Expoacre 2026 empenha R$ 3,4 milhões em novos shows e eleva pagamento de Leonardo e Ana Castela a R$ 1,9 milhão

Wesley Safadão, Natanzinho Lima e Som e Louvor concentram os novos empenhos; Instituto Novo Amanhã teve outros R$ 1,57 milhão liquidados pela Secretaria de Agricultura.

O Governo do Acre empenhou R$ 3,4 milhões para contratar três novas atrações da Expoacre 2026, em Rio Branco, e pagou mais R$ 637,5 mil pelo contrato conjunto dos shows de Leonardo e Ana Castela. Os lançamentos entraram no Portal da Transparência em 31 de julho e foram consultados neste sábado, 1º de agosto. A mesma atualização registra R$ 1,57 milhão liquidado para o Instituto Novo Amanhã organizar a Feira da Agricultura Familiar dentro da exposição.

Os três novos empenhos foram emitidos pela Casa Civil. Wesley Safadão foi contratado por R$ 1,8 milhão para o show de 5 de agosto. Natanzinho Lima receberá R$ 1,3 milhão pela apresentação marcada para 3 de agosto. A Banda Som e Louvor foi contratada por R$ 300 mil para subir ao palco em 7 de agosto.

Até a consulta realizada neste sábado, os R$ 3,4 milhões estavam empenhados, mas ainda não constavam como liquidados ou pagos. O empenho representa a reserva do recurso para cumprir a obrigação assumida pelo governo. A liquidação ocorre após a conferência do serviço ou das condições previstas no contrato, enquanto o pagamento corresponde à transferência efetiva do dinheiro.

O contrato de Natanzinho Lima em Rio Branco ficou R$ 400 mil abaixo do valor previsto para o mesmo artista na Expoacre Juruá. No plano de trabalho executado pela Associação Transformar, a apresentação realizada em Cruzeiro do Sul, em 30 de junho, foi orçada em R$ 1,7 milhão.

O orçamento do Juruá ficou 30,8% acima dos R$ 1,3 milhão contratados na capital. Na comparação inversa, o valor de Rio Branco foi 23,5% menor que o previsto para Cruzeiro do Sul.

Mesmo abaixo do orçamento da Expoacre Juruá, o contrato firmado em Rio Branco supera contratações públicas do cantor localizadas em outras cidades em 2026. Pedra Branca, na Paraíba, e Marabá, no Pará, registraram R$ 850 mil por apresentação.

A contratação acreana ficou R$ 450 mil acima desses dois contratos, diferença de 52,9%. Já os R$ 1,7 milhão previstos no plano da Expoacre Juruá correspondem ao dobro dos R$ 850 mil contratados nos outros municípios.

Wesley Safadão recebeu o maior empenho entre as três novas atrações: R$ 1,8 milhão. O valor também supera contratos públicos firmados pelo artista em outros municípios neste ano.

Em Tefé, no Amazonas, o cantor foi contratado por R$ 1,2 milhão para a Festa da Castanha, em contrato assinado em 27 de março. Em Itaitinga, no Ceará, a contratação publicada em março foi de R$ 1,3 milhão. Ourilândia do Norte, no Pará, reservou R$ 1,4 milhão para uma apresentação prevista para novembro.

O contrato da Expoacre supera o valor de Tefé em R$ 600 mil, diferença de 50%. Em relação a Itaitinga, o acréscimo foi de R$ 500 mil, ou 38,5%. Na comparação com Ourilândia do Norte, a diferença chegou a R$ 400 mil, equivalente a 28,6%.

A Banda Som e Louvor foi contratada pelo Governo do Acre por R$ 300 mil. Em Cascavel, no Ceará, um contrato publicado em 20 de julho fixou R$ 240 mil para uma apresentação marcada para 15 de agosto.

A diferença entre os dois contratos é de R$ 60 mil. O valor empenhado para a Expoacre ficou 25% acima do registrado no município cearense.

Além das novas contratações, a Casa Civil pagou mais R$ 637,5 mil pelo Contrato CC nº 45/2026, firmado com a empresa Apolo Assessoria para as apresentações de Leonardo e Ana Castela.

O Portal da Transparência registrava anteriormente R$ 1,275 milhão pago. Com o novo lançamento, o total transferido chegou a R$ 1.912.500, equivalente a 75% do contrato, fechado em R$ 2,55 milhões.

Os R$ 637,5 mil restantes ainda não constavam como liquidados ou pagos. Como o contrato reúne os dois artistas e o registro financeiro não separa os cachês, não é possível estabelecer quanto foi destinado a Leonardo e quanto corresponde à apresentação de Ana Castela.

