Mailza vai a Londres com discurso ambiental, mas Acre cobra respostas sobre ponte e floresta

A governadora Mailza Assis deixa o Acre rumo a Londres para ocupar uma vitrine internacional da agenda climática, enquanto o Estado ainda espera respostas sobre o desabamento da ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, e sobre a distância entre o discurso ambiental levado ao exterior e a execução real das políticas de floresta em casa. A London Climate Action Week ocorre entre 20 e 28 de junho, reunindo governos, empresas, financiadores e organizações em torno de ações climáticas; no Acre, a ponte inaugurada em 2023 caiu no dia 5 de junho, havia sido interditada um dia antes, custou R$ 36 milhões e deixou quatro pessoas feridas. A viagem pode abrir portas, mas também expõe uma pergunta que o governo tenta contornar: quem conduz o Estado quando a governadora sai em meio a crises políticas, administrativas e ambientais?

Mailza não chega a Londres como gestora de um ciclo novo e separado do passado. Ela assumiu o Palácio Rio Branco no dia 2 de abril, depois da saída de Gladson Cameli, e fez da continuidade a marca do governo. Na transmissão do cargo, a nova governadora disse: “Vamos dar continuidade a um governo que já vinha dando certo”. Essa frase cola a atual administração ao ciclo anterior. Não há como apresentar no exterior apenas a parte vistosa da agenda ambiental, com siglas, fóruns, ativos climáticos e promessas de economia verde, deixando no Acre a parte incômoda da conta.

A ausência da governadora também cria um problema político no comando do Estado. O Acre está sem vice-governador. Pela linha sucessória, a chefia temporária do Executivo passa pelo presidente da Assembleia Legislativa, deputado Nicolau Júnior. Em abril, quando Mailza e Nicolau estavam fora do Estado, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Laudivon Nogueira, assumiu interinamente o governo. O episódio não foi apenas uma formalidade. Em ano eleitoral, cada afastamento de Mailza obriga Nicolau a calcular seus próprios passos, porque assumir o governo pode atravessar planos eleitorais e mexer na engenharia interna do grupo governista.

Nicolau não é peça decorativa nesse tabuleiro. Gladson Cameli já tratou Mailza e o presidente da Assembleia como “dois planos A” do Progressistas para a eleição de 2026. A frase, dita em 2025, deixou os dois no mesmo campo de expectativa política. Quando Mailza viaja e Nicolau precisa sair do Acre para não ocupar interinamente o governo, a missão internacional deixa de ser apenas agenda institucional. Ela empurra para a superfície uma disputa que o grupo tenta administrar sem rompimento público.

O MDB amplia essa instabilidade. Em março, o partido oficializou aliança com o projeto eleitoral de Mailza e passou a reivindicar a indicação do vice na chapa. Antes disso, a sigla já era cortejada por Alan Rick e tratada como fiel da balança para 2026. A vaga que deveria dar musculatura política à governadora virou ponto de pressão. O MDB tem força eleitoral em Rio Branco e Cruzeiro do Sul, tem nomes próprios e sabe que sua presença pode alterar o peso de qualquer palanque. Mailza viaja a Londres enquanto sua chapa ainda precisa provar que não será desmontada antes de chegar à campanha.

No campo ambiental, a cobrança é ainda mais dura. O Acre tem uma história importante, construída antes do atual governo, com o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais, o Sisa, e com a entrada precoce no debate de REDD+ e pagamento por resultados. Essa trajetória deu ao Estado respeito internacional. Mas reputação antiga não paga a conta da gestão presente. O governo Mailza-Gladson precisa responder o que tem de efetivo para mostrar na área ambiental: qual cadeia produtiva de baixo carbono ganhou escala, qual política de desenvolvimento sustentável mudou a renda de quem vive da floresta, qual programa chegou à ponta com resultado verificável, qual produtor recebeu apoio consistente para produzir sem derrubar e qual comunidade extrativista passou a viver melhor da floresta em pé.

A Fase II do Programa REM Acre, financiada pela Alemanha, por meio do KfW, e pelo Reino Unido, expõe a distância entre promessa e execução. O programa foi desenhado para ser executado em cinco anos, recebeu R$ 91 milhões e havia executado R$ 53,1 milhões, ou 58,4%, até dezembro de 2022, quando restava um ano para a conclusão prevista. A gestão precisou replanejar ações porque os instrumentos usados nos primeiros anos foram pouco efetivos e a ligação entre gasto público e resultado ficou frágil. Isso não é detalhe burocrático. É o principal programa climático recente do Acre tentando corrigir, tarde, aquilo que deveria ter entregado no tempo certo.

