Com Clodoaldo ao lado, Velloso mira Senado e promete interior mais perto da saúde
O deputado federal Eduardo Velloso transformou a entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, nesta quinta-feira, 2 de julho, em Cruzeiro do Sul, numa largada pública para tentar ocupar espaço na disputa pelo Senado e vender ao Vale do Juruá uma ideia simples: a saúde será o centro do seu discurso, das suas alianças e da sua tentativa de subir de patamar na política acreana. Ao lado do deputado estadual Clodoaldo Rodrigues, Velloso falou de ressonância destravada, cardiologia, oftalmologia, mutirões, emendas, atendimento nos municípios isolados, ligação com o Peru e de uma pré-candidatura que, nas palavras dele, está “cada vez mais crescendo”. A entrevista ganhou peso porque veio um dia depois de a governadora Mailza Assis aparecer em vídeo tratando o parlamentar como “novo senador”, frase que colocou fogo na sucessão de 2026 e obrigou Velloso a responder, no rádio, se já está dentro da chapa governista.
A pergunta veio direta. Chico Melo lembrou que Velloso havia entrado na política depois de uma vida profissional estável, como médico e empresário, e quis saber o que o empurrou para esse caminho. A resposta levou a conversa para o ponto que o deputado escolheu como território político: a dificuldade de atendimento no interior. Velloso citou a ressonância que estava parada, a chegada da cardiologia, a oftalmologia e a rotina de quem vive em Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, cidades que dependem de Cruzeiro do Sul quando a dor passa do limite do que o município consegue resolver. “A maior dor das pessoas é a saúde”, disse o deputado, antes de defender que cada município tenha, pelo menos, ortopedista, cirurgião, anestesista, clínico e pediatra.
Essa frase explica por que a entrevista não ficou presa apenas ao jogo eleitoral. No Juruá, saúde é disputa política porque é também a vida concreta de quem precisa sair de madrugada atrás de consulta, de quem espera exame, de quem sofre acidente em campo de futebol e encontra apenas um raio-x sem especialista para fechar diagnóstico, de quem depende de regulação para Rio Branco quando o problema já não pode esperar. Velloso sabe disso. E, como médico, tenta transformar essa experiência em capital político. Na Câmara dos Deputados, ele aparece oficialmente como Eduardo Ovídio Borges de Velloso Vianna, deputado federal do Acre, filiado ao Solidariedade, médico de formação e integrante titular da Comissão de Saúde em 2026.
O anúncio mais imediato da manhã foi a entrega de 103 óculos para famílias sem condições de comprar, numa ação em parceria com o prefeito Zequinha Lima. Velloso disse que tinha o sonho de levar esse atendimento ao Juruá e creditou ao prefeito de Cruzeiro do Sul a execução da agenda. O deputado também citou a parceria com Clodoaldo, Maria Antônia e “Deda” ao afirmar que mais de R$ 10 milhões foram levados apenas para a saúde de Cruzeiro do Sul. Ele ligou esse dinheiro aos mutirões realizados no município e disse que as ações ajudaram a melhorar o atendimento da população.
Os números oficiais da Câmara reforçam o tamanho da aposta de Velloso na área. Em 2026, aparecem no orçamento R$ 11,8 milhões autorizados para estruturação de unidades de atenção especializada em saúde no Acre e R$ 7,5 milhões para custeio temporário da atenção primária. Também há R$ 13,5 milhões em transferências especiais no Estado. No ano anterior, em 2025, a Câmara registrou R$ 7,9 milhões autorizados, empenhados e pagos para custeio da atenção primária e R$ 11,4 milhões pagos em transferências especiais no Acre.
O que Velloso tentou fazer no rádio foi dar rosto a esses valores. A política de emendas costuma chegar ao eleitor como número solto, difícil de acompanhar, mas no interior ela vira ambulância, reforma, mutirão, exame, cadeira em unidade de saúde, iluminação de campo, apoio a instituição social ou quilômetro de asfalto. Foi nesse ponto que Clodoaldo Rodrigues entrou com força na entrevista. Ele não apareceu apenas como aliado sentado ao lado. Apareceu como fiador da relação de Velloso com Cruzeiro do Sul e com o Juruá.
Clodoaldo, cujo nome completo é Francisco Clodoaldo de Souza Rodrigues, é deputado estadual pelo PP na Assembleia Legislativa do Acre. O cadastro oficial do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo registra o parlamentar como filiado ao Progressistas e representante da Aleac. Na entrevista, ele fez questão de dizer que não votou em Velloso para deputado federal em 2022, mas acabou encontrando nele o principal parceiro para tocar demandas do mandato. “Quem é patrocinador? Só tenho o Velloso por enquanto”, disse Clodoaldo, numa frase que mostra tanto a gratidão política quanto a dependência de deputados estaduais em relação a emendas federais para atender suas bases.
Clodoaldo citou recursos para a Delegacia de Cruzeiro do Sul, o Educandário, os bombeiros, a Polícia Militar e outras instituições. Falou ainda de R$ 2,8 milhões destinados em dezembro de 2025 para entidades de Cruzeiro do Sul e para a iluminação do campo da Vila Santa Rosa, pedido ligado à vice-prefeita Delcimar Leite. Depois, ampliou a conta: disse que Velloso colocou R$ 3 milhões em suas mãos para o ramal Mariana de Cima e que o total no Deracre chega a R$ 11 milhões para obras na região do Juruá.
