Jornal da Manhã em Coluna – 2 de julho de 2026

A coluna desta quinta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau, entrevista com o deputado federal Eduardo Velloso e cobertura de Gledson Albano em Cruzeiro do Sul.

Palácio em tremor

A política do Acre amanheceu com barulho de parede rachando no Palácio Rio Branco. Não foi apenas a frase da governadora Mailza Assis chamando Eduardo Velloso de “novo senador” que mexeu no tabuleiro. Foi a frase chegando no mesmo momento em que aliados históricos de Gladson Cameli começam a perder espaço dentro do governo.

Quando a troca acontece em cargo pequeno, o Palácio chama de ajuste. Quando passa pela Casa Civil, pelo Deracre e por nomes ligados ao ex-governador, a palavra muda de tamanho. Já não parece manutenção. Parece rearrumação de poder.

Donadoni fora da costura

A saída de Jonathan Xavier Donadoni da Casa Civil abriu a semana política com uma pergunta difícil de empurrar para debaixo do tapete. A Casa Civil não é uma sala comum. É o lugar onde se costura governo, se destrava nomeação, se conversa com deputado, se escuta prefeito e se segura crise antes que ela vire manchete.

Donadoni era visto como nome herdado da gestão Gladson Cameli. Ao tirá-lo da cadeira, Mailza mexeu numa peça administrativa, mas atingiu um símbolo político. Em governo rachado, símbolo fala alto.

Mário Neto também caiu

Depois de Donadoni, veio Mário Vieira da Silva Neto, o Mário Neto, exonerado da Diretoria de Gestão de Atos Oficiais da Casa Civil. A queda reforçou a leitura de que a mudança não parou no chefe. Alcançou o entorno.

Mário Neto era ligado à engrenagem da Casa Civil e atuava em área sensível da máquina. Quando sai o comandante e depois sai o braço direito, a conversa de bastidor ganha corpo. O governo pode chamar de decisão pontual. A política chama de limpa.

Sula saiu do Deracre

A saída de Sula Ximenes do Deracre pesa mais fora de Rio Branco do que muita gente imagina. No interior, Deracre não é sigla. É ramal aberto, ponte de madeira, bueiro, patrol, máquina chegando antes da chuva e produtor conseguindo tirar a produção do roçado.

Quando a presidente deixa o cargo reclamando de falta de condições para trabalhar, o problema deixa de ser gabinete e vira estrada. No Juruá, o eleitor entende essa linguagem sem precisar de tradução.

Gladson tenta apagar o fogo

Gladson Cameli apareceu na Expoacre Juruá, tirou foto, conversou, circulou e mostrou que ainda tem força de rua. Esse é o ponto que incomoda adversários e aliados: mesmo ferido juridicamente, Gladson continua carregando presença popular.

A cena é conhecida no Acre. O processo corre em Brasília, a política corre na rua e o eleitor olha as duas coisas ao mesmo tempo. Gladson sabe disso. Por isso aparece. Quem some, perde antes de pedir voto.

Avião no chão

O avião PT-WGK, registrado em nome de Gladson Cameli, voltou ao centro da Operação Ptolomeu após informação de nova apreensão pela Polícia Federal em Cruzeiro do Sul, por ordem atribuída à ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça.

A imagem do avião parado no aeroporto tem força política própria. Num Acre em que deslocamento aéreo, poder e dinheiro público sempre rendem conversa, uma aeronave sob restrição judicial vira mais que patrimônio. Vira fotografia de crise.

Frase de Mailza virou senha

Quando Mailza chamou Eduardo Velloso de “novo senador”, a frase saiu do protocolo e entrou no cálculo eleitoral. Pode ter sido gentileza. Pode ter sido lapso. Pode ter sido recado. O problema é que, em ano de montagem de chapa, ninguém ouve frase solta.

A pergunta que ficou no estúdio foi direta: se Velloso entra na disputa ao Senado pelo campo da governadora, quem perde espaço? Gladson? Márcio Bittar? Outro nome da base? No Acre, duas vagas parecem muitas até o momento em que todos querem sentar nelas.

Velloso não fugiu

Eduardo Velloso foi ao Jornal da Manhã no dia em que muitos prefeririam agenda longe de microfone. Isso conta. Política também se mede pela disposição de responder quando a pergunta vem sem anestesia.

Velloso não fechou a equação da chapa, mas deixou claro que está se movimentando. Falou como pré-candidato, defendeu entregas na saúde, valorizou o Juruá e tentou transformar a frase de Mailza em empurrão, não em armadilha.

Saúde como palanque

Velloso escolheu a saúde como território político. Falou de ressonância, cardiologia, oftalmologia, mutirões, emendas e atendimento nos municípios isolados. É uma escolha esperta porque, no Juruá, saúde não é tema abstrato. É madrugada na estrada, espera por exame, família fazendo vaquinha, paciente tentando chegar vivo a Rio Branco.

Quando o deputado diz que a maior dor das pessoas é a saúde, não está apenas descrevendo um problema. Está escolhendo o lugar de onde quer falar com o eleitor.

Clodoaldo virou fiador

O deputado estadual Clodoaldo Rodrigues apareceu ao lado de Velloso como mais que convidado. Entrou como fiador político da relação do deputado federal com Cruzeiro do Sul e com o Juruá.

Clodoaldo disse que encontrou em Velloso um parceiro para tocar demandas do mandato. Em política local, isso pesa. Deputado estadual precisa de estrada, prédio, ambulância, iluminação, entidade atendida e recurso chegando. Sem isso, discurso fica sem chão.

Delcimar na mesa

O momento mais forte da entrevista veio quando Velloso convidou Delcimar Leite, vice-prefeita de Cruzeiro do Sul e mulher de Clodoaldo Rodrigues, para ser sua primeira suplente ao Senado.

O convite foi feito ao vivo, sem Delcimar no estúdio. Clodoaldo respondeu com cautela e lembrou que a decisão cabe a ela. A cena, porém, já fez o serviço político. Velloso mostrou que não está apenas pensando em candidatura. Está começando a montar chapa.

Juruá como base

Escolher Delcimar não é detalhe. Ela ocupa a vice-prefeitura de Cruzeiro do Sul, segundo maior colégio eleitoral do Acre, e tem ligação direta com uma região que costuma cobrar presença antes de entregar voto.

Velloso está tentando amarrar saúde, emenda, prefeitura, mandato estadual e identidade regional no mesmo pacote. É um movimento claro: transformar o Juruá em base de largada para uma disputa majoritária.

Peru entrou na conversa

Velloso também levou para o rádio a defesa da ligação com o Peru, especialmente por Pucallpa. Falou de rota mais barata, comércio, interesse asiático e presença de autoridades peruanas na ExpoJuruá.

A pauta parece distante para quem olha só a briga eleitoral, mas não é. O Juruá vive o isolamento no preço do frete, no custo do combustível, na dificuldade de vender e comprar. Quando alguém fala em saída pelo Pacífico, está falando com o comerciante, o produtor e o jovem que quer ver a região deixar de ser fim de linha.

Madson e Ney no radar

Nos bastidores, Madson Cameli e Ney Amorim aparecem como nomes observados na reorganização do governo. Madson, marido da governadora e chefe de gabinete, virou alvo das críticas sobre articulação política. Ney surge como operador chamado para tentar reorganizar uma casa que perdeu escuta.

