Jéssica Sales troca o discurso de oposição pelo aval ao governo que combatia

Ao defender uma campanha do respeito e da serenidade, candidata a vice-governadora precisará explicar aos próprios eleitores por que passou a apoiar um grupo que enfrentou duramente até ontem e como concilia seu discurso com as contradições do projeto que agora representa.

A política costuma exigir alianças improváveis, mas também cobra coerência. E é justamente nesse ponto que a pré-candidata a vice-governadora Jéssica Sales inicia sua nova caminhada ao lado da governadora Mailza Assis carregando uma série de perguntas que dificilmente desaparecerão durante a campanha.

Na apresentação oficial da chapa, Jéssica falou em respeito, diálogo, honestidade e afirmou que “não é preciso gritar com ninguém nem dar murro na mesa para governar”. O discurso buscou transmitir serenidade e estabelecer um contraste com adversários, numa referência amplamente interpretada como dirigida ao episódio envolvendo o senador Alan Rick no Aeroporto de Brasília.

O problema é que o maior desafio de Jéssica talvez não seja responder aos adversários, mas aos próprios eleitores.

Em 2024, ela foi a principal adversária do grupo político liderado por Gladson Cameli na disputa pela Prefeitura de Cruzeiro do Sul. Travou uma campanha dura contra a base governista e perdeu por uma diferença mínima de votos. Agora, menos de dois anos depois, aparece de mãos dadas justamente com aqueles que eram seus principais adversários. O que mudou? Houve mudança de convicções, de avaliação do governo ou apenas uma nova composição eleitoral? Essa é uma explicação que milhares de eleitores certamente esperarão ouvir.

Outra questão envolve o próprio governo que Jéssica passa a defender. Durante anos, ela foi uma das vozes mais críticas da gestão de Gladson Cameli. Agora, integra uma chapa encabeçada pela vice-governadora que assumiu o comando do Estado como continuidade desse mesmo projeto político. Nesta semana, um levantamento divulgado pela CBN Rio Branco mostrou que, dos 36 compromissos assumidos no plano de governo de Gladson Cameli e Mailza Assis, apenas nove foram efetivamente cumpridos, sendo parte deles apenas parcialmente executada. Se esse balanço servir de parâmetro para avaliar a gestão, Jéssica passa a emprestar sua credibilidade para pedir à população a renovação de um projeto cujo desempenho, sob esse critério, está longe de ser satisfatório.

Há ainda uma contradição que dificilmente deixará de ser explorada durante a campanha. Ao defender respeito às pessoas e condenar comportamentos agressivos, Jéssica se associa a uma chapa cuja titular é casada com um secretário de Estado que responde a processos relacionados a acusações de violência doméstica. Um desses episódios ocorreu justamente em Cruzeiro do Sul, cidade natal de Jéssica Sales, e teve enorme repercussão local. As imagens e relatos divulgados à época provocaram forte comoção entre muitas mulheres da região, especialmente entre vítimas de violência doméstica e pessoas sensibilizadas pelo caso. Independentemente do desfecho judicial, que cabe exclusivamente à Justiça definir, permanece a cobrança política: como sustentar um discurso de defesa das mulheres sem enfrentar publicamente um episódio que abalou justamente a cidade que Jéssica afirma representar com tanto orgulho? O silêncio, nesse contexto, tende a ser interpretado como uma escolha política.

Essas perguntas não diminuem o significado histórico de uma chapa formada por duas mulheres, fato inédito na política do Acre. Pelo contrário. Tornam ainda maior a responsabilidade de ambas em responder, com transparência, às cobranças da sociedade.

A política permite mudar de lado, construir alianças e até rever posições. O que não permite é imaginar que a memória do eleitor desapareça entre uma eleição e outra. Quem ontem criticava um governo e hoje pede votos para sua continuidade precisa explicar o que mudou. Quem faz do respeito a principal bandeira de campanha também precisa demonstrar que esse compromisso vale para todos os casos, inclusive aqueles que aconteceram dentro da própria casa política.

É essa coerência — e não apenas os discursos de lançamento — que os acreanos terão o direito de cobrar durante toda a campanha eleitoral.

TCE-AC suspende contratos milionários, e Naluh Gouveia cita compra de “igapó” e suspeitas de desvios

O Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC) suspendeu pagamentos e aquisições que envolvem mais de R$ 36 milhões em contratos da Secretaria de Estado de Agricultura (Seagri) e da Secretaria de Estado de Indústria, Ciência e Tecnologia (Seict). Em entrevista a TV Gazeta, nesta terça-feira, 21, a conselheira Naluh Gouveia afirmou que os processos apresentam falta de transparência, ausência de justificativas técnicas e suspeitas de desvio de finalidade em ano eleitoral.

