Alan Rick oficializa candidatura ao governo do Acre e coloca combate à corrupção no centro da campanha

Sob chuva e diante de apoiadores reunidos no ginásio do Sesc, em Rio Branco, o senador Alan Rick, do Republicanos, oficializou a candidatura ao governo do Acre com um discurso voltado ao combate à corrupção, à recuperação da confiança no poder público e à permanência dos acreanos no estado. Ao lado do empresário Ricardo Leite, anunciado como candidato a vice-governador, Rick atacou a atual administração e apresentou o enfrentamento aos desvios de recursos públicos como uma das principais bandeiras da campanha pelo Palácio Rio Branco.

O senador usou a expressão “corrupção endêmica” para definir o cenário que pretende enfrentar. A acusação atravessou a entrevista coletiva concedida antes da convenção e voltou ao centro do discurso no palco, quando ele associou suspeitas de desvio, obras públicas com problemas e investigações recentes à perda de serviços essenciais para a população.

“Nós precisamos nos livrar dessa corrupção endêmica. Não é possível nos acostumar com isso, achar que é normal a roubalheira que assola o nosso estado”, declarou o senador para uma multidão de apoiadores.

Rick citou episódios que chegaram ao noticiário político e policial do Acre e usou os casos para sustentar a crítica ao funcionamento da máquina estadual. Entre eles, mencionou a queda de uma ponte construída havia menos de três anos e uma investigação envolvendo recursos destinados à educação, à merenda escolar e ao transporte de estudantes.

“Não é normal uma ponte construída há menos de três anos cair e nada ser feito. Não é normal roubarem R$ 51 milhões da educação, da merenda escolar e do transporte dos alunos”, disparou o candidato, sendo ovacionado pelo público presente.

Ao levar a discussão para além das denúncias e dos valores citados, Alan Rick relacionou a corrupção e a falta de oportunidades à saída de moradores do Acre. A migração de famílias, jovens e trabalhadores em busca de emprego e melhores condições de vida em outros estados apareceu como uma das consequências de um poder público que, na avaliação do senador, deixou de oferecer perspectivas à população.

Ao ser questionado sobre sua principal missão, ele foi taxativo: “Trazer de volta a esperança para o povo do Acre, que perdeu tanta gente que foi embora do estado por falta de esperança, por essa corrupção endêmica que hoje nos envergonha. Não podemos aceitar mais tanta corrupção, tanta crueldade com o erário público e com o nosso povo”.

A declaração transformou o êxodo de acreanos em um dos eixos políticos da candidatura. Rick apresentou a recuperação da confiança no estado como condição para gerar empregos, atrair investimentos e impedir que parte da população continue enxergando a mudança para outras regiões como única possibilidade de crescimento profissional e segurança econômica.

O senador também mencionou suspeitas de caixa dois, lavagem de dinheiro e uso de institutos para movimentar recursos com finalidade eleitoral. As acusações foram atribuídas por ele a investigações e denúncias já divulgadas publicamente.

“Não é normal tentarem desviar dinheiro através de institutos para guardar recurso para a campanha deles. E aí, todos os órgãos de controle… não sou eu que estou dizendo, são as denúncias estampadas nos jornais”, pontuou.

A candidatura nasce diante de uma disputa em que o grupo governista dispõe da estrutura administrativa do estado e de alianças construídas ao longo dos últimos anos. Alan Rick reconheceu esse desequilíbrio ao falar sobre o uso da máquina pública durante o processo eleitoral. A resposta, segundo ele, dependerá da mobilização dos eleitores e da capacidade da oposição de transformar insatisfação em voto.

“Dizem que vão nos atropelar com a máquina, que vão usar o dinheiro para nos vencer, que eles vão fazer o que puder ser feito e o que tiver que ser feito para nos derrotar. Só que eles não combinaram com o povo do Acre”, desafiou.

Para reforçar a mensagem, Rick recorreu à memória da Revolução Acreana e à luta liderada por Plácido de Castro e pelos seringueiros. A comparação colocou a eleição como uma disputa pela condução política do estado e pela recuperação do que chamou de dignidade da população. O senador, no entanto, afastou qualquer referência à violência e apresentou o voto como instrumento dessa mudança.

“Estamos com a melhor arma, que é uma arma que não precisa ser preenchida com chumbo nem com pólvora. É a arma do voto, é a arma da democracia”, concluiu.

Com o lema “O Trabalho da Esperança”, a convenção marcou o início público da campanha de Alan Rick ao governo e apresentou Ricardo Leite como o nome escolhido para compor a chapa. O discurso deixou clara a estratégia eleitoral: confrontar o grupo que administra o estado, associar denúncias de corrupção à precariedade dos serviços públicos e defender uma mudança de comando como caminho para recuperar empregos, investimentos e confiança no futuro do Acre.