O problema é que articulação não se resolve só com nome novo entrando na conversa. Governo que deixa prefeito esperando, deputado contrariado e aliado sem resposta começa a perder antes da convenção.

Alan Rick colhe defecções

A ida do prefeito Zequinha Lima para o campo de Alan Rick continua ecoando. No Juruá, Zequinha não é apoio lateral. É prefeito de Cruzeiro do Sul, com presença numa região decisiva.

Quando um prefeito desse tamanho se move, outros observam. Uns por convicção. Outros por sobrevivência. No Acre, debandada raramente começa com barulho. Primeiro vem o silêncio. Depois a foto ao lado do adversário.

Bocalom não quer ser vice

A conversa sobre uma possível aproximação de Mailza com Tião Bocalom entrou no debate com um problema evidente: Bocalom não construiu candidatura ao governo para virar acessório de chapa alheia.

Quem conhece o ex-prefeito de Rio Branco sabe que ele gosta de campanha com o nome dele no centro. Uma composição só faria sentido se entregasse algo maior do que acomodação de última hora. Até aqui, a pergunta segue sem resposta: quem cede primeiro?

Márcio Bittar na conta

A fala de Mailza sobre Velloso também respinga em Márcio Bittar. Se a governadora começa a tratar outro nome como senador, o senador atual precisa medir o tamanho do sinal.

Bittar tem mandato, presença em Brasília e máquina política. Mas 2026 não será eleição de conforto para ninguém. Com Jorge Viana competitivo, Gladson tentando sobreviver juridicamente e Velloso buscando espaço, a disputa ao Senado virou corredor estreito.

Gastos com voos voltam à pista

O Jornal da Manhã também colocou na mesa os gastos do governo do Acre com fretamento de aeronaves descritas como jato, com valores citados acima de R$ 13,5 milhões entre 2023 e 2026, ligados a pagamentos à Ortiz Táxi Aéreo e ao contrato 34/2023.

Esse tipo de dado entra na política com força porque conversa com uma sensação simples do eleitor: enquanto o cidadão espera consulta, estrada e resposta, o governo precisa explicar por que gastar tanto para voar. Número público sem explicação vira munição.

Crítica não é gênero

A bancada também respondeu às acusações de que as críticas ao governo teriam relação com o fato de Mailza ser mulher. O ponto foi colocado de forma direta: a cobrança recai sobre atos administrativos, decisões políticas, gastos públicos e escolhas de governo.

Mulher na política deve ser respeitada. Governadora no poder deve ser cobrada. Uma coisa não anula a outra. Quem ocupa a cadeira principal do Estado entra na vitrine porque suas decisões alcançam a vida de muita gente.

Eleitor fora da bolha

A frase mais importante da manhã talvez não tenha sido sobre cargo, exoneração ou chapa. Foi sobre o eleitor. O governo pode reorganizar gabinete, trocar articulador, apagar incêndio e chamar crise de ajuste. Mas quem decide a eleição está fora do Palácio.

Está no ramal esperando máquina, na fila da saúde, no comércio pagando frete caro, na feira ouvindo rádio, no carro indo para o trabalho, no Juruá olhando quem aparece e quem só manda recado. No fim, é esse eleitor que vai dizer se a rachadura era pequena ou se o prédio inteiro já estava cedendo.

No Jornal da Manhã, Velloso convida Delcimar Leite para primeira suplência ao Senado

O deputado federal Eduardo Velloso fez nesta quinta-feira, 2, em Cruzeiro do Sul, o movimento mais explícito até agora na montagem de sua pré-campanha ao Senado: convidou Delcimar Leite, vice-prefeita de Cruzeiro do Sul e mulher do deputado estadual Clodoaldo Rodrigues, para ser a primeira suplente em sua chapa. O convite foi feito ao vivo, em primeira mão no Jornal da Manhã, em tom de surpresa, depois de Velloso admitir que havia pedido a Clodoaldo para levar Delcimar ao encontro porque queria fazer o chamado pessoalmente.

“Eu quero fazer um convite aqui. Eu tinha pedido para o Clodoaldo trazer a esposa dele, Delcimar, porque eu queria fazer um convite para ela, para que ela seja a minha primeira suplente. Eu não sei se ela vai aceitar ou não”, disse Velloso, antes de passar a palavra ao deputado estadual.

Delcimar não estava presente no estúdio. Clodoaldo respondeu com cautela e deixou claro que a decisão caberá a ela. “A resposta tem que ser dela”, afirmou. Em seguida, o deputado brincou com a situação, disse que precisaria conversar em casa e evitou aceitar o convite em nome da mulher. A reação arrancou comentários da bancada, que tratou o anúncio como a primeira peça concreta da chapa que Velloso tenta montar para disputar uma vaga no Senado em 2026.

O gesto tem peso político porque Delcimar não é apenas a mulher de Clodoaldo. Ela ocupa a vice-prefeitura de Cruzeiro do Sul, segundo maior colégio eleitoral do Acre, e carrega presença direta no Juruá, região que Velloso tem tratado como base prioritária para seu projeto majoritário. Ao chamá-la para a primeira suplência, o deputado federal tenta amarrar três forças no mesmo movimento: a estrutura municipal de Cruzeiro do Sul, o mandato estadual de Clodoaldo e o eleitorado regional que costuma cobrar presença antes de entregar voto.

A fala também deixa Velloso em posição mais clara na sucessão. Até aqui, ele vinha tratando a candidatura ao Senado como uma construção em andamento, repetindo que sua pré-candidatura está crescendo e que busca diálogo com a população. O convite a Delcimar, no entanto, muda o tom. Ninguém oferece primeira suplência sem estar montando chapa. E ninguém escolhe uma vice-prefeita do Juruá por acaso.

Clodoaldo, que acompanhava Velloso na entrevista, virou personagem central do anúncio. Ele já vinha defendendo publicamente que o deputado federal tem condições de disputar o Senado mesmo fora de uma composição fechada com o governo. Ao ser colocado diante do convite à mulher, preferiu não atropelar Delcimar, mas também não rompeu o clima de aliança. A parceria, que já vinha aparecendo em emendas, agendas e discursos conjuntos, ganhou forma eleitoral.

A primeira suplência ao Senado não é cargo decorativo. Em uma eleição majoritária, ela ajuda a dar musculatura política à chapa, amplia bases regionais e pode virar mandato em caso de licença, renúncia ou afastamento do titular. Foi justamente esse cenário que entrou na conversa depois do convite: se Velloso vencer e, no futuro, deixar o Senado por algum motivo, Delcimar poderia assumir a cadeira.

A resposta definitiva de Delcimar ainda não saiu. Mas o convite foi feito, ao vivo, em primeira mão, diante de Clodoaldo e de uma audiência que acompanhou a pré-campanha sair do campo da especulação para a montagem de chapa. No Acre, esse tipo de gesto raramente acontece por acaso. Velloso escolheu Cruzeiro do Sul para abrir a jogada, escolheu Delcimar para testar a força do Juruá e colocou Clodoaldo diante de uma decisão que pode levar a aliança dos dois para dentro da disputa mais importante de 2026.

