Acre chega a 2026 entre serviços em crise, dependência do FPE e silêncio político, diz Leonildo Rosas

A disputa eleitoral de 2026 começou no Acre, mas, para o jornalista Leonildo Rosas, o principal debate ainda não entrou na campanha. Durante participação no programa Central de Política, da TV Gazeta, ele descreveu um estado que, na sua avaliação, perdeu a capacidade de reagir diante do avanço dos problemas estruturais. Em vez de discutir projetos para saúde, educação, economia e desenvolvimento, o Acre estaria mergulhado em um ambiente de acomodação política e social. “A sociedade acreana, a que a gente vive, a que a gente está presente, ela está caminhando de uma forma sonâmbula rumo ao abismo. Não há qualquer manifestação, qualquer reivindicação, qualquer protesto quanto aos desmandos que a gente vê ao longo dos últimos anos no nosso estado”, afirmou. Em seguida, elevou o tom do diagnóstico: “O pior dessa rumo ao abismo é que pode também ir para o fundo do poço, o subsolo do fundo do poço que a gente caminha.”

A imagem do “Acre sonâmbulo” tornou-se o eixo da análise apresentada por Rosas. Para ele, o silêncio da sociedade não decorre apenas do desgaste natural da política, mas da ausência de enfrentamento público diante de uma sucessão de problemas administrativos que, segundo sua leitura, deixaram de provocar indignação coletiva.

Na avaliação do jornalista, esse cenário começou a ser construído após a eleição de 2018. Ele atribui parte da responsabilidade às forças políticas derrotadas naquele pleito, que, segundo disse, abandonaram o espaço do debate público e permitiram a consolidação de um ambiente sem contraponto. “O que está acontecendo é o reflexo da covardia das forças de esquerda ao longo dos últimos oito anos. É um pessoal que perdeu a eleição em 2018, a maioria vazou do estado do Acre, fugiu, não fez o enfrentamento, não fez o combate político. E dentro da política não tem espaço vazio. Deixou-se criar um discurso único: rejeição a um grupo político que fez muito pelo Acre.”

Para Rosas, a consequência dessa ausência foi uma campanha cada vez mais superficial, incapaz de discutir um projeto de Estado. Na visão dele, muitos candidatos sequer demonstram disposição para construir uma candidatura competitiva. “O candidato precisa primeiro levar essa candidatura a sério. Então, se ele não leva, como é que as pessoas vão acreditar?”

As críticas avançaram para a relação entre governo e imprensa. Ex-secretário estadual de Comunicação, Rosas afirmou que nunca houve um investimento tão elevado em publicidade institucional. Na interpretação dele, esse volume de recursos reduziu o espaço para o escrutínio público sobre a administração estadual. “Primeiro, nunca se gastou tanto para calar a imprensa no Acre como o governo de Gladson Cameli. Eu fui secretário de Comunicação, eu sei o tanto que era o orçamento da Secretaria de Comunicação para mídia. Dobrou oficialmente. A população, obviamente, ela não ficou sabendo dos desmandos que foram cometidos desde o primeiro dia do Gladson Cameli.”

Ao relacionar comunicação institucional e cobertura jornalística, Rosas sustentou que episódios de grande repercussão acabaram perdendo espaço no debate público. “Nós temos um governador ou um ex-governador que, de forma inédita, levou a Polícia Federal para dentro do palácio, para dentro da sua casa, para a casa dos pais dele, e ele é condenado a 25 anos e 9 meses de cadeia. Tem pessoas que não sabem que ele foi condenado porque a imprensa não cumpriu o papel dela. A oposição não cumpriu o papel dela. Ela não fez o combate, se acovardou. Aqueles que não se acovardaram, foram embora.”

Ao comentar a atual governadora Mailza Assis, Rosas fez uma distinção entre responsabilidades administrativas e responsabilidades políticas. Segundo ele, ela não ocupava a posição de ordenadora de despesas durante os fatos que citou, mas assumiu um governo identificado com a continuidade do grupo político. “A partir de agora, se houver desmando dentro do governo dele — porque já há indícios e muitas denúncias de continuidade de casos de corrupção —, se ela souber que está acontecendo e mantiver essas pessoas, aí sim passará a ter culpa. Mas ela assumiu um governo com o discurso da continuidade. Será que nós queremos para o Acre a continuidade da corrupção?”