Foto: Sérgio Vale/AC24h

Operação Ptolomeu fica travada no Acre e 12 investigados seguem sem denúncia

Dois anos e meio depois de a Operação Ptolomeu abrir a primeira frente criminal contra o esquema de corrupção investigado no governo do Acre, o processo que mira 12 investigados sem foro privilegiado continua parado no Ministério Público Estadual, em Rio Branco, sem denúncia oferecida, sem data para chegar à promotoria responsável e sem previsão de julgamento. A informação foi trazida pela TV Gazeta, no jornal Gazeta em Manchete de quinta-feira, dia 11, e expõe o contraste entre a condenação do ex-governador Gladson Cameli no Superior Tribunal de Justiça e a lentidão da parte local do caso.

O ex-governador foi condenado pela Corte Especial do STJ a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado. A ação em Brasília tratou de crimes como organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, porém, a parte que envolve familiares, ex-secretários, empresários e servidores ainda não atravessou a etapa decisiva da denúncia criminal. Sem esse ato, ninguém vira réu na primeira instância, a instrução não começa e a responsabilização dos demais personagens fica suspensa.

A primeira ação penal nascida da Ptolomeu ficou conhecida como caso Murano. Ela trata de contratos de obras e recuperação de prédios públicos estaduais que, pela acusação, foram usados para desviar dinheiro do Estado por meio de uma empresa de fachada. A engrenagem passava pela cessão de CNPJ, pela contratação formal de uma empresa sem estrutura real para executar o serviço e pela movimentação de cerca de R$ 18 milhões. Desse total, R$ 11 milhões aparecem ligados diretamente a sobrepreço e superfaturamento. Na prática, o que deveria virar obra pública virou prova de um mecanismo que drenava recursos do orçamento acreano por dentro dos próprios contratos oficiais.

A lista dos investigados que desceu para a Justiça de primeiro grau alcança o núcleo familiar e administrativo de Gladson Cameli. Estão nela a ex-esposa Ana Paula Corrêa da Silva Cameli, o irmão Gledson de Lima Cameli, o pai Eládio Cameli, o ex-secretário de Obras Thiago Caetano, os empresários Gabriel Látia de Araújo e Souza e Uudson Marcelo Amaral de Souza, além de servidores estaduais ligados ao funcionamento das licitações. São nomes que, pela investigação original, ajudariam a explicar como uma fraude desse tamanho não nasce apenas da assinatura de uma autoridade, mas de uma rede que prepara edital, valida medição, libera pagamento, empresta empresa e dá aparência legal ao desvio.

A ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ, mandou a parte dos acusados sem foro para a Justiça Federal do Acre em dezembro de 2023. Depois disso, os autos passaram pelo Tribunal de Justiça e chegaram ao Ministério Público do Acre. A instituição reconheceu que recebeu o processo, mas atribuiu a demora ao fluxo interno. “O processo foi recebido pela instituição, mas ainda não chegou à promotoria responsável, que é a Especializada de Defesa do Patrimônio Público e Fiscalização das Fundações e Entidades de Interesse Social”, informou o MPAC à TV Gazeta.

Essa frase resume o impasse. Não se trata de absolvição, arquivamento ou decisão judicial que encerrou a apuração. O processo existe, os nomes existem, os valores existem e a condenação no STJ já fixou, em outro braço da mesma operação, a existência de uma organização criminosa voltada ao desvio de recursos públicos. O que falta, no Acre, é o ato processual básico para que os demais investigados respondam formalmente às acusações perante a Justiça.

A demora cria uma desigualdade difícil de explicar ao cidadão que paga imposto e vê escola, hospital, estrada e prédio público dependerem de cada real do orçamento. O ex-governador recebeu uma pena pesada por crimes ligados a licitações e lavagem de dinheiro, mas a engrenagem local que teria dado sustentação ao esquema continua sem enfrentamento criminal efetivo na primeira instância.

A consequência não é apenas jurídica. Quando um processo desse porte fica parado, o tempo trabalha contra a memória das provas, contra a recuperação do dinheiro e contra a confiança pública nas instituições. Cada mês sem denúncia empurra para mais longe a resposta sobre quem assinou, quem recebeu, quem intermediou, quem lavou dinheiro e quem se beneficiou dos contratos. Também distancia o Estado da possibilidade de recompor o prejuízo causado aos cofres públicos.

No STJ, a condenação de Gladson Cameli tratou de crimes que atravessam a administração pública por dentro: organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, a parte desmembrada ainda espera o Ministério Público transformar os autos em denúncia ou apontar, de forma fundamentada, outro caminho processual.

A Operação Ptolomeu começou como uma investigação sobre corrupção na cúpula do poder estadual e avançou sobre contratos, obras, empresas e movimentações financeiras. O caso Murano é uma das peças dessa arquitetura. Ele não trata de um episódio isolado, mas de uma forma de operação: empresas usadas como fachada, contratos públicos como porta de entrada, servidores e empresários como operadores, dinheiro público como alvo.

É por isso que a estagnação no Ministério Público do Acre pesa mais do que uma demora comum de cartório. Ela mantém sem resposta a parte mais próxima do cotidiano acreano: os personagens que circularam nos órgãos estaduais, as empresas que receberam, os servidores que tocaram os processos e os familiares que aparecem no entorno do ex-governador. Enquanto essa etapa não anda, a Ptolomeu fica partida em duas realidades. Em Brasília, uma condenação histórica. Em Rio Branco, um processo ainda preso antes da largada.