Com Clodoaldo ao lado, Velloso mira Senado e promete interior mais perto da saúde

O deputado federal Eduardo Velloso transformou a entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, nesta quinta-feira, 2 de julho, em Cruzeiro do Sul, numa largada pública para tentar ocupar espaço na disputa pelo Senado e vender ao Vale do Juruá uma ideia simples: a saúde será o centro do seu discurso, das suas alianças e da sua tentativa de subir de patamar na política acreana. Ao lado do deputado estadual Clodoaldo Rodrigues, Velloso falou de ressonância destravada, cardiologia, oftalmologia, mutirões, emendas, atendimento nos municípios isolados, ligação com o Peru e de uma pré-candidatura que, nas palavras dele, está “cada vez mais crescendo”. A entrevista ganhou peso porque veio um dia depois de a governadora Mailza Assis aparecer em vídeo tratando o parlamentar como “novo senador”, frase que colocou fogo na sucessão de 2026 e obrigou Velloso a responder, no rádio, se já está dentro da chapa governista.

A pergunta veio direta. Chico Melo lembrou que Velloso havia entrado na política depois de uma vida profissional estável, como médico e empresário, e quis saber o que o empurrou para esse caminho. A resposta levou a conversa para o ponto que o deputado escolheu como território político: a dificuldade de atendimento no interior. Velloso citou a ressonância que estava parada, a chegada da cardiologia, a oftalmologia e a rotina de quem vive em Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, cidades que dependem de Cruzeiro do Sul quando a dor passa do limite do que o município consegue resolver. “A maior dor das pessoas é a saúde”, disse o deputado, antes de defender que cada município tenha, pelo menos, ortopedista, cirurgião, anestesista, clínico e pediatra.

Essa frase explica por que a entrevista não ficou presa apenas ao jogo eleitoral. No Juruá, saúde é disputa política porque é também a vida concreta de quem precisa sair de madrugada atrás de consulta, de quem espera exame, de quem sofre acidente em campo de futebol e encontra apenas um raio-x sem especialista para fechar diagnóstico, de quem depende de regulação para Rio Branco quando o problema já não pode esperar. Velloso sabe disso. E, como médico, tenta transformar essa experiência em capital político. Na Câmara dos Deputados, ele aparece oficialmente como Eduardo Ovídio Borges de Velloso Vianna, deputado federal do Acre, filiado ao Solidariedade, médico de formação e integrante titular da Comissão de Saúde em 2026.

O anúncio mais imediato da manhã foi a entrega de 103 óculos para famílias sem condições de comprar, numa ação em parceria com o prefeito Zequinha Lima. Velloso disse que tinha o sonho de levar esse atendimento ao Juruá e creditou ao prefeito de Cruzeiro do Sul a execução da agenda. O deputado também citou a parceria com Clodoaldo, Maria Antônia e “Deda” ao afirmar que mais de R$ 10 milhões foram levados apenas para a saúde de Cruzeiro do Sul. Ele ligou esse dinheiro aos mutirões realizados no município e disse que as ações ajudaram a melhorar o atendimento da população.

Os números oficiais da Câmara reforçam o tamanho da aposta de Velloso na área. Em 2026, aparecem no orçamento R$ 11,8 milhões autorizados para estruturação de unidades de atenção especializada em saúde no Acre e R$ 7,5 milhões para custeio temporário da atenção primária. Também há R$ 13,5 milhões em transferências especiais no Estado. No ano anterior, em 2025, a Câmara registrou R$ 7,9 milhões autorizados, empenhados e pagos para custeio da atenção primária e R$ 11,4 milhões pagos em transferências especiais no Acre.

O que Velloso tentou fazer no rádio foi dar rosto a esses valores. A política de emendas costuma chegar ao eleitor como número solto, difícil de acompanhar, mas no interior ela vira ambulância, reforma, mutirão, exame, cadeira em unidade de saúde, iluminação de campo, apoio a instituição social ou quilômetro de asfalto. Foi nesse ponto que Clodoaldo Rodrigues entrou com força na entrevista. Ele não apareceu apenas como aliado sentado ao lado. Apareceu como fiador da relação de Velloso com Cruzeiro do Sul e com o Juruá.

Clodoaldo, cujo nome completo é Francisco Clodoaldo de Souza Rodrigues, é deputado estadual pelo PP na Assembleia Legislativa do Acre. O cadastro oficial do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo registra o parlamentar como filiado ao Progressistas e representante da Aleac. Na entrevista, ele fez questão de dizer que não votou em Velloso para deputado federal em 2022, mas acabou encontrando nele o principal parceiro para tocar demandas do mandato. “Quem é patrocinador? Só tenho o Velloso por enquanto”, disse Clodoaldo, numa frase que mostra tanto a gratidão política quanto a dependência de deputados estaduais em relação a emendas federais para atender suas bases.

Clodoaldo citou recursos para a Delegacia de Cruzeiro do Sul, o Educandário, os bombeiros, a Polícia Militar e outras instituições. Falou ainda de R$ 2,8 milhões destinados em dezembro de 2025 para entidades de Cruzeiro do Sul e para a iluminação do campo da Vila Santa Rosa, pedido ligado à vice-prefeita Delcimar Leite. Depois, ampliou a conta: disse que Velloso colocou R$ 3 milhões em suas mãos para o ramal Mariana de Cima e que o total no Deracre chega a R$ 11 milhões para obras na região do Juruá.

A fala de Clodoaldo também ajudou Velloso a atravessar a parte mais delicada da entrevista: a pergunta sobre Senado. A governadora Mailza Assis havia chamado o deputado de “novo senador”, e a frase foi lida imediatamente como recado sobre a composição da chapa governista. Velloso não cravou lugar na chapa, mas também não recuou. Disse que a pré-candidatura está crescendo e brincou que agora estaria “conquistando o coração” da governadora. Clodoaldo foi mais direto ao defender que Velloso pode ser candidato ao Senado com ou sem a presença formal na chapa de Mailza. Para ele, eleição majoritária tem outro comportamento e o deputado federal já tem condições de disputar.

Essa diferença de tom foi uma das partes mais reveladoras da manhã. Velloso mediu as palavras para não fechar portas. Clodoaldo falou como quem já trabalha a candidatura na rua. O deputado estadual disse que, quando Velloso pensou em disputar o Senado, chegou a aconselhá-lo a buscar a reeleição para a Câmara, mas agora trata o projeto como posto. A avaliação dele tem lógica eleitoral: Velloso entrou no debate com imagem ligada à saúde, circula com entrega concreta no Juruá, mantém interlocução com o governo e tenta ocupar uma vaga num cenário em que a sucessão estadual ainda depende de acordos mal resolvidos entre Mailza, Gladson Cameli, partidos da base e lideranças que querem espaço na majoritária.

A entrevista também atravessou um tema que vai além do Acre e mira a economia regional. Velloso defendeu que o Vale do Juruá pode ser porta de um novo ciclo por causa da ligação com o Peru, especialmente por Pucallpa. Ele falou da presença de autoridades peruanas na ExpoJuruá, entre elas um senador, um governador e representantes daquela região. O argumento do deputado é econômico: uma rota mais barata de transporte atrai quem quer comprar e vender, inclusive mercados asiáticos e a China.

Essa pauta não é detalhe. Quando um deputado fala em saúde no primeiro bloco e em Peru no segundo, ele tenta juntar duas dores antigas do Acre: o isolamento do cidadão diante do serviço público e o isolamento econômico diante dos grandes corredores de comércio. O Juruá conhece os dois problemas. A família que procura atendimento especializado e o comerciante que paga caro pelo frete fazem parte da mesma geografia. Velloso tenta dizer que pode tratar das duas pontas: levar especialista para perto de quem precisa e abrir caminho para que a região deixe de viver como fim de linha.