Depois das críticas políticas, Rosas concentrou a análise nos serviços públicos. Para ele, o debate eleitoral ignora justamente as áreas que mais afetam a rotina da população. “A discussão é rasa da nossa política. Ninguém discute mais um projeto de Estado. Ninguém discute os rumos da nossa saúde, que todo dia a gente vê coisas absurdas. Ninguém debate a nossa educação, que voltou a ser a pior do país em apenas oito anos. Foram anos construindo um processo para a educação melhorar. Nós temos uma assistência social que é um desastre.”

Na economia, o jornalista descreveu um estado paralisado, sem novos investimentos capazes de alterar a estrutura produtiva. “A nossa produção não produz nada. A construção civil não constrói nada. Passaram-se sete anos sem construir uma casa sequer.” Para ele, o Acre abandonou políticas voltadas à diversificação econômica e voltou a depender quase exclusivamente da circulação de recursos públicos.

Foi nesse contexto que Rosas apresentou um dos dados que considera mais preocupantes para o futuro das contas estaduais. Segundo ele, o Acre voltou a depender majoritariamente do Fundo de Participação dos Estados (FPE), revertendo um processo que buscava ampliar a arrecadação própria. “A economia do contracheque voltou agora. Quando o Tião Viana deixou o governo, nós estávamos quase que FPE e receita própria equivalente: 53% a 47%. Voltamos a depender quase 80% do FPE.”

Ao defender políticas de incentivo adotadas em governos anteriores, Rosas citou cadeias produtivas que continuam movimentando parte da economia acreana. “Se critica por ter iniciativa de fazer? Eu nunca vi isso. Se critica por não fazer. Nós estamos há oito anos no marasmo, na paralisação. A única coisa que cresceu no Acre foi a corrupção, que voltou para dentro do governo.”

Mais do que uma crítica à gestão estadual, a entrevista foi construída como um alerta sobre o rumo do Estado. Na avaliação do jornalista, o Acre corre o risco de chegar às urnas discutindo nomes e alianças enquanto deixa em segundo plano a deterioração dos serviços públicos, a dependência crescente de transferências federais e a ausência de uma estratégia de desenvolvimento capaz de reduzir a vulnerabilidade econômica. O “estado sonâmbulo” descrito por Leonildo Rosas resume, para ele, uma sociedade que deixou de reagir justamente quando os problemas passaram a exigir maior mobilização.

Operação Ptolomeu fica travada no Acre e 12 investigados seguem sem denúncia

Dois anos e meio depois de a Operação Ptolomeu abrir a primeira frente criminal contra o esquema de corrupção investigado no governo do Acre, o processo que mira 12 investigados sem foro privilegiado continua parado no Ministério Público Estadual, em Rio Branco, sem denúncia oferecida, sem data para chegar à promotoria responsável e sem previsão de julgamento. A informação foi trazida pela TV Gazeta, no jornal Gazeta em Manchete de quinta-feira, dia 11, e expõe o contraste entre a condenação do ex-governador Gladson Cameli no Superior Tribunal de Justiça e a lentidão da parte local do caso.

O ex-governador foi condenado pela Corte Especial do STJ a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado. A ação em Brasília tratou de crimes como organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, porém, a parte que envolve familiares, ex-secretários, empresários e servidores ainda não atravessou a etapa decisiva da denúncia criminal. Sem esse ato, ninguém vira réu na primeira instância, a instrução não começa e a responsabilização dos demais personagens fica suspensa.

A primeira ação penal nascida da Ptolomeu ficou conhecida como caso Murano. Ela trata de contratos de obras e recuperação de prédios públicos estaduais que, pela acusação, foram usados para desviar dinheiro do Estado por meio de uma empresa de fachada. A engrenagem passava pela cessão de CNPJ, pela contratação formal de uma empresa sem estrutura real para executar o serviço e pela movimentação de cerca de R$ 18 milhões. Desse total, R$ 11 milhões aparecem ligados diretamente a sobrepreço e superfaturamento. Na prática, o que deveria virar obra pública virou prova de um mecanismo que drenava recursos do orçamento acreano por dentro dos próprios contratos oficiais.