Entre os casos analisados está a tentativa de compra, por R$ 22,6 milhões, de um terreno destinado à instalação do parque de exposições. Após visitar a área, Naluh considerou o espaço inadequado para receber a estrutura planejada. “Nós temos denúncia de tudo que é jeito. Como é que você prioriza dinheiro público para um terreno que é um charco e um sistema que não funciona?”, questiona.

A conselheira também questionou as condições do imóvel e a decisão do governo de escolhê-lo para o empreendimento. “Boa parte desse terreno, eu fui lá, é um charco, é um ‘igapó’, como nós acreanos costumamos falar. Ou esse governo é muito criativo para fazer parque de exposição dentro de um igapó, ou alguma tecnologia vai ser usada que eu não conheça. Eu só sei que aquele terreno é inapropriado para o que queriam.”

A negociação foi cancelada depois da medida cautelar expedida pelo tribunal. Naluh afirmou que a decisão impediu o pagamento de multas elevadas e evitou o uso indevido de um valor que classificou como “imenso e absurdo”.

O TCE-AC também analisa contratos de tecnologia envolvendo as duas secretarias. A Seagri pretendia gastar cerca de R$ 5 milhões na contratação de um sistema próprio, mas deixou o projeto para aderir a uma licitação realizada pela Seict, com valor superior a R$ 9 milhões.

“São duas secretarias: uma fez o processo licitatório e a outra pegou carona. A Seict fez o processo e a Seagri pegou carona, então elas estão intrinsecamente ligadas. Se não fosse a ação da cautelar, teriam sido pagos valores altos […] São valores altíssimos, dinheiro público.”

Além das possíveis irregularidades administrativas, o tribunal apura denúncias de que recursos dos contratos poderiam ser usados para financiar campanhas eleitorais. A conselheira afirmou que a suspeita ainda está em fase de verificação. “Há denúncias gravíssimas com relação à Secretaria de Agricultura de querer acumular dinheiro para campanhas. Isso a gente ainda está verificando, mas é seríssimo. Estamos em um período extremamente delicado.”

Naluh confirmou que as informações deverão ser encaminhadas à Justiça Eleitoral e defendeu que o dinheiro público seja aplicado nas necessidades da população. “A gente não pode envolver dinheiro público em campanha […] O povo tem outras necessidades que não são essa a prioridade.”

Os responsáveis pelos processos deverão apresentar defesa ao TCE-AC. A medida cautelar ainda precisa ser analisada pelo plenário do tribunal, que decidirá se mantém a suspensão dos pagamentos. “O próximo passo é a decisão ser ratificada dentro do Pleno, o que eu tenho certeza de que será. E aí, se não forem para a Justiça, o governo não pode realmente tomar nenhuma iniciativa de pagamento.”

Autoridades cobram investigação e prestam solidariedade a Chico Melo após ataque em Cruzeiro do Sul

Autoridades, lideranças políticas e entidades de classe prestaram solidariedade ao jornalista Chico Melo e cobraram uma investigação rápida sobre a invasão de sua residência e as agressões sofridas durante a madrugada desta quarta-feira, 22 de julho, em Cruzeiro do Sul. As manifestações trataram o episódio como uma ameaça à liberdade de imprensa e defenderam a identificação dos autores e de possíveis mandantes. O caso está sob investigação da Polícia Civil.

O prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, suspendeu parte da agenda para prestar solidariedade pessoalmente ao jornalista. Ele afirmou conhecer Chico desde a infância e disse confiar no caráter e na seriedade do profissional.

“Eu suspendi minha agenda para vir aqui e dar um abraço no Chico. Conheço o Chico desde a infância e sei do caráter e da seriedade que ele sempre teve em sua vida”, declarou.

Zequinha afirmou que o ataque não deve ser tratado apenas como uma violência individual. Para o prefeito, a agressão alcança todos os profissionais que trabalham com informação no Acre.

“O Chico teve a liberdade de expressão ameaçada. Quando eu falo do Chico, falo de todos os jornalistas acreanos. A partir do momento em que um jornalista sofre violência por noticiar informações, todos estão ameaçados”, disse.

O prefeito cobrou uma resposta das instituições estaduais e afirmou que divergências políticas ou editoriais não podem transformar jornalistas em inimigos. “Quero cobrar do Estado uma resposta para esse episódio e para essa afronta à democracia. As instituições não podem se calar diante de um caso tão grave.”

Zequinha também pediu uma reação da sociedade. “Hoje aconteceu com o Chico, mas amanhã poderá acontecer com outras pessoas. A sociedade e as instituições precisam levantar a voz.”