A presença da médica cardiologista Regiane Velloso, esposa do deputado, deu uma camada concreta ao debate sobre saúde. Ela lembrou que voltou ao Acre em 2006, trabalha como cardiologista na Fundação Hospitalar e ajudou a montar o serviço de alta complexidade em cardiologia, com cateterismo, stent e cirurgia cardíaca. Na entrevista, Regiane disse que, durante a campanha de 2022, percebeu que pacientes do Juruá com infarto não conseguiam chegar a Rio Branco a tempo. A partir daí, nasceu a promessa de levar cardiologia ao Hospital do Juruá. Dois anos depois, segundo ela, o serviço da Hemocárdio já funciona dentro da unidade.

Velloso completou esse ponto com um dado forte: mais de 1.360 procedimentos de coração realizados em Cruzeiro do Sul. Para o deputado, cada procedimento representa vida preservada e deslocamento evitado. Essa é a parte da entrevista com maior capacidade de chegar ao eleitor sem tradução política. Quem já viu um parente enfartar no interior entende a diferença entre ter atendimento perto e depender de viagem para a capital.

No fim, o Jornal da Manhã colocou Velloso diante de três testes ao mesmo tempo. O primeiro foi explicar por que quer o Senado. O segundo foi mostrar o que já entregou. O terceiro foi responder se sua candidatura nasce dentro do projeto de Mailza ou se tem fôlego próprio para sobreviver fora dele. Ele não fechou a equação, mas deixou claro que está em campanha. Falou como pré-candidato, apresentou serviços, chamou aliados para perto, usou a saúde como vitrine e deixou Clodoaldo fazer a defesa mais aberta de seu nome.

A entrevista também mostrou que Clodoaldo quer entregar o mandato com marca própria no Juruá. Ele disse que pode até não ser reeleito, mas desafiou qualquer deputado estadual a provar que colocou mais recursos ou teve mais presença em Cruzeiro do Sul e na região. É uma fala de quem sabe que a disputa de 2026 não será apenas por partido ou palanque. Será por lembrança. Quem levou recurso, quem apareceu, quem atendeu, quem abriu porta e quem sumiu.

Velloso saiu do estúdio com uma frase da governadora nas costas, um aliado estadual ao lado e uma agenda de saúde na mão. Não é pouco. Mas também não resolve tudo. O caminho até o Senado exige mais que mutirão, óculos, emenda e boa entrevista. Exige costura partidária, resistência a crises, capacidade de explicar alianças e, sobretudo, prova de que os recursos anunciados viram serviço permanente. No Juruá, promessa tem prazo curto. O eleitor escuta no rádio pela manhã e cobra na rua no mesmo dia.

Mailza exonera Mário Neto da Casa Civil em nova mudança no núcleo do governo

A governadora Mailza Assis exonerou Mário Vieira da Silva Neto do cargo de diretor de Gestão de Atos Oficiais da Casa Civil, em edição extra do Diário Oficial publicada nesta quarta-feira. A saída ocorre poucos dias depois da troca no comando da própria pasta, com a exoneração de Jonathan Donadoni, e amplia a sequência de mudanças na estrutura do governo.

Mário Neto havia sido nomeado para a função em março de 2023, era braço direito de Donadoni e vinha atuando em áreas estratégicas da administração, com participação em ações ligadas à organização de eventos do Estado. Até o momento, o governo não informou quem será nomeado para assumir a diretoria.

A nova exoneração reforça a reorganização em curso na Casa Civil, uma das áreas centrais do governo, responsável pela articulação administrativa e política do Palácio Rio Branco. Publicamente, Mailza tem tratado as alterações como decisões pontuais, sem anunciar uma reforma mais ampla no primeiro escalão.

Jornal da Manhã em Coluna – 1º de julho de 2026

A coluna desta quarta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau e cobertura de Gledisson Albano e Mazinho Rogério na primeira noite da Expoacre Juruá 2026.

A feira abriu, a política também

A Expoacre Juruá começou com parque cheio, show de Nattanzinho Lima e a velha cena de Cruzeiro do Sul quando a cidade vira ponto de encontro do interior inteiro. Mas, por trás da música, dos estandes e da poeira dos carros na BR-405, a política abriu sua própria porteira.

A governadora Mailza Assis fez a abertura oficial da feira. Só que a noite não foi apenas de governo. Foi também de adversários circulando, aliados medindo distância e pré-candidatos testando o calor do público.

Alan Rick no mesmo terreiro

O senador Alan Rick chegou à Expoacre Juruá como pré-candidato ao governo e com o prefeito Zequinha Lima ao lado. Em política, a imagem às vezes fala antes do microfone.

Alan não foi à feira apenas para cumprimentar expositor. Foi ocupar espaço. E ocupar espaço no Juruá, em noite de abertura, diante de empresários, produtores, lideranças e visitantes de fora, é mandar recado para o Acre inteiro.

Zequinha mudou a temperatura

A presença de Zequinha Lima no campo de Alan Rick mexe com a conta do Palácio Rio Branco. O prefeito de Cruzeiro do Sul não é um apoio qualquer. Ele governa o principal município do Juruá e conhece como poucos o peso político de uma feira cheia.

Quando Zequinha sai de perto de Mailza e aparece ao lado de Alan, não é só uma troca de palanque. É um movimento que encoraja outros insatisfeitos a fazer a própria travessia.

A fila começou a andar

Rogério Wenceslau resumiu o momento com uma frase que ficou no ar: “A fila tá andando e tá andando rápido”.

A debandada do governo deixou de ser murmúrio de gabinete. Agora aparece em praça pública, em feira, em entrevista, em chegada de comitiva. O barco ainda navega, mas já tem passageiro olhando para a margem.

Falta conversa no Palácio

Wenceslau foi direto ao ponto ao falar em falta de sensibilidade e falta de articulação. Governo que perde ouvido político começa a perder antes no detalhe: uma liderança que não atende, um prefeito que se sente pequeno, uma promessa que fica sem resposta.

No Acre, ninguém rompe de repente. Primeiro avisa. Depois se cala. Quando aparece ao lado do adversário, a decisão já amadureceu faz tempo.

Donadoni fora da Casa Civil

A exoneração de Jonathan Donadoni da Casa Civil caiu no meio da semana como mais uma peça solta no tabuleiro. A Casa Civil é o lugar da costura. Quando quem costura sai, o rasgo aparece mais.

O governo tratou a mudança como decisão administrativa. Wenceslau devolveu a pergunta que incomoda: “Será que sabem a diferença entre decisão de governo e decisão de estado?”.

Decisão de governo cobra conta

Toda governadora pode trocar secretário. Isso faz parte do comando. O problema é o momento, o método e o efeito político da troca.

Quando a base já reclama, quando prefeitos se movem e quando aliados históricos começam a sair, uma exoneração na Casa Civil deixa de ser ato interno. Vira termômetro de crise.

Sula sai e o ramal sente

A saída de Sula Ximenes do Deracre pesa porque o órgão não vive apenas dentro do gabinete. O Deracre chega no ramal, na ponte, na estrada de barro, na operação verão e no produtor que espera a máquina antes da chuva voltar.

Sula pediu exoneração reclamando de compromissos não cumpridos e falta de condições para tocar o trabalho. Isso transforma uma troca administrativa em problema político com cheiro de barro molhado.