O desmatamento é a parte mais difícil de maquiar. O REM trabalhava com um gatilho anual de 330 km². Durante a Fase II, o Acre ficou acima desse limite em 2018, com 444 km²; em 2019, com 682 km²; em 2020, com 706 km²; e em 2021, com 889 km². A segunda fase do programa nasceu para ajudar a proteger a floresta e reduzir emissões, mas atravessou justamente o período em que o desmatamento subiu de forma persistente. O governo pode falar em REDD+, mas os números cobram coerência.

Quando o governo se movimentou de forma mais concreta sobre florestas públicas, o resultado foi uma derrota no Supremo Tribunal Federal. A Corte declarou inconstitucional a regra estadual que autorizava conceder título definitivo e retirar áreas do regime de floresta pública após dez anos de uso ou posse. A norma alcançava áreas como as Florestas Públicas Estaduais do Rio Gregório, Rio Liberdade, Mogno, Antimary e Afluente do Complexo do Seringal Jurupari. O Acre que pretende se apresentar ao mundo como guardião da floresta precisou ser barrado pelo STF em uma regra que abria caminho para transferir áreas protegidas a particulares.

A política de crédito de carbono também exige menos propaganda e mais entrega. Em agosto de 2025, Gladson assinou decreto que atualizou a estratégia de repartição de benefícios do Programa ISA Carbono, destinando 72% dos recursos captados com a comercialização futura de créditos de carbono aos beneficiários do Sisa e 28% ao governo para ações de comando e controle, governança e gestão de áreas públicas. A palavra central é “futura”. O governo tem desenho institucional, percentuais, fóruns e discurso. Ainda falta mostrar uma política em escala, com dinheiro circulando de forma transparente, resultado ambiental medido e melhoria concreta na vida das populações que conservam a floresta.

A pergunta que deve acompanhar Mailza em Londres é simples: o que o governo Mailza-Gladson tem para mostrar além da memória ambiental do Acre? A resposta não pode ser a história do Sisa, nem a herança simbólica de Chico Mendes, nem a reputação construída por outros ciclos. A resposta precisa estar na execução real: redução de desmatamento, cadeia produtiva de baixo carbono funcionando, crédito de carbono com governança madura, assistência técnica contínua, fiscalização forte, renda para extrativistas, regularização sem abrir brecha para privatizar floresta pública e programas climáticos concluídos com resultado, não empurrados por reestruturações.

A ponte de Sena Madureira torna esse debate ainda mais concreto. A estrutura caiu sobre o Rio Iaco, deixou feridos e obrigou o governo a abrir procedimento administrativo, acionar medidas judiciais e prometer apuração das responsabilidades. A ponte virou símbolo de uma gestão que vende entrega, mas agora precisa explicar fiscalização, contrato, manutenção, risco e resposta. Não há vitrine internacional capaz de apagar a imagem de uma obra pública desabando diante de moradores que dependiam dela para atravessar a cidade.

O Acre deve participar das grandes agendas climáticas. A floresta acreana tem valor ambiental, econômico e político. Mas presença internacional não é certificado de eficiência. Mailza pode falar em Londres sobre floresta em pé, desenvolvimento sustentável e ativos climáticos. No Acre, porém, a cobrança continua de pé: quem responde pela ponte que caiu, quem comanda o Estado na ausência da governadora, quem segura a base política, quem entrega o REM, quem reduz o desmatamento e quem transforma carbono em renda real para quem vive na floresta. Sem essas respostas, a viagem vira fotografia. E o governo Mailza-Gladson, em vez de honrar o histórico ambiental do Acre, envergonha essa história diante do país.

Editorial – O poder da eminência parda no governo do Acre

O governo do Acre chegou a esta terça-feira, 16 de junho, cercado por uma pergunta que já circula nos corredores da política, nas conversas de bastidor e nas rodas onde deputado baixa a voz antes de falar: quem realmente manda no Palácio Rio Branco? A crise não nasce de uma portaria, de uma exoneração ou de um discurso oficial. Nasce da presença de figuras sem mandato, sem cargo político claro e sem responsabilidade formal, mas com força suficiente para atravessar reuniões, interferir em alianças, pressionar parlamentares e tentar controlar o rumo de um governo que deveria responder diretamente à população.

