Mailza, a votada: entre a herança eleitoral de Gladson e o peso de seu governo

Há uma frase que parece simples, quase protocolar, mas que carrega muito mais peso do que talvez pretendesse a governadora Mailza Cameli: “Eu estava lá compondo a chapa, eu fazia parte da chapa, então considero que fui votada”. Ao reivindicar para si os votos dados à chapa de Gladson Cameli em 2022, Mailza não reivindica apenas a legitimidade das urnas. A fala da governadora, feita durante sabatina nesta quinta-feira (17) no Jornal do Acre 1ª Edição, reivindica também um lugar dentro daquela construção política, daquele projeto e daquele governo.

E é justamente aí que a frase ganha outra dimensão.

Mailza tem razão quando lembra que estava na chapa. Estava mesmo. Foi eleita vice-governadora ao lado de Gladson e depois ocupou espaço efetivo na administração, inclusive comandando a área de Assistência Social. Em abril deste ano, quando recebeu o governo, foi ainda mais clara: “Esse não é um novo governo, é a continuidade de um governo que vem dando certo”. Não era uma fala lateral. Era a própria governadora definindo o lugar que pretendia ocupar diante da administração que herdava.

O problema político aparece quando essa continuidade passa a ser apresentada em parcelas.

Há menos de uma semana, durante debate eleitoral, Mailza foi questionada sobre a condenação de Gladson Cameli e respondeu por outro caminho. Disse que, como vice, tinha limites e que não poderia responder pelos problemas jurídicos decorrentes de decisões pessoais do então governador. “Eu era vice, eu tinha limite”, afirmou. Na mesma resposta, porém, reconheceu: “Participei sim do governo trabalhando, fazendo entregas, cuidando da assistência social, cuidando da saúde, visitando os municípios e planejando dentro do meu limite”.

É nessa fronteira que a campanha de Mailza terá de caminhar. Quando o assunto são obras, entregas, políticas sociais ou votos, ela se apresenta como parte da chapa, integrante do governo e herdeira de uma administração que considera bem-sucedida. Quando a discussão chega à crise jurídica que atingiu Gladson, procura demarcar onde terminavam as atribuições da vice e começavam as decisões do governador.

Uma coisa precisa ficar clara: fazer parte daquele governo não torna Mailza responsável pelos crimes pelos quais Gladson foi condenado. Responsabilidade penal é individual, depende de provas e de decisão judicial. Não há base, nos fatos aqui tratados, para atribuir a ela participação nesses crimes.

Mas política não funciona apenas com a régua do Código Penal. Existe também a responsabilidade pela história que um grupo decide reivindicar.

Gladson Cameli foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça, em 6 de maio, a 25 anos e nove meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A decisão também determinou multa e indenização de R$ 11,7 milhões ao Estado do Acre. Em agosto, o STJ rejeitou os embargos apresentados pela defesa sem mudar o resultado da condenação.

É impossível apagar esse capítulo quando se reivindica a continuidade daquele mesmo ciclo político.

A frase de Mailza talvez seja importante justamente porque resolve uma discussão que sua própria campanha vinha tentando administrar. Ela não era uma espectadora no canto da fotografia. Não chegou ao Palácio Rio Branco por acidente institucional. Estava na chapa, participou da administração e agora diz que também se considera votada naquele processo.

Se o voto de 2022 também era dela, como sustenta agora, a herança política daquela chapa também passa por suas mãos. Isso inclui as entregas que pretende apresentar ao eleitor, mas inclui igualmente o desgaste, as escolhas administrativas e a condenação que atingiu o homem com quem dividiu a chapa.

Não se trata de transferir a Mailza os crimes de Gladson. Trata-se de uma pergunta bem mais simples e essencialmente política: até onde vai uma continuidade que reivindica para si os votos e os acertos, mas procura estabelecer distância quando chegam as cobranças?

Mailza agora pede ao eleitor um mandato em seu próprio nome. Talvez por isso tenha chegado a hora de definir, com a mesma clareza daquela frase, qual parte da história de Gladson ela pretende continuar — e qual parte considera que nunca lhe pertenceu.