Deracre não é enfeite

No Juruá, o Deracre é uma das mãos mais visíveis do governo. Quando o ramal abre, a comunidade lembra. Quando fecha, lembra mais ainda.

Por isso a preocupação com a operação verão é séria. É agora que o serviço precisa andar. Depois que o inverno amazônico chega, a desculpa costuma vir junto com a lama.

Governo tenta conter a leitura

Mailza Assis negou crise e apresentou as mudanças como medidas de gestão. É a resposta esperada de quem está no comando e precisa segurar a imagem de normalidade.

Mas política não se controla apenas com declaração. A leitura se forma no conjunto: Donadoni fora, Sula fora, Zequinha distante, Alan crescendo no Juruá e aliados observando quem será o próximo a atravessar.

A feira como vitrine eleitoral

A Expoacre Juruá tem boi, negócio, show, comida, empreendedor e família andando pelo parque. Mas também tem pré-campanha em estado puro.

Cada aperto de mão vira sinal. Cada foto vira mensagem. Cada ausência vira comentário. Em noite de feira cheia, o político que circula bem sai maior. O que circula acuado sente o peso da multidão.

Trânsito cheio, sinalização falha

A Prefeitura montou transporte gratuito para o público, mas a chegada e a saída tiveram fila grande de veículos. Também houve reclamação sobre falta de sinalização em alguns pontos.

Evento desse tamanho não perdoa improviso. A multidão mostra sucesso, mas também testa a capacidade de organização da cidade.

Empreendedor quer vender

Os empreendedores chegaram à Expoacre Juruá com expectativa positiva. Para muita gente, a feira é a chance de vender em poucos dias o que às vezes demora mês inteiro para girar.

Enquanto político mede força, o pequeno comerciante mede caixa. É ele quem sente primeiro se a festa deu certo.

Segurança em alerta

A Polícia Militar e o Ciosp agiram rápido e apreenderam três motocicletas durante a movimentação da Expoacre. Em noite de público grande, segurança boa é aquela que aparece antes do problema crescer.

A feira movimenta dinheiro, gente e trânsito. Também exige presença firme do Estado.

Até a seleção entrou no clima

No fim do programa, a Copa do Mundo apareceu com torcedor esperançoso, mas sem tanta fé no Brasil.

A frase combina com o momento político do Acre. Tem gente torcendo pelo governo, mas já sem a mesma confiança no jogo.

A cena do dia

A primeira noite da Expoacre Juruá teve música alta, parque cheio e palanque disputado. Mailza abriu oficialmente a feira, mas Alan Rick e Zequinha Lima roubaram parte da cena política.

No Juruá, a festa começou com multidão. A crise, também.

Jornal da Manhã em Colunas – 29 de junho de 2026

Bocalom aposta na produção

Tião Bocalom colocou a produção rural no centro do discurso de pré-campanha ao governo do Acre. Ex-prefeito de Acrelândia por três mandatos e ex-prefeito de Rio Branco por dois, ele voltou a defender o lema “produzir para empregar” e usou a experiência de Acrelândia como vitrine, com café, leite e banana puxando a economia local.

Crítica à florestania

Bocalom também retomou críticas ao modelo político da chamada florestania. A avaliação dele é que o debate ambiental deixou em segundo plano o morador da Amazônia. O discurso reforça a tentativa de ocupar o espaço de candidato ligado à produção, ao emprego e à renda.

Acre dependente de Rondônia

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a crítica à dependência econômica do Acre em relação a Rondônia. Bocalom afirmou que o estado compra de fora produtos básicos como arroz, feijão, milho e leite, enquanto só mantém autossuficiência na carne. A fala deve aparecer com frequência na campanha.

Ouvidoria nos municípios

A pré-campanha de Bocalom tem sido marcada por visitas ao interior. Ele apresenta essas agendas como uma espécie de ouvidoria, com conversas diretas com moradores e levantamento de demandas locais. A estratégia mira especialmente o eleitor dos municípios, onde a pauta da produção costuma ter peso eleitoral.

Kelen no estúdio

A presença de Kelen Rejane Nunes Bocalom, esposa de Tião Bocalom, também foi registrada durante a entrevista. O pré-candidato aproveitou o momento para falar da vida pessoal e reforçar uma imagem mais próxima do eleitor.

Mailza perde sustentação

A governadora Mailza Assis enfrenta um momento de desgaste na articulação para 2026. A avaliação política apresentada no Jornal da Manhã é que a candidatura à reeleição perdeu força depois da saída de Gladson Cameli do governo e da reorganização dos aliados em torno de outros projetos.

Zequinha com Alan Rick

O prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, aparece no centro da movimentação no Juruá. A expectativa é de apoio a Alan Rick, movimento que amplia o isolamento de Mailza Assis e fortalece o projeto do senador na disputa pelo governo.

Alan Rick ganha terreno

Alan Rick passou a ser o principal beneficiário da debandada na base governista. Com o Republicanos organizado em torno de sua pré-candidatura, o senador tenta consolidar apoios no interior e atrair partidos que antes orbitavam o Palácio Rio Branco.

MDB em rota de saída

O MDB também aparece como peça importante nesse rearranjo. A eventual saída do partido da base de Mailza Assis teria impacto direto na composição eleitoral, principalmente pelo peso da legenda em Cruzeiro do Sul e pela influência de Vagner Sales no Juruá.

Márcio Bittar no cálculo

O senador Márcio Bittar também entra na conta das alianças. O PL tende a pesar na formação do bloco de direita e pode ser decisivo na definição do palanque mais competitivo contra Mailza Assis.

Plano de emergência

Com a perda de aliados, interlocutores do governo já discutem alternativas para evitar isolamento maior. Uma das hipóteses comentadas é abrir mão da candidatura própria e tentar indicar o vice em uma chapa mais forte. A avaliação, no entanto, é que o movimento seria difícil e revelaria o grau de pressão sobre o grupo governista.

Café ganha força no Juruá

A sessão solene do Dia do Café, realizada no Teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul, reforçou o peso da produção cafeeira na região. Vinte pioneiros foram homenageados, em uma pauta que mistura economia, agricultura familiar e política.

Luiz Gonzaga conduz homenagem

A solenidade foi presidida pelo deputado estadual Luiz Gonzaga. O presidente da Assembleia Legislativa, Nicolau Júnior, estava fora do estado. O ato colocou o café como uma das apostas econômicas mais fortes do Juruá.

Expoacre Juruá aquece bastidores

A véspera da Expoacre Juruá 2026 movimenta Cruzeiro do Sul e também os bastidores da política. A feira começa em 30 de junho e deve reunir público, produtores, empresários e lideranças políticas em um ambiente favorável a conversas eleitorais.

Apoio de Ciro Nogueira expõe crise de Mailza e cola pré-candidatura a desgaste judicial no Acre

“Mailza é a prioridade número 1 do nosso partido no Brasil. Sua eleição é muito importante, fundamental, e nós estaremos aí até o fim.” A frase de Ciro Nogueira, que circulou nesta segunda-feira, 29 de junho, tentou estancar a crise aberta em torno da candidatura de Mailza Assis ao governo do Acre em 2026. Mas o efeito político foi outro. No momento em que a pré-campanha da governadora enfrenta ruídos internos, especulações sobre resistências na federação e indefinições de aliados, o gesto mais enfático de apoio veio justamente do presidente nacional do PP, hoje atingido pelo escândalo do Banco Master.

