passos do filho. “Legado não é repetir uma história. É deixar referências para que quem vem depois avance e faça a sua parte. Estou ao lado do Virgílio porque acredito na capacidade dele e porque entendo que a política também precisa abrir espaço para novas ideias e novas gerações”, afirmou.

Virgílio Viana entra no debate eleitoral com crítica à falta de oportunidades no Acre

Em uma edição especial, no Vale dos Buritis, o Jornal da Manhã, da Rádio Integração, recebeu o ex-governador Tião Viana e o advogado Virgílio Viana, de 23 anos, pré-candidato a deputado federal. A entrevista, conduzida por Chico Melo e Rogério Venceslau, colocou no centro da conversa a entrada de Virgílio na política, o peso do legado familiar, a saída de jovens do Acre, a falta de oportunidades e a disputa sobre o rumo do Estado nos últimos anos. A entrevista foi ao ar na manhã desta quinta-feira (28), em cadeia no Youtube e na 99,9 FM.

Logo na abertura, Chico Melo apresentou Tião como parte da história política do Acre e Virgílio como um jovem que tenta ocupar espaço em um momento de desgaste da política tradicional. Tião tratou a presença do filho como uma passagem entre gerações. Para ele, estar ao lado de Virgílio naquele cenário era “uma entrega do passado do Acre, dos últimos anos, do presente e entregando ao futuro uma oportunidade”. A frase resumiu o tom da entrevista: Virgílio não aparece apenas como filho de um ex-governador, mas como alguém que tenta transformar herança política em projeto próprio.

Virgílio negou que tenha sido empurrado para a disputa. Contou que a decisão nasceu de uma inquietação pessoal diante do que vê no Estado. “Eu tô muito incomodado com o cenário que eu vejo o Acre vivendo hoje”, disse. O pré-candidato afirmou que passou a sentir esse incômodo ao ver amigos, familiares e jovens de sua geração deixando o Acre em busca de oportunidade e qualidade de vida em outros lugares. Para ele, esse êxodo juvenil virou uma ferida aberta no Estado.

O ponto mais forte da fala de Virgílio foi a defesa de que o Acre precisa voltar a oferecer futuro para quem nasce, estuda e quer trabalhar aqui. Ele citou jovens que concluem o ensino médio, entram na universidade, formam-se e, depois, não encontram espaço no mercado. Disse que muitos acabam dependendo de algum arranjo em prefeitura, governo ou secretaria. Na avaliação dele, essa falta de caminho empurra parte da juventude para a frustração e, nos casos mais graves, para o crime. “Isso não pode ser o novo normal do Acre”, afirmou.

Tião Viana revelou que a decisão do filho não foi recebida de imediato com entusiasmo dentro de casa. Disse que, como pai, tentou convencê-lo a seguir outro caminho. Chamou o Congresso Nacional de ambiente contaminado por práticas ruins e afirmou que chegou a aconselhar Virgílio a atuar como advogado ou criar uma organização para ajudar pessoas fora da política. “Esse mundo tá podre”, disse Tião, ao lembrar a reação que teve quando ouviu do filho que ele queria disputar uma vaga de deputado federal.

Virgílio, porém, insistiu. O argumento que convenceu a família, segundo Tião, foi o de que o espaço público não pode ser abandonado. “Se não for pessoa boa pro parlamento, vão ficar só as ruins”, afirmou o ex-governador, ao reproduzir a fala do filho. A partir daí, disse que ele e a ex-primeira-dama Marlúcia Viana aceitaram acompanhar a caminhada. “Pai e mãe tão na chuva e no sol com filho que ama”, completou.

A entrevista também abriu espaço para Tião defender o legado de seus governos. Ele citou a integração da BR-364, investimentos em infraestrutura, saneamento, mecanização agrícola, saúde, educação e desenvolvimento regional. Disse que a estrada foi tratada como prioridade porque era a “espinha dorsal” do Acre. Na comparação com o cenário atual, afirmou que o Estado perdeu capacidade de investimento e passou a viver preso à folha de pagamento.

Na educação, Tião fez uma das críticas mais duras. Afirmou que o Acre chegou a ocupar a oitava posição no Brasil e a primeira na Amazônia durante sua gestão, mas hoje aparece em situação muito pior. Também citou a criação do curso de Medicina e a formação de jovens médicos no Estado. Ao falar da saúde, lembrou relatos de moradores de Feijó sobre a perda de estrutura hospitalar e a dificuldade de acesso a cirurgias e especialistas.

Virgílio tentou ligar essa memória administrativa ao presente. Disse que o Acre precisa recuperar prestígio em Brasília, buscar recursos federais, tratar emendas parlamentares com responsabilidade e priorizar áreas que cheguem à vida real das pessoas. Falou em agricultura familiar, cultura, esporte, programas sociais e políticas para a juventude. Para ele, cultura e esporte são “vacinas contra a criminalidade” e contra a falta de perspectiva.

A conversa também entrou no tema do desenvolvimento econômico. Tião defendeu industrialização, bioeconomia, produção de alimentos, uso inteligente da terra e valorização da floresta em pé. Virgílio reforçou a ideia com exemplos como granjas, suínos, açaí, cacau, café, cooperativas e produção rural em pequenas áreas. “O Acre pode se desenvolver, pode se industrializar de uma forma sustentável”, disse.

No campo político, Virgílio reconheceu que encontra uma juventude descrente e dividida pela polarização nacional. Defendeu o diálogo e citou programas federais como Pé-de-Meia, crédito para trabalhadores de aplicativo, Pronampe, Desenrola Brasil, reformas habitacionais e Vale Gás. Para ele, a política precisa sair da briga permanente e chegar ao cotidiano das famílias.

A imagem mais concreta usada por Virgílio foi a de uma criança de quatro anos, no bairro São Francisco, em Rio Branco, cozinhando em um fogão quebrado, com lenha, perto do igarapé. A lembrança serviu para amarrar o principal recado da entrevista: política não pode ser apenas disputa de poder, cargo ou sobrenome. Precisa chegar à casa de quem vive sem estrutura, ao jovem que quer ficar no Acre, ao produtor que precisa trabalhar e às famílias que não aguentam mais promessas distantes.