Foto: Reprodução/Rede Amazônica

Alan Rick oficializa candidatura ao governo do Acre e coloca combate à corrupção no centro da campanha

Sob chuva e diante de apoiadores reunidos no ginásio do Sesc, em Rio Branco, o senador Alan Rick, do Republicanos, oficializou a candidatura ao governo do Acre com um discurso voltado ao combate à corrupção, à recuperação da confiança no poder público e à permanência dos acreanos no estado. Ao lado do empresário Ricardo Leite, anunciado como candidato a vice-governador, Rick atacou a atual administração e apresentou o enfrentamento aos desvios de recursos públicos como uma das principais bandeiras da campanha pelo Palácio Rio Branco.

O senador usou a expressão “corrupção endêmica” para definir o cenário que pretende enfrentar. A acusação atravessou a entrevista coletiva concedida antes da convenção e voltou ao centro do discurso no palco, quando ele associou suspeitas de desvio, obras públicas com problemas e investigações recentes à perda de serviços essenciais para a população.

“Nós precisamos nos livrar dessa corrupção endêmica. Não é possível nos acostumar com isso, achar que é normal a roubalheira que assola o nosso estado”, declarou o senador para uma multidão de apoiadores.

Rick citou episódios que chegaram ao noticiário político e policial do Acre e usou os casos para sustentar a crítica ao funcionamento da máquina estadual. Entre eles, mencionou a queda de uma ponte construída havia menos de três anos e uma investigação envolvendo recursos destinados à educação, à merenda escolar e ao transporte de estudantes.

“Não é normal uma ponte construída há menos de três anos cair e nada ser feito. Não é normal roubarem R$ 51 milhões da educação, da merenda escolar e do transporte dos alunos”, disparou o candidato, sendo ovacionado pelo público presente.

Ao levar a discussão para além das denúncias e dos valores citados, Alan Rick relacionou a corrupção e a falta de oportunidades à saída de moradores do Acre. A migração de famílias, jovens e trabalhadores em busca de emprego e melhores condições de vida em outros estados apareceu como uma das consequências de um poder público que, na avaliação do senador, deixou de oferecer perspectivas à população.

Ao ser questionado sobre sua principal missão, ele foi taxativo: “Trazer de volta a esperança para o povo do Acre, que perdeu tanta gente que foi embora do estado por falta de esperança, por essa corrupção endêmica que hoje nos envergonha. Não podemos aceitar mais tanta corrupção, tanta crueldade com o erário público e com o nosso povo”.

A declaração transformou o êxodo de acreanos em um dos eixos políticos da candidatura. Rick apresentou a recuperação da confiança no estado como condição para gerar empregos, atrair investimentos e impedir que parte da população continue enxergando a mudança para outras regiões como única possibilidade de crescimento profissional e segurança econômica.

O senador também mencionou suspeitas de caixa dois, lavagem de dinheiro e uso de institutos para movimentar recursos com finalidade eleitoral. As acusações foram atribuídas por ele a investigações e denúncias já divulgadas publicamente.

“Não é normal tentarem desviar dinheiro através de institutos para guardar recurso para a campanha deles. E aí, todos os órgãos de controle… não sou eu que estou dizendo, são as denúncias estampadas nos jornais”, pontuou.

A candidatura nasce diante de uma disputa em que o grupo governista dispõe da estrutura administrativa do estado e de alianças construídas ao longo dos últimos anos. Alan Rick reconheceu esse desequilíbrio ao falar sobre o uso da máquina pública durante o processo eleitoral. A resposta, segundo ele, dependerá da mobilização dos eleitores e da capacidade da oposição de transformar insatisfação em voto.

“Dizem que vão nos atropelar com a máquina, que vão usar o dinheiro para nos vencer, que eles vão fazer o que puder ser feito e o que tiver que ser feito para nos derrotar. Só que eles não combinaram com o povo do Acre”, desafiou.