O ex-governador e ex-senador Jorge Viana defendeu proteção para Chico Melo, sua residência e o exercício da atividade jornalística. Ele afirmou que profissionais da imprensa precisam ter liberdade para investigar e publicar informações sobre corrupção, irregularidades e outros temas de interesse público.

“Jornalista tem que ter total liberdade para denunciar e falar de todos os temas. O Chico Melo é uma pessoa que trabalhou comigo e nunca agiu fora dos princípios que devem orientar um servidor e um colaborador”, afirmou.

Jorge Viana questionou o que aconteceria caso jornalistas fossem impedidos de publicar denúncias. “Se os jornalistas não puderem denunciar corrupção e irregularidades, terão que ficar todos calados? Isso é gravíssimo.”

Ele também defendeu medidas concretas de segurança. “O Chico precisa de proteção para a sua casa, para a sua integridade e para o exercício do seu trabalho. Ele não está apenas se sentindo ameaçado: sofreu uma agressão.”

Para Jorge Viana, pessoas ou instituições que se sintam prejudicadas por uma reportagem devem recorrer ao Poder Judiciário. “Quem se sentir atingido por uma notícia deve procurar a Justiça. Agredir, ameaçar e praticar um atentado exige uma ação firme das autoridades.”

O senador Alan Rick afirmou que o ataque precisa ser apurado e que os responsáveis devem receber punição prevista em lei. Ele classificou como inadmissíveis ameaças, invasões e agressões contra Chico Melo e o jornalista Rogério Wenceslau.

“Isso precisa ser apurado e os culpados devem ser punidos com todo o rigor da lei. É inadmissível agir contra o Chico e o Rogério com ameaças, invasões e agressões”, declarou.

Alan Rick afirmou que divergências fazem parte da democracia, mas não podem resultar em violência. “As divergências e os pontos de vista diferentes fazem parte da democracia, mas partir para a agressão, como esses covardes fizeram, é uma barbárie.”

O senador pediu que Chico continue trabalhando. “Chico, não abaixe a cabeça. Siga em frente. Ninguém pode intimidar jornalistas que estão cumprindo o seu papel e mostrando aquilo que a sociedade espera deles.”

Alan Rick também colocou seu mandato à disposição para colaborar com providências relacionadas ao caso. “Conte com o meu total apoio e solidariedade. No que estiver ao meu alcance, estaremos contribuindo.” Ele ocupa uma das cadeiras do Acre no Senado Federal.

O senador Sérgio Petecão defendeu a participação das forças estaduais de segurança e, caso seja necessário, da Polícia Federal. “Isso é um absurdo e ultrapassa todos os limites. Precisamos envolver as polícias Civil, Militar e, se for necessário, a Polícia Federal.”

Petecão afirmou que a invasão de uma residência e a exposição da família da vítima criam um precedente perigoso. “As divergências políticas, ideológicas e partidárias não podem chegar à invasão da casa de uma pessoa e à colocação de sua família em risco.”

O senador disse que poderá ajudar no encaminhamento das denúncias. “Quero prestar minha solidariedade e me colocar à disposição para ajudar na apresentação das denúncias às autoridades.”

Ele encerrou a manifestação cobrando responsabilização. “Esse caso não pode ficar impune. Não podemos nos calar diante desses fatos.” Sérgio Petecão exerce mandato no Senado pelo Acre até 2027.

O deputado estadual Edvaldo Magalhães afirmou que o ataque atingiu o direito da sociedade acreana à informação. Ele também reconheceu o trabalho realizado pela equipe da Rádio Integração no Vale do Juruá.

“Vocês estão cumprindo o papel extraordinário de levar à população do Acre, especialmente ao Vale do Juruá, informações às quais antes não se tinha acesso”, afirmou.

Edvaldo declarou que a agressão não pode ser analisada somente como um crime contra Chico Melo. “O direito à informação é um dos princípios e pilares da democracia. Na madrugada desta quarta-feira, a democracia foi atingida.”

“O atentado não foi apenas contra a vida do Chico Melo. Foi contra o Estado Democrático de Direito”, acrescentou.

O parlamentar anunciou que pretende levar o caso à Assembleia Legislativa do Acre. “Apresentarei uma denúncia e pedirei que a Assembleia Legislativa vote uma moção de repúdio e solidariedade à equipe da Rádio Integração, cobrando a apuração imediata dos fatos.”

O jornalista Itaan Arruda também prestou solidariedade a Chico Melo, Rogério Wenceslau e aos demais profissionais do Jornal da Manhã. Ele afirmou que o episódio não pode ser normalizado e precisa ser investigado até que a motivação e a autoria sejam esclarecidas.