A fala de Clodoaldo também ajudou Velloso a atravessar a parte mais delicada da entrevista: a pergunta sobre Senado. A governadora Mailza Assis havia chamado o deputado de “novo senador”, e a frase foi lida imediatamente como recado sobre a composição da chapa governista. Velloso não cravou lugar na chapa, mas também não recuou. Disse que a pré-candidatura está crescendo e brincou que agora estaria “conquistando o coração” da governadora. Clodoaldo foi mais direto ao defender que Velloso pode ser candidato ao Senado com ou sem a presença formal na chapa de Mailza. Para ele, eleição majoritária tem outro comportamento e o deputado federal já tem condições de disputar.
Essa diferença de tom foi uma das partes mais reveladoras da manhã. Velloso mediu as palavras para não fechar portas. Clodoaldo falou como quem já trabalha a candidatura na rua. O deputado estadual disse que, quando Velloso pensou em disputar o Senado, chegou a aconselhá-lo a buscar a reeleição para a Câmara, mas agora trata o projeto como posto. A avaliação dele tem lógica eleitoral: Velloso entrou no debate com imagem ligada à saúde, circula com entrega concreta no Juruá, mantém interlocução com o governo e tenta ocupar uma vaga num cenário em que a sucessão estadual ainda depende de acordos mal resolvidos entre Mailza, Gladson Cameli, partidos da base e lideranças que querem espaço na majoritária.
A entrevista também atravessou um tema que vai além do Acre e mira a economia regional. Velloso defendeu que o Vale do Juruá pode ser porta de um novo ciclo por causa da ligação com o Peru, especialmente por Pucallpa. Ele falou da presença de autoridades peruanas na ExpoJuruá, entre elas um senador, um governador e representantes daquela região. O argumento do deputado é econômico: uma rota mais barata de transporte atrai quem quer comprar e vender, inclusive mercados asiáticos e a China.
Essa pauta não é detalhe. Quando um deputado fala em saúde no primeiro bloco e em Peru no segundo, ele tenta juntar duas dores antigas do Acre: o isolamento do cidadão diante do serviço público e o isolamento econômico diante dos grandes corredores de comércio. O Juruá conhece os dois problemas. A família que procura atendimento especializado e o comerciante que paga caro pelo frete fazem parte da mesma geografia. Velloso tenta dizer que pode tratar das duas pontas: levar especialista para perto de quem precisa e abrir caminho para que a região deixe de viver como fim de linha.
A presença da médica cardiologista Regiane Velloso, esposa do deputado, deu uma camada concreta ao debate sobre saúde. Ela lembrou que voltou ao Acre em 2006, trabalha como cardiologista na Fundação Hospitalar e ajudou a montar o serviço de alta complexidade em cardiologia, com cateterismo, stent e cirurgia cardíaca. Na entrevista, Regiane disse que, durante a campanha de 2022, percebeu que pacientes do Juruá com infarto não conseguiam chegar a Rio Branco a tempo. A partir daí, nasceu a promessa de levar cardiologia ao Hospital do Juruá. Dois anos depois, segundo ela, o serviço da Hemocárdio já funciona dentro da unidade.
Velloso completou esse ponto com um dado forte: mais de 1.360 procedimentos de coração realizados em Cruzeiro do Sul. Para o deputado, cada procedimento representa vida preservada e deslocamento evitado. Essa é a parte da entrevista com maior capacidade de chegar ao eleitor sem tradução política. Quem já viu um parente enfartar no interior entende a diferença entre ter atendimento perto e depender de viagem para a capital.
No fim, o Jornal da Manhã colocou Velloso diante de três testes ao mesmo tempo. O primeiro foi explicar por que quer o Senado. O segundo foi mostrar o que já entregou. O terceiro foi responder se sua candidatura nasce dentro do projeto de Mailza ou se tem fôlego próprio para sobreviver fora dele. Ele não fechou a equação, mas deixou claro que está em campanha. Falou como pré-candidato, apresentou serviços, chamou aliados para perto, usou a saúde como vitrine e deixou Clodoaldo fazer a defesa mais aberta de seu nome.
A entrevista também mostrou que Clodoaldo quer entregar o mandato com marca própria no Juruá. Ele disse que pode até não ser reeleito, mas desafiou qualquer deputado estadual a provar que colocou mais recursos ou teve mais presença em Cruzeiro do Sul e na região. É uma fala de quem sabe que a disputa de 2026 não será apenas por partido ou palanque. Será por lembrança. Quem levou recurso, quem apareceu, quem atendeu, quem abriu porta e quem sumiu.
Velloso saiu do estúdio com uma frase da governadora nas costas, um aliado estadual ao lado e uma agenda de saúde na mão. Não é pouco. Mas também não resolve tudo. O caminho até o Senado exige mais que mutirão, óculos, emenda e boa entrevista. Exige costura partidária, resistência a crises, capacidade de explicar alianças e, sobretudo, prova de que os recursos anunciados viram serviço permanente. No Juruá, promessa tem prazo curto. O eleitor escuta no rádio pela manhã e cobra na rua no mesmo dia.