Ciro foi alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal em maio, no inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. Segundo decisão do ministro André Mendonça citada pela Reuters, a investigação aponta que o senador teria atuado em favor do banqueiro Daniel Vorcaro “em troca de vantagens econômicas indevidas”. A defesa nega irregularidades e diz que ele está à disposição para prestar esclarecimentos. O dado pesa porque transforma um apoio partidário em passivo político: em vez de blindar Mailza, o áudio a liga nacionalmente a um dirigente sob investigação.

No Acre, o apoio de Ciro apareceu no pior momento para a governadora. O MDB virou peça central da disputa e ainda não definiu se ficará com Mailza ou se abrirá caminho para outro arranjo. Nos bastidores, dirigentes conversam com os dois lados, preservando margem de negociação e ampliando o poder de barganha do partido. Ao mesmo tempo, Alan Rick se consolidou como principal adversário, liderando a corrida ao Palácio Rio Branco. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 18 de junho mostrou o senador com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 26% de Mailza, embora a atual governadora tenha 67% de aprovação administrativa.

A reação do entorno de Mailza foi de trincheira. Luiz Calixto reafirmou a pré-candidatura da governadora como inegociável e fez cobrança pública aos “oportunistas”, sinal de que a turbulência deixou de ser apenas boato de bastidor e passou a ser enfrentada abertamente pelo núcleo político do governo. Quando um projeto precisa ser defendido a esse ponto por seus articuladores, a crise já não está mais do lado de fora.

Mailza tenta vender a própria imagem como continuidade administrativa e política, mas esse discurso cobra um preço cada vez mais alto. Ela é a continuidade de Gladson Cameli, condenado em 6 de maio pela Corte Especial do STJ a 25 anos e 9 meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa negou as acusações e alegou nulidade de provas, mas a condenação colocou o antigo comando do grupo sob o maior desgaste judicial de sua trajetória recente.

É isso que torna a situação de Mailza mais delicada. De um lado, o apoio mais ruidoso vem de Ciro Nogueira, investigado no caso Banco Master. De outro, o discurso de continuidade a amarra ao legado de Gladson, já condenado pelo STJ. No meio desse aperto, a governadora ainda precisa segurar a base, impedir novas deserções e provar que sua candidatura consegue andar com força própria. Hoje, porém, o que mais salta aos olhos é o oposto: uma pré-campanha encurralada, obrigada a se sustentar entre o barulho dos aliados e o peso do desgaste que eles carregam.

Após Mailza assumir, diárias do governo passam de R$ 10,9 milhões em menos de três meses

Depois que Mailza Assis assumiu definitivamente o Governo do Acre, em 2 de abril, os gastos com diárias entraram em ritmo mais acelerado. Levantamento do IntegraçãoNet no Portal da Transparência mostra que, entre 2 de abril e 26 de junho, já sob a nova governadora, foram pagos R$ 10.909.441,48 em diárias, distribuídos em 6.889 registros.

O valor representa 57,7% de tudo o que aparece na planilha do semestre. Ao todo, de janeiro a junho, a base analisada reúne 11.614 pagamentos, somando R$ 18.898.942,98.

A comparação com o período anterior ajuda a dimensionar a mudança. De janeiro a março, ainda sob Gladson Cameli, os pagamentos somaram R$ 7.420.752,05, em 4.522 registros. Depois da posse de Mailza, em menos de três meses, o governo pagou R$ 3,48 milhões a mais em diárias do que nos três primeiros meses do ano. Na prática, o governo passou a gastar mais porque ampliou a quantidade de deslocamentos custeados com recursos públicos.

A nova apuração amplia uma pauta que o IntegraçãoNet já havia trazido à tona na semana passada, quando revelou os gastos da comitiva de Mailza em Londres. Naquela viagem, divulgada pelo governo como missão internacional para tratar de créditos de carbono, foram localizados R$ 192.004,21 em diárias internacionais para 12 integrantes da comitiva, incluindo Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora.

No caso de Madson, a planilha mostra 21 pagamentos em seu nome entre abril e junho, considerando os registros como Madson Cordeiro de Castro e Madson de Castro Cameli. O total pago a ele no período foi de R$ 38.869,35. Só a diária de Londres aparece no valor de R$ 14.776,85.

A base não mostra pagamento direto de diária em nome de Mailza Assis. O deslocamento da governadora aparece de forma indireta, nas descrições das diárias pagas a outras pessoas. Ao longo do semestre, há 535 registros que mencionam agendas, viagens ou assessoramento à governadora ou vice-governadora, somando R$ 826.471,63. Depois de 2 de abril, já como chefe do Executivo, são 377 registros vinculados a agendas de Mailza, com R$ 524.501,76 pagos a terceiros.

Embora não haja pagamentos diretos de diárias em nome de Mailza Assis, o levantamento permite identificar ao menos 25 agendas ou viagens da governadora, após sua posse, que geraram pagamentos a equipes de apoio, segurança, comunicação e assessoria.

Esse dado não significa que Mailza tenha recebido diárias. Significa que a estrutura de deslocamento em torno da governadora movimentou centenas de pagamentos no semestre, envolvendo segurança, comunicação, assessoria, gabinete e outros setores.

Há ainda outro ponto que segue sem explicação suficiente na gestão anterior. Durante o governo Gladson, o IntegraçãoNet já havia levantado gastos do governo com jato, em contrato com a Ortiz, que superam R$ 12 milhões. Agora, com Mailza no comando, o foco recai sobre outro tipo de despesa: as diárias, que passaram a consumir mais de R$ 10,9 milhões em menos de três meses.

Entre os órgãos com maiores pagamentos após a posse de Mailza estão o Fundo Estadual de Segurança Pública, com R$ 968.614,13; a Secretaria de Justiça e Segurança Pública, com R$ 894.125,97; o Ministério Público, com R$ 852.579,85; o Fundo Estadual de Saúde, com R$ 851.526,18; e o Fundo Especial do Corpo de Bombeiros, com R$ 466.710,29.

O recorte por função também reforça a concentração na segurança. Depois da posse de Mailza, a função Segurança Pública somou R$ 3.617.130,11 em diárias. Em seguida aparecem Essencial à Justiça, com R$ 1.202.742,60; Administração, com R$ 968.333,65; Saúde, com R$ 915.375,65; e Agricultura, com R$ 841.864,42.

Junho chama atenção porque ainda não estava fechado na data final da planilha. Mesmo com registros até 26 de junho, o mês já acumulava R$ 3.805.558,22 em diárias, praticamente no mesmo patamar de maio, que fechou com R$ 3.951.941,16. O ritmo de junho foi o maior do semestre: cerca de R$ 146,3 mil por dia, considerando os 26 dias registrados.

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Bonde de Londres: diárias da comitiva de Mailza somam R$ 192 mil em viagem que ainda não apresentou resultado concreto

A viagem da governadora Mailza Assis a Londres, divulgada como missão internacional para tratar de créditos de carbono, teve R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 integrantes da comitiva. A agenda ocorreu durante a Semana do Clima de Londres, mas ainda não há contrato publicado, valor fechado, cronograma de repasse ou documento que mostre o resultado prático da negociação para o Acre.

O maior valor foi pago a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA: R$ 28.813,04. Em seguida aparece Victor Hugo Rondon Soto, apresentado como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado, com R$ 25.593,12 em diárias.

