Diocese de Rio Branco cobra repasses e diz que Hospital Santa Juliana opera no limite

A Diocese de Rio Branco afirmou, em coletiva realizada na terça-feira, 23 de junho, na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, que os atrasos nos pagamentos do governo do Acre ao Hospital Santa Juliana e à Casa de Acolhida Souza Araújo levaram as duas instituições a uma situação crítica. Segundo a Igreja, a dívida acumulada passa de R$ 20 milhões. No mesmo dia, houve um repasse de cerca de R$ 3,5 milhões, mas a Diocese disse que o valor cobre apenas parte do passivo e não resolve o problema.

Ao detalhar o quadro, o bispo dom Joaquim Pertíñez disse que a crise se arrasta há anos e chegou a um ponto insustentável. “A situação chegou a um limite que já vinha se arrastando há vários anos, não é de hoje. Fomos aguentando, mas chegou o limite que não temos mais viabilidade de continuar os serviços, tanto hospitalares quanto na Casa de Acolhida Souza Araújo”, afirmou.

Dom Joaquim disse que o Hospital Santa Juliana ainda não interrompeu totalmente os atendimentos, mas reconheceu impacto direto em áreas de alta complexidade. “Até o momento, nenhum serviço está paralisado. As cirurgias cardíacas estão fechadas porque os nossos fornecedores de material não recebem. Portanto, não tem como fazer cirurgias cardíacas”, declarou. Em outro momento, responsabilizou o governo pela suspensão desse tipo de procedimento. “É bom que todo mundo saiba que, se as cirurgias cardíacas que muitas pessoas precisam não estão sendo realizadas, não é culpa do hospital, não é culpa do bispo. É culpa do governo que não repassa, não paga”, disse.

O bispo também afirmou que a Diocese tem recorrido a empréstimos para manter a estrutura funcionando e pagar os trabalhadores. “Nós vivemos de empréstimos para poder pagar nossos funcionários e tudo mais. O hospital ajudava financeiramente a Casa de Acolhida Souza Araújo quando o governo atrasava. Mas agora o hospital não tem condições nem de se manter e muito menos de injetar dinheiro na casa”, declarou. Segundo ele, a situação da Casa Souza Araújo também expõe a falta de recursos para manutenção e investimentos.

A cobrança pública da Diocese ganhou força após a divulgação de uma nota em que a instituição afirmou que o Santa Juliana responde por parte expressiva dos partos realizados em Rio Branco e também atende pacientes em cirurgias cardíacas e urológicas de alta complexidade pelo SUS. No texto, a Igreja afirmou que os serviços foram prestados, auditados e reconhecidos pelo poder público, e que a manifestação não tem caráter político-partidário, mas busca garantir a continuidade do atendimento à população.

Após a coletiva, o governo do Acre informou, por meio da Secretaria de Estado de Saúde, que os valores apresentados pela Diocese reúnem processos de naturezas diferentes, incluindo repasses em tramitação regular e procedimentos ainda em fase administrativa. A Sesacre afirmou que o Hospital Santa Juliana recebeu mais de R$ 50 milhões em 2026, incluindo os repasses de março e abril, e sustentou que a competência de maio ainda está em análise, sem caracterização de obrigação vencida.

O impasse expôs o agravamento da relação entre a Diocese e o governo em torno do financiamento de serviços essenciais de saúde. Enquanto a Igreja diz que o hospital e a casa de acolhida operam no limite e sem margem para continuar absorvendo atrasos, o governo afirma que parte dos valores cobrados ainda depende de trâmites técnicos e administrativos.

Foto: Contilnet

Governo acumula dívida de mais de R$ 20 milhões com o Hospital Santa Juliana

A Diocese de Rio Branco cobrou publicamente, nesta segunda-feira, 21 de junho de 2026, a regularização de uma dívida de mais de R$ 20 milhões do governo do Acre com o Hospital Santa Juliana, em Rio Branco, por atendimentos prestados ao Sistema Único de Saúde, já realizados, auditados e reconhecidos pelo poder público. O atraso nos repasses, acumulado ao longo dos últimos anos, atinge a principal unidade filantrópica de saúde do Estado e ameaça serviços usados diariamente por pacientes de todos os municípios acreanos.  

O Santa Juliana não ocupa posição secundária na rede pública. Cerca de 80% dos atendimentos feitos pelo hospital são destinados a usuários do SUS. Na prática, isso significa que a crise financeira da instituição não afeta apenas a administração interna, fornecedores ou contratos de manutenção. Ela alcança diretamente pacientes que dependem da unidade para cirurgias, internações, partos e procedimentos que o próprio Estado não consegue absorver sozinho.

A situação é mais sensível porque o hospital concentra serviços que não têm substituição simples no Acre. O Santa Juliana é a única instituição hospitalar que realiza regularmente cirurgias cardíacas no Estado, área em que a interrupção ou redução de capacidade pode obrigar pacientes a buscar tratamento fora do Acre. Também é a única unidade que realiza cirurgias urológicas eletivas de alta complexidade, atendendo pessoas encaminhadas de diferentes municípios.

A maternidade é outro ponto central da cobrança. Aproximadamente metade dos partos realizados em Rio Branco ocorre no Santa Juliana. A informação dimensiona o risco de qualquer instabilidade na unidade: uma crise prolongada no hospital pressionaria imediatamente a rede obstétrica da capital, com reflexo sobre mães, recém-nascidos e equipes de saúde.

A mensagem assinada por Dom Joaquín Pertíñez, bispo de Rio Branco, trata a dívida como uma ameaça à continuidade de serviços essenciais. A Diocese afirma que o hospital atravessa um dos momentos mais delicados de sua história por causa dos sucessivos atrasos nos repasses financeiros devidos pelo Estado referentes aos serviços prestados ao SUS. A cobrança também alcança a Casa de Acolhida Souza Araújo, mantida pelas Obras Sociais da Diocese, que recebe pacientes em situação de vulnerabilidade social e de saúde. Os repasses para a manutenção desse serviço também estão atrasados.

O comunicado evita enquadrar a cobrança como disputa partidária. A Diocese afirma que a manifestação “não tem caráter político-partidário nem busca privilégios ou benefícios especiais” e cobra providências das autoridades para regularizar os pagamentos pendentes. O ponto central é objetivo: os serviços foram prestados, passaram por auditoria, foram reconhecidos pelo poder público e seguem sem pagamento integral.

O problema expõe uma dependência antiga da saúde acreana em relação às instituições filantrópicas. O Santa Juliana funciona como retaguarda de alta complexidade para o SUS, especialmente em áreas nas quais a rede pública estadual não oferece cobertura suficiente. Quando o governo atrasa repasses por anos, transfere para o hospital o custo imediato de manter equipes, estrutura, insumos e atendimento funcionando.

A Diocese também reforça que o Santa Juliana não pertence apenas à Igreja Católica. A instituição faz parte da história da saúde no Acre e atende uma demanda pública que vai além de Rio Branco. Por isso, a dívida de mais de R$ 20 milhões não pode ser tratada apenas como pendência administrativa. Ela envolve a capacidade do Estado de garantir assistência a pacientes que dependem do SUS para procedimentos de alta complexidade.