Para reforçar a mensagem, Rick recorreu à memória da Revolução Acreana e à luta liderada por Plácido de Castro e pelos seringueiros. A comparação colocou a eleição como uma disputa pela condução política do estado e pela recuperação do que chamou de dignidade da população. O senador, no entanto, afastou qualquer referência à violência e apresentou o voto como instrumento dessa mudança.

“Estamos com a melhor arma, que é uma arma que não precisa ser preenchida com chumbo nem com pólvora. É a arma do voto, é a arma da democracia”, concluiu.

Com o lema “O Trabalho da Esperança”, a convenção marcou o início público da campanha de Alan Rick ao governo e apresentou Ricardo Leite como o nome escolhido para compor a chapa. O discurso deixou clara a estratégia eleitoral: confrontar o grupo que administra o estado, associar denúncias de corrupção à precariedade dos serviços públicos e defender uma mudança de comando como caminho para recuperar empregos, investimentos e confiança no futuro do Acre.

Foto: Sérgio Vale/AC24h

Mailza bloqueia Integração e expõe falta de maturidade política diante das críticas

A governadora Mailza Cameli bloqueou o acesso do Grupo Integração ao perfil oficial dela no Instagram depois de uma sequência de críticas ao governo, à condução política do Palácio Rio Branco e ao papel de Madson Castro Cameli, marido da governadora, dentro da estrutura administrativa do Estado. Enquanto a conta @mailza.acre permanece aberta para outros usuários, com cerca de 57 mil seguidores, mais de 7,3 mil perfis seguidos e 5.256 publicações, o veículo passou a ver a página como privada e inacessível. O gesto pode parecer pequeno para quem trata rede social como assunto menor, mas no caso de uma governadora ele ganha outro peso: autoridade pública não escolhe quem pode fiscalizar, perguntar ou criticar.

O bloqueio veio depois de o Integração aumentar o tom sobre temas que incomodam diretamente o governo. O grupo cobrou explicações sobre a viagem de Mailza a Londres, criticou a falta de resultados concretos da agenda internacional, questionou quem manda de fato no Palácio Rio Branco e tratou como mau exemplo político a chegada da governadora de motocicleta sem capacete a um evento de pré-campanha. Em qualquer governo com musculatura política, esse tipo de cobrança seria respondido com informação, entrevista, nota pública ou prestação de contas. Mailza escolheu o atalho mais frágil: fechar a porta.

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A reação pesa ainda mais porque a cobertura mais incômoda envolve Madson Castro Cameli, nomeado chefe do Gabinete Pessoal no Palácio Rio Branco e que também bloqueou nosso Instagram. Ele não é apenas marido da governadora. Ocupa uma função dentro do núcleo de poder e, por isso, seus atos, sua influência e sua presença no governo deixaram de pertencer à esfera privada. O caso criminal envolvendo a ex-mulher dele, Melissa Sampaio, já teve manifestação do Ministério Público do Acre, atendimento do Centro de Atendimento à Vítima e medida protetiva deferida. O Integração voltou ao tema ao publicar a cobrança de Melissa pela lentidão da Justiça e, depois, uma entrevista em que ela relatou medo, agressões e revitimização. A defesa de Madson nega as acusações.

Esse é o ponto que torna o bloqueio politicamente grave. Não se trata de uma divergência banal entre uma autoridade e um perfil de Instagram. O governo foi confrontado por reportagens sobre poder, influência familiar, uso da máquina pública, prestação de contas e violência doméstica. Em vez de enfrentar o conteúdo, Mailza isolou o emissor. A atitude não responde a nenhuma pergunta. Apenas mostra que a crítica atingiu um ponto sensível.

Maturidade política não aparece nos discursos em eventos oficiais nem nas postagens bem editadas das redes sociais. Aparece quando o governo é cobrado. Aparece quando a imprensa pergunta o que o Palácio não quer responder. Aparece quando uma autoridade aceita que o cargo público exige tolerância ao contraditório. Ao bloquear o Integração, Mailza fez o contrário. Tratou a crítica como incômodo pessoal, não como parte do jogo democrático.