Na Expoacre Juruá, o cachê de Leonardo foi previsto separadamente em R$ 2,1 milhões. A comparação com Rio Branco exige cautela porque, na capital, os R$ 2,55 milhões cobrem duas apresentações. O plano do Juruá também reservou, em outro item, R$ 2.448.520 para a produção e a logística do conjunto de atrações.

A atualização de 31 de julho também incluiu um empenho de R$ 1,57 milhão da Secretaria de Estado de Agricultura para o Instituto Novo Amanhã. O recurso será usado na realização da Feira da Agricultura Familiar dentro da Expoacre 2026.

A parceria está ligada ao Edital de Chamamento Público nº 04/2026 da Seagri e ao Processo SEI nº 0853.013719.00255/2026-06. O valor foi integralmente liquidado, mas ainda não aparecia como pago. A liquidação representa o reconhecimento, pelo órgão público, do direito da entidade ao recebimento após a conferência dos documentos e das condições previstas na parceria.

O Instituto Novo Amanhã já havia sido escolhido para receber R$ 8,106 milhões em outro eixo da Expoacre. Em 16 de julho, a Casa Civil publicou uma justificativa para destinar esse valor à entidade, responsável pela infraestrutura, logística e operação da arena.

A quantia fazia parte de um conjunto de R$ 22 milhões que a Casa Civil pretendia repassar a três organizações da sociedade civil depois de declarar deserto o Chamamento Público nº 002/2026.

Em 23 de julho, o plenário do Tribunal de Contas do Estado do Acre manteve, por unanimidade, uma medida cautelar que suspendeu a assinatura dos instrumentos, as transferências e os pagamentos relacionados ao procedimento conduzido pela Casa Civil.

O empenho de R$ 1,57 milhão lançado agora pertence a outro órgão, outro edital, outro processo administrativo e outro objeto. Não há, no registro financeiro consultado, elemento que permita incluir automaticamente a parceria da Secretaria de Agricultura na cautelar aplicada ao chamamento da Casa Civil.

Os dois procedimentos precisam ser tratados separadamente. O primeiro envolve R$ 8,106 milhões destinados à infraestrutura e à operação da feira e permanece alcançado pela suspensão do TCE-AC. O segundo destina R$ 1,57 milhão à Feira da Agricultura Familiar, foi conduzido pela Seagri e teve o valor integralmente liquidado em 31 de julho.

Expoacre 2026: R$ 22 milhões, três institutos e as conexões com Mailza Cameli

O pastor Reginaldo Ferreira da Silva não aparece atualmente como presidente do Instituto Vida Plena, mas seu nome atravessa a ponte mais curta entre uma das entidades escolhidas para executar a Expoacre Rio Branco 2026 e a governadora Mailza Assis Cameli. Ex-assessor da então senadora, antigo dirigente da Associação dos Ministros do Evangelho do Acre e atual secretário adjunto de Governo, Reginaldo integra o círculo político, administrativo e religioso que se formou ao redor do instituto destinado a receber até R$ 9,987 milhões para cuidar dos shows, do entretenimento e das atividades tradicionais da maior feira do estado. Mas suas história carrega laços fortes e estreitos entre Mailza e o Instituto Vida Plena. 

A contratação direta foi publicada em 16 de julho, depois de a Casa Civil declarar deserto um chamamento público para a realização integral do evento, marcado para ocorrer de 1º a 9 de agosto, no Parque de Exposições Wildy Viana, em Rio Branco.

A decisão repartiu a Expoacre entre três organizações da sociedade civil. O Instituto Novo Amanhã ficou com o eixo de infraestrutura, logística e operação da arena, estimado em R$ 8,106 milhões. O Instituto Vida Plena recebeu o eixo artístico, de entretenimento e das atividades tradicionais, por R$ 9,987 milhões. O Instituto Bem-Estar assumiu segurança, apoio logístico e comunicação social, por R$ 3,907 milhões. Juntas, as dispensas alcançam exatamente R$ 22 milhões, valor superior aos R$ 20 milhões previstos no chamamento original para uma única entidade executar toda a feira.

A mudança aconteceu em um intervalo apertado. O edital foi publicado em 16 de junho e abriu prazo para entrega de propostas até 13 de julho. Três dias depois, a comissão declarou que “não houve o recebimento de qualquer proposta no prazo estabelecido”. Na mesma edição do Diário Oficial, a Casa Civil apresentou as três dispensas, apoiada na proximidade da Expoacre e na necessidade de evitar riscos à realização do evento. A feira começaria apenas 16 dias depois daquela publicação.