A expressão é antiga, mas voltou a vestir roupa nova no Acre: eminência parda. É aquele personagem que não aparece na placa da porta, não foi escolhido pelo eleitor, não senta na Assembleia, não carrega voto no bolso, mas age como se tivesse recebido procuração para decidir o destino de quem governa. Não assina ato, mas orienta. Não ocupa cargo visível, mas manda. Não enfrenta urna, mas tenta impor caminho a quem passou pelo voto. A política acreana conhece bem esse tipo de poder sem rosto. Ele sempre aparece quando a autoridade formal começa a dividir espaço com a conveniência do bastidor.

O problema não está na existência de auxiliares próximos. Todo governo precisa de conselheiros, articuladores e pessoas de confiança. O problema começa quando esses personagens deixam de aconselhar e passam a comandar. Quando isso acontece, o governo perde nitidez. O secretário não sabe até onde pode ir. O deputado não sabe com quem negociar. O aliado não sabe se fala com a governadora ou com quem fala por ela. O cidadão, que é o verdadeiro dono da máquina pública, fica sem saber quem cobrar quando a decisão dá errado.

No Acre de hoje, essa sombra pesa sobre a imagem da governadora Mailza Assis. A governadora parece tentar manter uma aparência de controle, mas a política não perdoa hesitação. Em governo, dúvida prolongada vira fraqueza. Aliança mal resolvida vira chantagem. Base insatisfeita vira ameaça silenciosa. E quando os próprios aliados começam a reclamar de interferência externa, de emendas represadas e de decisões tomadas por quem não tem mandato, o problema já saiu do cochicho e entrou na sala principal.

A base governista, embora numerosa no papel, já não se comporta como tropa obediente. Há incômodo entre deputados, especialmente em torno da liberação de emendas e da tentativa de transformar apoio político em obediência eleitoral. Emendas parlamentares não são presente do governo. São instrumentos públicos, muitas vezes destinados a associações, comunidades, instituições filantrópicas, pequenos municípios e serviços que atendem gente de carne e osso. Quando esse dinheiro vira moeda de pressão, quem sofre não é o deputado. Quem sofre é a dona Maria que espera atendimento, o dirigente de uma entidade que mantém serviço comunitário, a família que depende de uma ação social e o interior que vive na ponta do abandono.

É aí que a eminência parda se torna perigosa. Ela não aparece para explicar a demora. Não vai ao rádio prestar contas. Não sobe em palanque para pedir voto em nome próprio. Não encara eleitor na feira, no ramal, na fila do hospital ou na porta de uma escola. Quem carrega o desgaste é a governadora. Quem perde sustentação é o governo. Quem responde nas urnas é o grupo político. A sombra manda, mas a conta chega para quem está sob a luz.

O caso do MDB aprofunda esse desgaste. O partido entrou na aliança, saiu pela tangente, conversou com outros caminhos, voltou a deixar dúvidas e manteve a governadora em uma posição desconfortável. Na política, nada enfraquece mais uma liderança do que parecer dependente de quem não se decide. Quando um aliado oscila demais, cabe ao governo impor rumo. Mailza precisa decidir se conduz a própria campanha ou se continuará esperando que outros definam o tamanho do seu projeto. A indefinição do MDB já arranha o partido, mas também atinge a governadora, porque passa a impressão de que ela insiste em uma aliança que não lhe entrega segurança.

O Acre já atravessou períodos em que o poder se organizava por cartilha, senha e bênção. Quem estava dentro do círculo resolvia. Quem estava fora precisava rezar o terço inteiro para ser ouvido. Esse tipo de política envelheceu mal, mas não desapareceu. Ela apenas trocou o gabinete fechado pelo grupo de mensagem, a antessala pelo almoço reservado, o coronel antigo pelo operador moderno. A essência continua a mesma: poucos decidem, muitos obedecem e quase ninguém assume a responsabilidade.

Um governo que aceita esse modelo vai se afastando do chão. Deixa de ouvir prefeito pequeno, deputado incomodado, servidor cansado, liderança comunitária esquecida. Passa a ouvir apenas o eco de quem vive perto do poder. E o eco é sempre perigoso, porque devolve ao governante exatamente aquilo que ele quer escutar. O Acre real é diferente. O Acre real não quer saber quem cochicha no ouvido da governadora. Quer saber quem resolve. Quer saber quem responde. Quer saber por que a máquina pública parece travada quando deveria estar funcionando.