“Nós não podemos nos calar nem normalizar uma situação como essa. Eu me solidarizo com Chico Melo, com Rogério Wenceslau e com toda a equipe do Jornal da Manhã”, declarou.

Itaan defendeu uma resposta das instituições de segurança e afirmou que o Governo do Estado deveria ter interesse direto no esclarecimento do crime. “É preciso saber quem teria interesse em sufocar e calar a voz de jornalistas que estão trabalhando.”

“O que aconteceu com Chico Melo é gravíssimo. Antes da agressão física, a imprensa já vinha sofrendo uma agressão institucional”, afirmou.

O jornalista também alertou para o risco de novos casos. “Hoje foi a equipe do Jornal da Manhã. Amanhã poderá ser qualquer outro jornalista. As autoridades precisam dar uma resposta forte e verdadeira.”

O ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom afirmou que recebeu com tristeza a notícia do ataque e defendeu o diálogo como caminho para resolver divergências.

“Esse não é o Acre com que sonhamos. Queremos um Acre de paz e sem violência, principalmente contra quem tem o dever de informar”, disse.

Bocalom prestou solidariedade em nome de amigos de Rio Branco e pediu que Chico continue exercendo seu trabalho. “Não abaixe a cabeça e não se intimide. Vamos continuar lutando para que o Acre se liberte desse tipo de comportamento.”

O Partido dos Trabalhadores do Acre também publicou uma nota de solidariedade ao jornalista, aos familiares e aos profissionais do Grupo Integração. O documento foi assinado pelo presidente estadual da legenda, André Kamai.

O partido afirmou que todas as possíveis motivações devem ser investigadas, inclusive uma eventual ligação com a atividade jornalística. O PT cobrou uma apuração “rápida, rigorosa e independente”, além da adoção de medidas de segurança para Chico Melo, seus familiares e os demais integrantes da emissora.

“Nenhuma divergência política ou editorial pode justificar ameaças, agressões ou perseguições. A imprensa deve exercer seu trabalho com liberdade e segurança”, afirmou o diretório estadual. André Kamai ocupa a presidência do PT no Acre.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Acre e a Federação Nacional dos Jornalistas também repudiaram o ataque. As entidades cobraram da Polícia Civil uma investigação célere, transparente e independente para esclarecer a autoria, a motivação e todas as circunstâncias do crime.

A Fenaj informou que levará o caso ao Grupo de Trabalho Eleitoral do Observatório da Violência contra Jornalistas e Comunicadores Sociais, ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

“Informar não é crime. Questionar não é crime. Fazer jornalismo não é crime”, afirmaram o presidente do Sinjac, Luiz Cordeiro de Souza, e a presidenta da Fenaj, Samira de Castro.

As manifestações convergem na cobrança por uma investigação sem interferências, na proteção de Chico Melo e na defesa do direito dos jornalistas de trabalhar sem ameaças. Até o esclarecimento da autoria e da motivação, as declarações políticas sobre uma possível relação entre o ataque e a atividade profissional permanecem como hipóteses que dependem da apuração policial.

Jornalista Chico Melo relata invasão, agressões e ameaça de morte dentro de casa em Cruzeiro do Sul

Jornalista Chico Melo relata invasão, agressões e ameaça de morte dentro de casa em Cruzeiro do Sul

O jornalista e diretor da Rádio Integração FM, Chico Melo, afirmou que homens armados invadiram sua casa durante a madrugada desta quarta-feira, 22 de julho, em Cruzeiro do Sul, quebraram uma janela, entraram no quarto e o agrediram enquanto procuravam documentos e o telefone celular. Ferido na cabeça e com hematomas pelo corpo, ele recebeu atendimento na Unidade de Pronto Atendimento e relatou o ataque horas depois, durante o Jornal da Manhã.

“Eles quebraram a janela, entraram no meu quarto e começaram a procurar uma pasta, documentos e o meu telefone”, afirmou Chico. Segundo o jornalista, a ação não tinha características de um roubo comum porque dinheiro e bens de valor não foram levados. “Não estavam procurando dinheiro nem objetos de valor. Estavam claramente procurando documentos.”

Chico contou que dormia com a luz apagada quando percebeu a entrada dos invasores. Um deles usava uma lanterna, tinha porte físico maior e calçava coturno. Outros dois homens participavam da ação. O jornalista disse que o grupo se comunicava de forma organizada e parecia ter conhecimento sobre o que buscava dentro da residência.

“A forma como um deles me colocou no chão, me imobilizou e manuseava a arma demonstra que eram pessoas preparadas”, declarou. Durante a agressão, Chico sangrou na região da cabeça e teve dificuldade para enxergar porque o sangue atingiu seus olhos. Ele tentou limpar o rosto com roupas que estavam próximas à cama.