Esse ponto chegou ao Tribunal de Contas do Estado do Acre pelas mãos da Associação Rede Ativa. Presidida por Adeneuton Pinheiro Martins, a entidade sustenta ter entregue sua documentação no gabinete do secretário da Casa Civil em 26 de junho, dentro do prazo, com comprovante de recebimento. O plano de trabalho submetido pela associação propunha executar a Expoacre inteira por R$ 19.360.765, abaixo do teto previsto no edital, reunindo shows nacionais e locais, rodeio, cavalgada, estruturas temporárias, segurança, comunicação, logística e operação dos espaços.

Em 17 de julho, a Rede Ativa encaminhou à Ouvidoria do TCE uma denúncia acompanhada de 19 anexos, entre eles a representação com pedido de medida cautelar, o plano de trabalho, certidões, estatuto, ata, documentos da diretoria e declarações de capacidade técnica. A entidade pediu a suspensão da declaração de certame deserto e das três dispensas ou, de forma alternativa, o bloqueio de assinaturas e pagamentos até a fiscalização do processo.

A existência da representação não transforma a denúncia em irregularidade comprovada. O TCE ainda precisa confrontar o comprovante apresentado pela associação com os registros do protocolo geral, a movimentação interna da Casa Civil, a ata da comissão e os documentos usados para declarar que nenhuma proposta havia chegado. A resposta definirá se houve falha administrativa no caminho percorrido pelos envelopes ou se a entrega ocorreu fora do local e das condições exigidas pelo edital. Até essa verificação, a acusação pertence à entidade que se considera retirada da disputa, não a uma decisão do órgão de controle.

Instituto Vida Plena

Enquanto essa discussão corre contra o calendário da feira, o cruzamento de cadastros, atos oficiais, pagamentos públicos, registros do Senado e agendas políticas feito pelo Grupo Integração colocou o Instituto Vida Plena no centro da relação com o entorno de Mailza. O CNPJ, aberto em 2003, tem Roniere Ferreira Xavier como presidente cadastral desde janeiro de 2024. Entre 2024 e 16 de julho de 2026, o governo estadual registrou R$ 7.713.527,22 empenhados e liquidados e R$ 7.043.036,30 pagos à entidade. Os projetos passaram por educação, assistência social, esporte, qualificação, internet comunitária, educação ambiental e festivais culturais.

O salto previsto para a Expoacre é expressivo. Sozinho, o eixo de R$ 9,987 milhões supera todo o valor pago pelo estado ao instituto no período pesquisado. A diferença de escala importa porque contratar artistas nacionais, operar shows para milhares de pessoas, organizar rodeio, cavalgada e atividades tradicionais exige estrutura financeira, equipe especializada, contratos, pesquisa de preços, logística e capacidade de enfrentar imprevistos em poucos dias.

A identidade pública do Vida Plena também passa pela fé cristã. O instituto promoveu o Gospel Day e o Holy Fire, encontro realizado em janeiro de 2026 diante do Palácio Rio Branco, reunindo músicos e participantes de diferentes igrejas. 

Roniere já havia assinado uma parceria diretamente ligada à estrutura comandada por Mailza. Em outubro de 2024, quando ela acumulava a Vice-Governadoria com a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, o presidente do Vida Plena firmou termo de fomento de R$ 20 mil para o projeto Lenços do Amor. O valor é pequeno diante dos quase R$ 10 milhões reservados agora, mas registra uma relação administrativa anterior entre a gestão de Mailza e o instituto. 

O elo mais sensível passa por Reginaldo Ferreira da Silva. O Portal da Transparência do Senado registrou o pastor como assistente parlamentar AP-11 no escritório de Mailza em 2019 e 2020. Os atos de pessoal colocam sua nomeação em junho de 2019 e sua exoneração em agosto de 2021. Uma prestação da cota parlamentar inclui Reginaldo entre os passageiros de um voo fretado com a então senadora. No mesmo período, ele foi identificado publicamente como diretor executivo da Ameacre.

Em 22 de abril de 2026, vinte dias depois de assumir definitivamente o governo do Acre, Mailza nomeou Reginaldo para o cargo de secretário adjunto da Secretaria de Estado de Governo. Ele deixou o gabinete parlamentar de Brasília e reapareceu no núcleo político do Palácio Rio Branco. Sua presença no governo atual não é lateral: a Segov atua na articulação institucional e política da administração estadual.

Reginaldo não consta como presidente formal do Vida Plena. Essa função pertence a Roniere. Mas, em entrevista ao jornalista Evandro Cordeiro, Reginaldo é apresentado como líder e porta-voz da entidade. “Hoje eu tenho o prazer de, eventualmente, esporadicamente, quando solicitado, prestar alguma consultoria, alguma orientação à vice-governadora Mailza, uma pessoa extraordinária. Uma pessoa que, inclusive, me inspirou muito nessa questão filantrópica”, disse à época. Sobre o Instituto, Reginaldo deixa claro sua relação: “Eu sou uma pessoa que coopera, que contribui, que dispõe da minha experiência e da minha sensibilidade social para servir à comunidade através do Instituto Vida Plena”.