A lista dos investigados que desceu para a Justiça de primeiro grau alcança o núcleo familiar e administrativo de Gladson Cameli. Estão nela a ex-esposa Ana Paula Corrêa da Silva Cameli, o irmão Gledson de Lima Cameli, o pai Eládio Cameli, o ex-secretário de Obras Thiago Caetano, os empresários Gabriel Látia de Araújo e Souza e Uudson Marcelo Amaral de Souza, além de servidores estaduais ligados ao funcionamento das licitações. São nomes que, pela investigação original, ajudariam a explicar como uma fraude desse tamanho não nasce apenas da assinatura de uma autoridade, mas de uma rede que prepara edital, valida medição, libera pagamento, empresta empresa e dá aparência legal ao desvio.

A ministra Nancy Andrighi, relatora do caso no STJ, mandou a parte dos acusados sem foro para a Justiça Federal do Acre em dezembro de 2023. Depois disso, os autos passaram pelo Tribunal de Justiça e chegaram ao Ministério Público do Acre. A instituição reconheceu que recebeu o processo, mas atribuiu a demora ao fluxo interno. “O processo foi recebido pela instituição, mas ainda não chegou à promotoria responsável, que é a Especializada de Defesa do Patrimônio Público e Fiscalização das Fundações e Entidades de Interesse Social”, informou o MPAC à TV Gazeta.

Essa frase resume o impasse. Não se trata de absolvição, arquivamento ou decisão judicial que encerrou a apuração. O processo existe, os nomes existem, os valores existem e a condenação no STJ já fixou, em outro braço da mesma operação, a existência de uma organização criminosa voltada ao desvio de recursos públicos. O que falta, no Acre, é o ato processual básico para que os demais investigados respondam formalmente às acusações perante a Justiça.

A demora cria uma desigualdade difícil de explicar ao cidadão que paga imposto e vê escola, hospital, estrada e prédio público dependerem de cada real do orçamento. O ex-governador recebeu uma pena pesada por crimes ligados a licitações e lavagem de dinheiro, mas a engrenagem local que teria dado sustentação ao esquema continua sem enfrentamento criminal efetivo na primeira instância.

A consequência não é apenas jurídica. Quando um processo desse porte fica parado, o tempo trabalha contra a memória das provas, contra a recuperação do dinheiro e contra a confiança pública nas instituições. Cada mês sem denúncia empurra para mais longe a resposta sobre quem assinou, quem recebeu, quem intermediou, quem lavou dinheiro e quem se beneficiou dos contratos. Também distancia o Estado da possibilidade de recompor o prejuízo causado aos cofres públicos.

No STJ, a condenação de Gladson Cameli tratou de crimes que atravessam a administração pública por dentro: organização criminosa, peculato, corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitação. No Acre, a parte desmembrada ainda espera o Ministério Público transformar os autos em denúncia ou apontar, de forma fundamentada, outro caminho processual.

A Operação Ptolomeu começou como uma investigação sobre corrupção na cúpula do poder estadual e avançou sobre contratos, obras, empresas e movimentações financeiras. O caso Murano é uma das peças dessa arquitetura. Ele não trata de um episódio isolado, mas de uma forma de operação: empresas usadas como fachada, contratos públicos como porta de entrada, servidores e empresários como operadores, dinheiro público como alvo.

É por isso que a estagnação no Ministério Público do Acre pesa mais do que uma demora comum de cartório. Ela mantém sem resposta a parte mais próxima do cotidiano acreano: os personagens que circularam nos órgãos estaduais, as empresas que receberam, os servidores que tocaram os processos e os familiares que aparecem no entorno do ex-governador. Enquanto essa etapa não anda, a Ptolomeu fica partida em duas realidades. Em Brasília, uma condenação histórica. Em Rio Branco, um processo ainda preso antes da largada.