O momento de maior tensão ocorreu quando um dos homens o colocou de frente para a parede e encostou uma arma em sua cabeça. “Um deles me virou para a parede e colocou a arma na minha cabeça. Enquanto um dizia ‘vamos matar’, o outro respondia: ‘não viemos aqui para isso’”, relatou.

Chico afirmou que os invasores abriram o guarda-roupa, vasculharam o quarto, foram até a garagem e procuraram materiais dentro do carro. A pasta exigida pelo grupo não foi encontrada. “Eu tive muito medo de morrer. Essa é a verdade. Foi uma sensação horrível.”

Entre os materiais que Chico acredita terem motivado a invasão está um contrato de intenção de compra e venda da Rádio Integração FM, firmado em 12 de junho de 2020. O negócio não foi concluído. O jornalista também citou recibos e outros registros financeiros, mas não detalhou durante a entrevista todo o conteúdo desses documentos.

“Os documentos serão entregues às autoridades para que tudo seja investigado”, afirmou. Ele disse que pretende encaminhar o material à Polícia Federal e colaborar com as investigações, mas reforçou que tem direito constitucional ao sigilo das fontes. “Espero que as autoridades tomem providências. Sou jornalista e não sou obrigado a revelar minhas fontes. Sou amparado pela Constituição.”

O jornalista associa o ataque à procura pelos documentos e ao trabalho editorial desenvolvido pela emissora. Essa relação faz parte da avaliação apresentada por Chico após a invasão. A autoria, a motivação e a eventual participação de mandantes ainda dependem de investigação policial e de provas.

Dias antes do ataque, Chico percebeu um carro branco da marca Citroën parado em frente à residência. Ele afirmou que uma pessoa dentro do veículo parecia observar sua movimentação. O jornalista chegou a circular pelo quarteirão, mas não encontrou novamente o automóvel e não conseguiu anotar a placa.

Chico chegou à emissora com a cabeça enfaixada, roupas manchadas de sangue e marcas das agressões. Durante a entrevista, afirmou que os familiares ficaram com medo de retornar à residência. “A madrugada de hoje foi uma madrugada de terror. Minha família está muito abalada e não quer voltar para casa.”

Mesmo após receber atendimento médico, Chico decidiu participar do programa e tornar público o ataque. “Eu temo pela minha vida, mas poderia me calar, me acovardar e ficar quieto. Não vou fazer isso”, afirmou.

O jornalista também relacionou sua decisão de continuar trabalhando aos 30 anos dedicados à profissão. “Eu tenho 30 anos de profissão. Todo mundo nesta cidade me conhece e nunca tinha acontecido algo assim comigo.”

Ao encerrar o relato, Chico disse que não pretende abandonar o jornalismo por causa das ameaças. “Estou aqui cumprindo o meu papel de jornalista. Vão ter que tirar a minha vida para conseguirem me calar.”

Saerb prepara servidores para reforçar combate à violência contra a mulher em Rio Branco

O Serviço de Água e Esgoto de Rio Branco (Saerb) vai promover ações de orientação e conscientização entre servidores para ampliar a prevenção e o enfrentamento à violência contra a mulher. A medida foi definida após uma reunião realizada nesta segunda-feira, 20 de julho, pelo Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), com a participação de representantes de instituições públicas.

O encontro discutiu formas de integrar órgãos públicos e setores da sociedade na construção de uma rede permanente de proteção às mulheres. Casos recentes registrados no Acre foram apresentados durante a reunião, com atenção para agressões físicas, abusos e estupros ocorridos dentro das residências.

A diretora-geral da Escola de Contas do TCE-AC, conselheira Naluh Gouveia, defendeu a mobilização de igrejas, associações comerciais, secretarias, agentes de saúde e organizações comunitárias. A proposta é levar informações e apoio a locais onde o poder público encontra dificuldades para identificar situações de violência.

No Saerb, as atividades deverão abordar os diferentes tipos de violência contra a mulher, as formas de prevenção e os canais disponíveis para acolhimento e denúncia. Também serão criados espaços de diálogo para preparar servidores e servidoras a reconhecer situações de vulnerabilidade, orientar possíveis vítimas e encaminhá-las à rede de atendimento.

O diretor-presidente da autarquia, Enoque Pereira, afirmou que o Saerb participará da articulação com outros órgãos e entidades. “O enfrentamento à violência contra a mulher só é efetivo quando as instituições atuam de forma integrada”, declarou.

A iniciativa pretende tornar o ambiente institucional mais seguro e preparado para lidar com casos de violência de gênero. As ações também deverão aproximar a administração municipal da rede formada por instituições públicas, entidades sociais e representantes da comunidade.