A lista também inclui Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, da Casa Civil, cada uma com R$ 14.776,85. O mesmo valor foi pago a Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora, que integrou a missão como assessor na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal.

A comitiva ainda teve integrantes da área jurídica, segurança e comunicação. Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, recebeu R$ 14.013,63. Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, receberam R$ 14.241,60 cada um. Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, recebeu R$ 12.796,56. Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, recebeu R$ 11.882,52, e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, R$ 11.849,99.

Na prática, o “Bonde de Londres” levou representação institucional, assessoria, segurança, comunicação, foto, vídeo e equipe técnica para uma negociação que, até agora, segue sem resultado público concreto. Enquanto o dinheiro dos créditos de carbono permanece no campo da promessa, as diárias da viagem já aparecem como despesa efetiva para o Estado.

Mailza em Londres: uma reunião que poderia ter sido um e-mail

Governadora vai ao centro financeiro europeu tratar de créditos de carbono, mas negociação segue sem resultado concreto apresentado ao Acre

A governadora Mailza Assis atravessou o Atlântico com uma comitiva oficial para cumprir agenda em Londres, durante a Semana do Clima, em torno de uma das pautas mais sensíveis e milionárias do governo do Acre: a venda de créditos de carbono. A viagem foi apresentada como missão estratégica para atrair investimentos, fortalecer parcerias e transformar a floresta em pé em benefícios para a população. Mas, depois das fotos, vídeos, discursos e reuniões no centro financeiro europeu, o Acre segue diante da pergunta principal: o que foi efetivamente firmado?

As próprias falas públicas da agenda mostram que o negócio continua aberto. Ao lado de Marisa Drew, alta executiva global de sustentabilidade do Standard Chartered Bank, Mailza disse estar no centro econômico de Londres, mas com o coração voltado para a população acreana. Falou em reverter a preservação da floresta em benefícios para ribeirinhos, povos indígenas, produtores rurais e moradores que mais precisam. Em seguida, definiu o estágio real da agenda ao afirmar que estava ao lado de uma representante de “um banco que estamos negociando os créditos de carbono”.

A frase desmonta o tom de conquista. Se o governo ainda negocia, não há acordo concluído. Marisa Drew reforçou essa leitura ao dizer que o banco e o governo conversam “há alguns meses” sobre como criar um mecanismo financeiro para ampliar os recursos e fazer o dinheiro chegar às pessoas locais. Quando o mecanismo ainda está sendo criado, continuam sem resposta pública o valor fechado, o contrato final, o cronograma de repasse, a governança, a fiscalização, as comunidades beneficiadas e a forma concreta de aplicação do dinheiro.

Na prática, a agenda vendida como compromisso internacional em favor do povo acreano parece ter sido mais uma rodada de tratativas. Uma reunião que, pelo que foi apresentado até agora, poderia ter ocorrido por videoconferência, troca técnica entre equipes ou e-mail institucional.

Não se trata de negar a importância da pauta ambiental. O Acre tem floresta, experiência acumulada em políticas de serviços ambientais, histórico no REDD+ jurisdicional, construído no governo da Frente Popular, e potencial real para disputar recursos internacionais. A questão é outra. Quando uma comitiva oficial viaja a Londres com dinheiro público, segurança, comunicação, assessoria e representação institucional, o mínimo esperado é que o governo volte com algo mais concreto do que uma promessa de futuro, do que um aperto de mãos.

A viagem também precisa ser lida pelo custo público e pelos nomes que compuseram a missão. Levantamento no Portal da Transparência do Acre localizou R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 beneficiários da agenda oficial em Londres, incluindo Victor Hugo Rondon Soto, apresentado pelo governo como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado.

O maior pagamento foi destinado a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA, que recebeu R$ 28.813,04. Victor Hugo Rondon Soto aparece em seguida, com R$ 25.593,12. Também receberam diárias Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, ambas da Casa Civil, com R$ 14.776,85 cada uma, e Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora Mailza Assis, que recebeu R$ 14.776,85 para assessorá-la na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal durante a Semana do Clima de Londres.

O pagamento a Madson carrega peso político próprio. Ele não aparece apenas como servidor em uma agenda técnica. É o marido da governadora, chefe de gabinete, acompanhando Mailza em uma viagem internacional cujo resultado concreto ainda não foi apresentado ao público. Em uma missão tratada pelo governo como estratégica para o futuro climático e financeiro do Acre, a presença dele amplia a obrigação de transparência sobre quem foi, por que foi, quanto recebeu e qual função efetiva desempenhou.

A presença de Victor Hugo Rondon Soto exige atenção ainda maior. A Agência de Notícias do Acre o apresentou na comitiva como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado. Ao mesmo tempo, Victor é sócio-administrador da VR Consultoria Empresarial LTDA, empresa que recebeu R$ 3.256.745,01 do governo do Acre entre 2023 e 2026, em contratos associados à CDSA e ligados justamente à pauta de captação de recursos, mercado financeiro, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating internacional, relações corporativas e atuação junto a atores nacionais e internacionais.

A comitiva também incluiu Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, com R$ 14.013,63; Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, cada um com R$ 14.241,60; Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, com R$ 12.796,56; Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, com R$ 11.882,52; e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, com R$ 11.849,99. A missão teve representação institucional, segurança, comunicação, assessoria jurídica, comando da CDSA e presença direta da área do crédito de carbono. Houve equipe para produzir notícia, foto, vídeo e redes sociais. O que ainda não houve foi contrato publicado, valor garantido, cronograma de repasse ou instrumento formal capaz de mostrar o que foi fechado em Londres.

Relatório de despesas por fornecedor mostra que os pagamentos à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, foram registrados como prestação de serviços de consultoria. Os objetos associados aos empenhos conversam diretamente com a vitrine montada em Londres: captação de recursos, mercado financeiro, bancos de investimento, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating financeiro internacional, relações corporativas e atuação junto a atores públicos e privados no Brasil e no exterior.

O ano de 2025 concentrou a maior parte dos pagamentos, com mais de R$ 2,5 milhões. Entre as despesas aparecem serviços voltados à obtenção de rating financeiro internacional do programa de créditos de carbono jurisdicionais do Acre e à avaliação de integridade do Programa Jurisdicional de REDD+ ISA Carbono para habilitação em negociações de mercado financeiro. Por isso, a cobrança não se resume ao que Mailza foi buscar em Londres. A questão é o que o Acre já recebeu depois de pagar consultorias milionárias para estruturar justamente essa pauta de carbono, mercado internacional e captação de recursos.

Mudando o rumo, depois de anos de nada resolvido

O governo apresenta a missão como abertura de uma nova fronteira para o desenvolvimento sustentável. A trajetória recente, porém, é mais complexa do que a comunicação oficial deixa transparecer. Antes do Standard Chartered assumir o centro da negociação, o Acre caminhava pela rota da Coalizão LEAF/Emergent, iniciativa internacional voltada à certificação e comercialização de créditos de carbono florestal jurisdicional. No fim de 2023, o Estado chegou a assinar carta de intenções nesse caminho, apresentado como alternativa com regras rígidas de governança, integridade ambiental e repartição de benefícios.