A crítica feita no Jornal da Manhã toca exatamente nesse ponto. Não se trata apenas de disputa eleitoral. Trata-se de responsabilidade pública. Quem manda precisa aparecer. Quem decide precisa assinar. Quem interfere precisa ter nome, cargo e dever legal. A democracia não combina com poder clandestino. Governo não pode ser comandado por presença na fotografia, influência de corredor ou intimidade com quem ocupa o cargo principal. Governo exige comando aberto, cadeia de decisão limpa e autoridade capaz de dizer sim, não e por quê.

Mailza Assis ainda tem tempo de reorganizar o próprio governo, mas esse tempo não é infinito. A governadora precisa separar conselho de comando, amizade de função pública, articulação de interferência. Precisa olhar para a base e entender que deputado não é empregado de palácio. Precisa olhar para os partidos e entender que aliança sem firmeza vira humilhação pública. Precisa olhar para dentro do governo e decidir quem fala, quem manda, quem executa e quem responde.

A eminência parda sobrevive porque raramente deixa impressão digital. Por isso mesmo, um governo responsável não pode entregar sua condução a esse tipo de personagem. A sombra protege quem opera, mas enfraquece quem governa.

Zequinha manda recado e expõe ruídos na pré-campanha de Mailza

O prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, entrou no centro da pré-campanha ao governo do Acre nesta terça-feira, 26 de maio de 2026, por meio de uma mensagem enviada por seu assessor de imprensa, Paulo de Sá, à coluna do Crica. O recado afastou rumores de traição à governadora Mailza Assis, mas também cobrou uma correção de rumo dentro do próprio grupo governista.

“Prefeito Zequinha tem partido, tem lado e já tratou diretamente com a governadora Mailza Assis. Não iremos ficar martelando isso todos os dias”, escreveu Paulo de Sá. A frase surgiu em meio a especulações sobre uma possível aproximação de Zequinha com o senador Alan Rick, adversário direto de Mailza na disputa pelo Palácio Rio Branco.

A mensagem, porém, foi além da defesa pessoal. O assessor criticou pessoas próximas à governadora que, segundo ele, “vivem de fofocas” e deveriam “rever a metodologia adotada na pré-campanha, porque os números das pesquisas mostram que algo precisa ser corrigido”. Com isso, Zequinha deixou claro que permanece no barco de Mailza, mas não aceita ser tratado como suspeito enquanto a campanha enfrenta dificuldades para crescer.

Cruzeiro do Sul tem peso decisivo nesse tabuleiro. Maior cidade do interior e centro político do Juruá, o município não pode ser tratado como detalhe por nenhuma candidatura competitiva ao governo. Quando o prefeito da cidade precisa reafirmar lealdade em público, o problema já não é apenas boato. É sinal de que a base governista ainda busca unidade, comando e comunicação mais eficiente.

A cobrança nasce em um momento delicado. Pesquisa Veritá divulgada em maio colocou Alan Rick à frente, com Mailza em segundo lugar e Tião Bocalom em terceiro. Mesmo com a estrutura do governo e o apoio do grupo de Gladson Cameli, a governadora ainda tenta transformar presença institucional em força eleitoral nas ruas.

O recado de Paulo de Sá também conversa com uma crítica recorrente nos bastidores: Mailza precisa ser mais presente junto ao eleitor comum, menos presa à agenda oficial e mais próxima dos bairros, ramais, mercados e lideranças locais. No Acre, campanha não se vence apenas com fotografia de gabinete. O eleitor quer ver presença, escuta e resposta.

O episódio também se conecta à movimentação de Jéssica Sales, que descartou ser vice e passou a tratar o Senado como prioridade caso Gladson Cameli não consiga disputar. Essa posição mexe diretamente na composição da chapa governista e aumenta o peso político de lideranças como Zequinha na sustentação regional de Mailza.

No fim, a mensagem do assessor não foi apenas uma nota de fidelidade. Foi uma advertência. Zequinha reafirmou lado, mas cobrou respeito e estratégia. Para Mailza, o aviso é claro: antes de procurar traidores dentro da base, a pré-campanha precisa corrigir método, organizar aliados e encontrar o eleitor fora dos corredores do poder.

Foto: Felipe Freire/Secom