MPAC cobra reforço na segurança durante Festival do Açaí em Feijó

O Ministério Público do Estado do Acre recomendou à Prefeitura de Feijó, à Polícia Militar, à Secretaria Municipal de Assistência Social e ao Conselho Tutelar a adoção de medidas de segurança, fiscalização e proteção de crianças e adolescentes durante o Festival do Açaí, marcado para os dias 21, 22 e 23 de agosto de 2026. A atuação busca prevenir acidentes e irregularidades diante do aumento do fluxo de pessoas e veículos no município.

A recomendação foi expedida pela Promotoria de Justiça Cível de Feijó e assinada pelas promotoras de Justiça substitutas Giselle Luiza Silva e Giovana Kohata. Os órgãos municipais e estaduais deverão trabalhar de forma integrada na organização do evento e na proteção do público.

Entre as medidas estão o reforço da fiscalização de trânsito e o combate à condução de veículos por pessoas sob efeito de álcool ou outras substâncias. O MPAC também cobrou o cumprimento das regras para motocicletas, com limite de duas pessoas por veículo e uso obrigatório de capacete pelo condutor e pelo passageiro.

O Conselho Tutelar e a Secretaria Municipal de Assistência Social deverão fiscalizar a presença de crianças e adolescentes em locais inadequados, principalmente durante a noite. A recomendação também prevê ações para impedir a venda de bebidas alcoólicas e outras substâncias proibidas a menores de idade.

A Prefeitura de Feijó, a Polícia Militar, o Conselho Tutelar e a Assistência Social deverão encaminhar à Promotoria de Justiça informações sobre as providências adotadas. Os órgãos também terão de apresentar um plano de ação e o cronograma de execução das medidas previstas para o festival.

MPF no Acre abre seleção de estágio com bolsa de R$ 1,3 mil

O Ministério Público Federal no Acre abriu processo seletivo para formar cadastro de reserva de estagiários de graduação em Rio Branco. As inscrições poderão ser feitas entre 30 de julho e 16 de agosto de 2026 por estudantes de sete áreas de formação.

A seleção oferece oportunidades para alunos de Administração, Arquitetura e Urbanismo, Ciências Contábeis, Comunicação Social, Direito, Engenharia Civil e Tecnologia da Informação. Os aprovados poderão ser convocados para atuar na Procuradoria da República no Acre conforme a necessidade do órgão.

A bolsa mensal será de R$ 1.320. Os estudantes também receberão auxílio-transporte de R$ 12 por dia de estágio.

A prova objetiva será aplicada pela internet, com previsão para 30 de agosto. Para participar, o candidato deverá ter a inscrição confirmada, possuir cadastro no Gov.br e acessar o sistema da seleção com pelo menos 72 horas de antecedência. O horário da avaliação seguirá o fuso de Brasília.

Os candidatos da área de Direito também deverão fazer uma prova discursiva presencial, prevista para 27 de setembro. A lista de inscrições válidas será publicada em 20 de agosto, enquanto o resultado final e a classificação estão programados para 21 de outubro.

O processo seletivo terá reserva de vagas para pessoas com deficiência, candidatos negros, indígenas e integrantes de povos e comunidades tradicionais. A participação pelo sistema de cotas dependerá da assinatura da declaração específica prevista no edital.

As inscrições e os comunicados sobre as etapas da seleção serão disponibilizados na página de estágios do MPF no Acre.

DNIT apresenta a Zequinha Lima projeto de reconstrução da BR-364

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes apresentou nesta terça-feira, 21, ao prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, o projeto de reconstrução da BR-364 no Acre. Durante a reunião, o superintendente regional do DNIT, Ricardo Araújo, detalhou as etapas da obra, o modelo técnico escolhido e a previsão de início dos trabalhos entre agosto e setembro.

“Viemos apresentar ao prefeito e à equipe do município todas as etapas que estão sendo executadas e o planejamento da recuperação da BR-364. Nossa meta é que, até o final de agosto, os trechos em manutenção estejam totalmente recuperados, eliminando os buracos e melhorando a trafegabilidade”, afirmou Araújo.

O projeto prevê a reconstrução de 416,4 quilômetros da rodovia entre Sena Madureira e o Rio Liberdade. O investimento total foi estimado em cerca de R$ 5 bilhões, com recursos previstos no Novo Programa de Aceleração do Crescimento. A execução deverá durar entre cinco e seis anos.

A primeira etapa terá 104 quilômetros entre Sena Madureira e Manoel Urbano, com investimento superior a R$ 714 milhões. O DNIT trabalha para concluir a licitação e iniciar as intervenções ainda no segundo semestre.

A reconstrução será feita com macadame hidráulico, técnica que utiliza camadas de pedras compactadas para formar uma base mais resistente. A solução foi escolhida após estudos sobre as características do solo acreano e os danos provocados pelas chuvas e pela infiltração de água.