Depois, a estratégia mudou. A negociação passou a ser conduzida com o banco britânico Standard Chartered, em modelo mais ligado ao mercado financeiro internacional. O banco anunciou acordo para vender créditos de carbono florestal do Acre ao longo de cinco anos, com possibilidade de levar milhões de créditos ao mercado a partir de 2026. O discurso oficial fala em floresta em pé, integridade, comunidades locais e destinação de 72% dos recursos líquidos aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

No papel, a promessa é poderosa. Na vida real, ela depende de respostas que ainda não chegaram ao público: quanto será vendido, a que preço, para quem, quando o dinheiro entrará, quanto ficará com intermediários, quem fiscalizará a conta, quem decidirá a aplicação dos recursos e como as comunidades terão controle sobre aquilo que o governo negocia em nome delas.

Essas perguntas estão no centro da crise de confiança instalada em torno da política de carbono do Acre. Organizações da sociedade civil e representantes da governança do Sisa passaram a questionar a forma como a CDSA conduziu as negociações. A Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Câmara Temática Indígena e a Câmara Temática das Mulheres são espaços que deveriam acompanhar decisões dessa magnitude. As críticas apontam falta de transparência e diálogo insuficiente com esses instrumentos de controle social.

A reportagem do Varadouro, publicada com o título “Vende-se carbono”, colocou a mudança da rota LEAF para o Standard Chartered no centro do atrito entre a CDSA e a sociedade civil. Lideranças relataram que a governança soube das tratativas pela imprensa oficial e que o argumento do sigilo comercial passou a impedir o acesso a informações sobre uma política pública construída historicamente com participação social.

Depois, organizações entregaram carta ao governador Gladson Cameli pedindo mudanças na CDSA e no Sisa. A cobrança era por transparência, revisão da condução política e fortalecimento dos espaços de participação. 

Outras vozes, a mesma pergunta

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também levou a crise para dentro da história do próprio Sisa. Em artigo publicado em 20 de abril de 2026, Simen Kokkvoll e Aldalúcia F. Carvalho reconhecem que o sistema criado pela Lei Estadual nº 2.308, de 2010, fez o Acre virar referência em serviços ambientais e REDD+ jurisdicional, especialmente com o Programa REM, que arrecadou mais de US$ 50 milhões em 15 anos por meio do ISA Carbono. Mas os autores apontam que os pilares que deram força ao modelo — transparência, participação social e controle — passaram a ser justamente seus pontos mais frágeis.

O texto mostra que a revisão da Estratégia de Repartição de Benefícios, em 2025, ampliou a fatia dos povos indígenas de 12% para 22% e definiu 26% para territórios extrativistas, 24% para produtores e agricultores familiares e 28% para o Estado. A crítica, porém, é que percentual não basta. Sem critérios claros, acompanhamento público, relatórios atualizados e funcionamento real da CEVA e das câmaras temáticas, a repartição de benefícios vira promessa sem controle social.

A parte mais sensível para a agenda de Londres está na atuação da CDSA. Segundo Kokkvoll e Aldalúcia, a partir de 2025 a companhia passou a conduzir negociações internacionais de créditos de carbono sem comunicação prévia à governança do Sisa. As tratativas com o Standard Chartered e o rompimento com a LEAF/Emergent aparecem como marco de uma crise institucional marcada por falta de transparência e pelo uso do argumento de “sigilo comercial”.

É essa crítica que torna a viagem de Mailza mais delicada. O Acre não discute apenas vender ou não vender carbono. Discute quem decide, com quais documentos, sob qual controle público e com que participação dos povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares e sociedade civil. O governo fala em transformar floresta em benefício. A CPI-Acre recoloca a pergunta que vem antes de qualquer contrato: quem autorizou a negociação e como a confiança será reconstruída dentro da governança que sustentou o Sisa por mais de uma década?

Também pesa a consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Acre recomendaram que o governo garanta consulta livre, prévia e informada antes da inclusão de territórios indígenas e tradicionais no Programa ISA Carbono. A recomendação afirma que as comunidades devem ter o direito de decidir se querem ou não participar do programa e, se desejarem, desenvolver seus próprios projetos de crédito de carbono.

Esse ponto é decisivo. Não basta o governo fazer reuniões regionais sobre repartição de benefícios e depois apresentar isso como autorização ampla para negociar créditos de carbono em nome de territórios e modos de vida de povos tradicionais. Consulta sobre divisão futura de recursos não é a mesma coisa que consentimento sobre a comercialização dos créditos. Uma coisa é discutir percentuais. Outra é decidir se o território, a floresta, a permanência das comunidades e seus modos de vida podem servir de base para uma operação financeira internacional.

É aí que a agenda de Londres fica mais frágil. Mailza diz que está negociando para garantir que o dinheiro chegue à população. Marisa Drew diz que o banco conversa há meses sobre como criar o mecanismo financeiro. O governo fala em compromisso. O banco fala em modelo. A Agência fala em parceria firmada. Mas, no centro da floresta, continuam sem resposta pública as perguntas essenciais: quem autorizou, quem foi consultado, onde estão as atas, qual é o contrato, qual é o valor, qual é o prazo e qual é a garantia de que o dinheiro chegará aos ribeirinhos, indígenas, extrativistas e produtores familiares citados nos discursos oficiais.

A contradição está diante do Acre. O governo usa a imagem dos povos da floresta para valorizar a negociação em Londres, enquanto parte das instâncias de representação e controle social questiona a forma como a negociação foi conduzida. O discurso fala em dignidade, futuro e prosperidade. As cobranças falam em consulta, transparência e governança.

No fim, a ida a Londres parece menos uma entrega e mais uma tentativa de revestir de solenidade uma negociação que continua aberta. A Agência de Notícias do Acre anunciou a missão como oportunidade para posicionar o Estado no centro das discussões internacionais sobre mecanismos financeiros, mercado de carbono e captação de recursos. Depois, publicou que Mailza e a executiva do banco “firmaram compromisso em favor do povo acreano”. Mas o conteúdo das falas aponta para outro cenário: o mecanismo financeiro ainda está sendo desenhado, o recurso ainda não está garantido e o caminho de chegada do dinheiro às comunidades ainda precisa ser comprovado.

Se houve contrato, que seja publicado. Se houve valor, que seja informado. Se houve cronograma, que seja apresentado. Se houve compromisso jurídico, que seja disponibilizado. Se houve consulta aos povos afetados, que sejam divulgadas as atas, os protocolos, os registros e as respostas dadas às recomendações do MPF, do MPAC e das organizações da sociedade civil.

Enquanto o dinheiro do carbono segue no campo da promessa, os custos da agenda já são concretos. Diárias foram pagas. Consultorias foram pagas. A comunicação oficial foi mobilizada. A comitiva viajou. E o povo acreano continua sem saber quanto virá, quando virá, por qual contrato virá e como o recurso chegará, de fato, às comunidades citadas nos discursos.

O governo pode dizer que a negociação é complexa. E é. Mercado de carbono jurisdicional, ART/TREES, repartição de benefícios, consulta prévia, governança do Sisa, rating internacional e venda por banco global não são temas simples. Justamente por isso, exigem mais transparência, não menos. Exigem mais controle social, não menos. Exigem mais cuidado com os povos da floresta, não apenas o uso de suas imagens e nomes nos discursos oficiais.

A reunião em Londres poderia ter sido um e-mail porque, até agora, trouxe a público essencialmente uma atualização de tratativas: o governo negocia, o banco conversa, o mecanismo financeiro está sendo construído e a promessa é fazer o dinheiro chegar. Mas isso o Acre já sabia. O que o Acre ainda não sabe é o principal: o que foi realmente fechado, quanto isso vale e quando a população verá algum resultado concreto.