O caminho, portanto, é documentado em etapas: Reginaldo trabalhou no gabinete de Mailza no Senado, ocupou cargo de direção na Ameacre, voltou ao governo pelas mãos da atual governadora e aparece publicamente associado à liderança do Instituto Vida Plena. A Ameacre, por sua vez, já participou da definição da programação religiosa da Expoacre. Agora, o Vida Plena foi escolhido sem disputa para administrar o eixo artístico e tradicional da edição de 2026.

Reginaldo Ferreira e ação da Igreja Ministério Internacional Vida Plena

Essa sequência comprova convivência política, administrativa e religiosa. Não comprova que Mailza tenha escolhido pessoalmente o instituto, que Reginaldo tenha interferido na dispensa ou que qualquer recurso tenha sido desviado. Outra semelhança é no endereço do Instituto Vida Plena, que é o mesmo da Igreja Ministério Internacional Vida Plena, da qual Reginaldo Ferreira da Silva é o Presidente.

Instituto Bem-Estar

No Instituto Bem-Estar, a conexão é mais partidária do que religiosa. A entidade, antes chamada Instituto Calegário, tem Kariny Lins Malveira como presidente cadastral e recebeu R$ 8.525.947,84 do governo estadual entre 2020 e 2025. Sua trajetória guarda forte proximidade com o deputado estadual Fagner Calegário, responsável por iniciativas legislativas e emendas ligadas aos projetos da organização. Para a Expoacre, o instituto recebeu a previsão de R$ 3,907 milhões para segurança, comunicação e apoio logístico.

Pastor Reginaldo com Bruno Moraes, vereador e parceiro político do deputado estadual Calegário

Uma diretoria registrada para o mandato de 2021 a 2024 incluía Bruno Moraes Cardoso como tesoureiro e Aldeneide Batista de Lima no conselho fiscal. Bruno foi eleito vereador de Rio Branco pelo Progressistas, partido de Mailza, e participou de agendas partidárias com a governadora. Aldeneide foi nomeada por Mailza, em julho de 2026, para comandar o Instituto de Meio Ambiente do Acre. A presença deles na antiga composição retrata uma rede política em torno da trajetória da entidade, mas não prova participação na dispensa da Expoacre. E é importante reforçar que o grupo do deputado Calegário está de corpo e alma também no projeto de reeleição de Mailza para o governo. 

Instituto Novo Amanhã

O Instituto Novo Amanhã oferece um quadro diferente. Nenhuma ligação nominal entre Mailza, sua rede religiosa e a atual presidente Deania Marques da Silva Xavier foi comprovada. A antiga dirigente localizada nos cadastros também não aparece na equipe parlamentar, no governo ou nas agendas religiosas ligadas à governadora. O ponto de atenção está na mudança recente de comando e no tamanho do contrato. Deania entrou no cadastro em 20 de abril de 2026. O primeiro empenho estadual localizado veio em 9 de junho, cerca de 50 dias depois. Até 16 de julho, o instituto havia recebido R$ 2,225 milhões do estado. Agora, poderá administrar R$ 8,106 milhões apenas no eixo de infraestrutura, 3,64 vezes todo o montante já pago ao CNPJ no período pesquisado.

Os três institutos já acumulavam R$ 17.793.984,14 em pagamentos estaduais antes das dispensas da Expoacre. O Bem-Estar responde pela maior parcela, com R$ 8,525 milhões; o Vida Plena recebeu R$ 7,043 milhões; e o Novo Amanhã, R$ 2,225 milhões. Os R$ 22 milhões publicados para a feira são estimativas das novas parcerias, não pagamentos confirmados. 

A Expoacre movimenta produtores, trabalhadores, comerciantes, artistas, criadores de animais e famílias que atravessam Rio Branco para entrar no Parque Wildy Viana. Em 2026, porém, a festa chega cercada por uma questão que ultrapassa os portões da feira. O governo de Mailza precisa demonstrar que a urgência não substituiu a competição, que as relações políticas não conduziram as escolhas e que os R$ 22 milhões chegarão aos serviços anunciados por preços compatíveis.

O pastor Reginaldo Ferreira não encerra essa história. Ele personifica a pergunta que atravessa o caso: até onde termina a convivência legítima entre governo, partido, igrejas e organizações sociais, e onde começa a obrigação de erguer barreiras claras entre proximidade política e decisão administrativa? A resposta não virá de sobrenomes, fotografias ou agendas religiosas. Virá dos protocolos da Casa Civil, dos planos de trabalho, das contas bancárias, dos contratos com fornecedores e da fiscalização do Tribunal de Contas.