“Paralelamente, estamos avançando com a licitação da reconstrução definitiva utilizando o macadame hidráulico, uma solução desenvolvida a partir de estudos do DNIT Nacional e que oferece maior durabilidade para as condições da Amazônia”, explicou o superintendente.

Zequinha Lima afirmou que a apresentação do projeto permite ao município acompanhar o planejamento da obra e reforçou a importância da estrada para os moradores do Vale do Juruá.

“A BR-364 é a principal ligação terrestre da nossa região com o restante do estado, sendo fundamental para o transporte de pessoas, mercadorias, atendimento à saúde e fortalecimento da nossa economia”, declarou o prefeito.

“Ver um planejamento técnico sendo apresentado nos dá esperança de que teremos uma rodovia mais segura, duradoura e capaz de garantir o desenvolvimento do Vale do Juruá”, acrescentou.

Enquanto a contratação da reconstrução definitiva avança, o DNIT mantém serviços emergenciais nos pontos mais danificados da rodovia. A previsão é concluir até o fim de agosto a recuperação dos trechos em manutenção para reduzir os buracos e melhorar as condições de tráfego.

Rodrigues Alves inaugura agroindústria de óleo de murmuru

Rodrigues Alves passou a contar, no sábado (18), com uma unidade industrial voltada ao beneficiamento de óleo de murmuru e à produção de manteigas vegetais. Instalada na sede da Coopercintra, a agroindústria recebeu investimento de R$ 1 milhão da Natura e terá como foco o fortalecimento da agricultura familiar, a geração de renda e o aproveitamento sustentável de produtos da floresta.

Cerca de 200 pessoas participaram da inauguração. A nova estrutura permitirá que a matéria-prima coletada por agricultores e extrativistas seja processada no próprio município, aumentando o valor comercial da produção e ampliando as oportunidades para as famílias envolvidas na cadeia do murmuru.

A manteiga extraída do fruto é utilizada pela indústria de cosméticos. A parceria entre a cooperativa e a Natura busca ampliar a produção local sem afastar a atividade econômica da conservação ambiental, base da bioeconomia desenvolvida na região amazônica.

Antes da abertura da unidade, os cooperados participaram de dois dias de formação sobre organização interna, funcionamento da cooperativa e práticas sustentáveis na extração de óleos e na fabricação de manteigas vegetais.

A Prefeitura de Rodrigues Alves participou da cerimônia por meio da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo. A administração municipal pretende apoiar novas parcerias ligadas ao empreendedorismo rural, à produção sustentável e à geração de trabalho no município.

O presidente da Coopercafé, Jonas Lima, também anunciou apoio à diversificação das propriedades atendidas pela cooperativa. A proposta inclui avaliar a distribuição de mudas de açaí e cacau, permitindo que os produtores combinem diferentes culturas e ampliem as fontes de renda.

Equipe inicia estudos da ponte sobre o Rio Juruá em Rodrigues Alves

Uma equipe do consórcio Engeplus–Projecta iniciou na segunda-feira, 20 de julho, em Rodrigues Alves, os levantamentos de campo para definir o projeto da ponte sobre o Rio Juruá e do contorno rodoviário do município. Contratado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes por R$ 1.997.005,87, o trabalho reúne estudos preliminares e os projetos básico e executivo de uma travessia reivindicada há anos no Vale do Juruá. A chegada dos técnicos abre uma nova fase administrativa, mas ainda não representa o início da construção: o governo federal terá de aprovar os projetos e fazer outra licitação para executar a obra.

Enquanto os profissionais começam a medir o terreno, examinar o solo e estudar os possíveis acessos, a rotina dos moradores continua presa ao movimento do rio. A ligação direta entre Rodrigues Alves e Cruzeiro do Sul depende da balsa mantida pelo governo do Acre. Quando o Juruá sobe ou desce rapidamente, a lama se acumula nas rampas, máquinas precisam refazer o aterro e a embarcação aguarda condições para encostar. Para quem atravessa em busca de atendimento médico, trabalho, estudo ou transporte de mercadorias, a condição do rio ainda interfere no tempo da viagem.

O prefeito Salatiel Magalhães recebeu a equipe na tarde de segunda-feira e ofereceu apoio logístico da prefeitura aos trabalhos de campo. “Receber a equipe da Engeplus Engenharia em Rodrigues Alves representa mais um passo importante rumo à realização de um sonho histórico da nossa população”, afirmou. O município deverá ajudar com deslocamento, acesso às áreas estudadas e contato com estruturas locais necessárias aos levantamentos.

Nesta etapa, o consórcio fará levantamentos topográficos, estudos geológicos, análises ambientais e avaliações de engenharia. Esse conjunto de informações servirá para escolher a localização da ponte, traçar o contorno rodoviário, calcular as fundações, definir os acessos e estabelecer as dimensões da estrutura. Sem essa base, não é possível formar um orçamento confiável nem preparar a futura contratação da obra.

O contrato nº 168/2026 foi assinado pelo DNIT em 5 de maio e permanece vigente até 16 de julho de 2027. A Engeplus Engenharia e Consultoria lidera o consórcio, formado também pela Projecta – Projetos e Consultoria. As empresas venceram a Concorrência Eletrônica nº 90304/2025, aberta especificamente para os estudos e projetos da ponte e do contorno de Rodrigues Alves, na BR-364.

A separação da ponte em uma contratação própria encerra, pelo menos nesta fase, um problema criado anos antes, quando o empreendimento foi colocado dentro do projeto de ligação rodoviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. O Edital nº 130/2021 do DNIT reuniu os projetos básico e executivo da estrada internacional e incluiu a travessia sobre o Rio Juruá.

A estrada provocou reação de organizações indígenas, indigenistas, ambientalistas e extrativistas, que recorreram à Justiça contra o processo. A ação questionou a falta de estudo de viabilidade técnica, econômica e ambiental e a ausência de consulta livre, prévia e informada aos povos indígenas afetados pela rota até o Peru.

A Justiça Federal declarou a nulidade do edital em junho de 2023. A decisão atingiu todo o processo, inclusive o trecho da ponte, embora o Ministério Público Federal e as organizações autoras tenham defendido que a travessia fosse separada da estrada internacional. O MPF sustentou que a ponte atende uma necessidade local, não alcança diretamente as comunidades indígenas envolvidas no conflito da rodovia e poderia facilitar o acesso da população a serviços essenciais.

O aproveitamento da antiga licitação não foi autorizado. A saída permitida foi abrir um novo processo, restrito à ponte e aos acessos de Rodrigues Alves. A Concorrência nº 90304/2025 e o contrato assinado em maio de 2026 nasceram desse caminho. A travessia deixou de carregar, no mesmo pacote administrativo, as disputas ambientais e territoriais da estrada até Pucallpa.

Em junho, durante entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, Salatiel Magalhães criticou a decisão de manter a ponte vinculada ao projeto da estrada entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, no Peru. Com a ligação internacional cercada por questionamentos judiciais, ambientais e indígenas, a travessia de Rodrigues Alves também ficou presa ao mesmo processo.

“Já tinha um projeto de uma ponte feito. Então por que não pegaram esse projeto e botaram ele para execução separadamente?”, questionou o prefeito.

Para Salatiel, a ponte não pode ser tratada apenas como parte de uma futura rota internacional. A estrutura atenderá primeiro uma necessidade cotidiana dos moradores de Rodrigues Alves e dos demais municípios do Vale do Juruá, onde a travessia ainda depende de balsa. A cobrança feita pelo prefeito ajuda a explicar a mudança adotada depois pelo DNIT: retirar a ponte do conjunto da estrada até o Peru e abrir uma contratação específica para os estudos e projetos da travessia.

A ponte entrou na carteira do Novo PAC em 2023, ainda na área de planejamento. A inclusão no programa federal manteve o empreendimento no orçamento e na estrutura administrativa do DNIT, mas não eliminou a necessidade de projeto, licenciamento, recursos para a construção e licitação da empresa executora.

Em fevereiro de 2026, o governo do Acre divulgou uma previsão atribuída ao DNIT de início da construção ainda naquele ano e conclusão em 2028. O calendário conhecido agora não permite tratar esse prazo como confirmado. O contrato assinado em maio cuida apenas dos estudos e projetos e pode seguir até julho de 2027. Mesmo que os trabalhos sejam entregues antes do encerramento da vigência, a construção continuará condicionada à aprovação técnica e a uma nova concorrência pública.

A urgência da ponte aparece de forma mais clara longe das cerimônias oficiais. Em 2022, o MPF levou ao processo o caso de um idoso que precisou atravessar o Rio Juruá em uma maca enquanto a embarcação capaz de transportar ambulâncias estava em manutenção.

A presença dos técnicos da Engeplus–Projecta em Rodrigues Alves é o passo mais concreto dado desde a anulação do antigo edital. Ainda assim, a ponte permanece no papel. A mudança decisiva virá quando o DNIT receber e aprovar os projetos, definir o custo real da estrutura, garantir o dinheiro da construção e publicar a licitação da obra. Até lá, o morador continuará olhando o nível do Juruá antes de saber quanto tempo levará para chegar ao outro lado.