Jornal da Manhã em Coluna – 1º de julho de 2026

A coluna desta quarta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau e cobertura de Gledisson Albano e Mazinho Rogério na primeira noite da Expoacre Juruá 2026.

A feira abriu, a política também

A Expoacre Juruá começou com parque cheio, show de Nattanzinho Lima e a velha cena de Cruzeiro do Sul quando a cidade vira ponto de encontro do interior inteiro. Mas, por trás da música, dos estandes e da poeira dos carros na BR-405, a política abriu sua própria porteira.

A governadora Mailza Assis fez a abertura oficial da feira. Só que a noite não foi apenas de governo. Foi também de adversários circulando, aliados medindo distância e pré-candidatos testando o calor do público.

Alan Rick no mesmo terreiro

O senador Alan Rick chegou à Expoacre Juruá como pré-candidato ao governo e com o prefeito Zequinha Lima ao lado. Em política, a imagem às vezes fala antes do microfone.

Alan não foi à feira apenas para cumprimentar expositor. Foi ocupar espaço. E ocupar espaço no Juruá, em noite de abertura, diante de empresários, produtores, lideranças e visitantes de fora, é mandar recado para o Acre inteiro.

Zequinha mudou a temperatura

A presença de Zequinha Lima no campo de Alan Rick mexe com a conta do Palácio Rio Branco. O prefeito de Cruzeiro do Sul não é um apoio qualquer. Ele governa o principal município do Juruá e conhece como poucos o peso político de uma feira cheia.

Quando Zequinha sai de perto de Mailza e aparece ao lado de Alan, não é só uma troca de palanque. É um movimento que encoraja outros insatisfeitos a fazer a própria travessia.

A fila começou a andar

Rogério Wenceslau resumiu o momento com uma frase que ficou no ar: “A fila tá andando e tá andando rápido”.

A debandada do governo deixou de ser murmúrio de gabinete. Agora aparece em praça pública, em feira, em entrevista, em chegada de comitiva. O barco ainda navega, mas já tem passageiro olhando para a margem.

Falta conversa no Palácio

Wenceslau foi direto ao ponto ao falar em falta de sensibilidade e falta de articulação. Governo que perde ouvido político começa a perder antes no detalhe: uma liderança que não atende, um prefeito que se sente pequeno, uma promessa que fica sem resposta.

No Acre, ninguém rompe de repente. Primeiro avisa. Depois se cala. Quando aparece ao lado do adversário, a decisão já amadureceu faz tempo.

Donadoni fora da Casa Civil

A exoneração de Jonathan Donadoni da Casa Civil caiu no meio da semana como mais uma peça solta no tabuleiro. A Casa Civil é o lugar da costura. Quando quem costura sai, o rasgo aparece mais.

O governo tratou a mudança como decisão administrativa. Wenceslau devolveu a pergunta que incomoda: “Será que sabem a diferença entre decisão de governo e decisão de estado?”.

Decisão de governo cobra conta

Toda governadora pode trocar secretário. Isso faz parte do comando. O problema é o momento, o método e o efeito político da troca.

Quando a base já reclama, quando prefeitos se movem e quando aliados históricos começam a sair, uma exoneração na Casa Civil deixa de ser ato interno. Vira termômetro de crise.

Sula sai e o ramal sente

A saída de Sula Ximenes do Deracre pesa porque o órgão não vive apenas dentro do gabinete. O Deracre chega no ramal, na ponte, na estrada de barro, na operação verão e no produtor que espera a máquina antes da chuva voltar.

Sula pediu exoneração reclamando de compromissos não cumpridos e falta de condições para tocar o trabalho. Isso transforma uma troca administrativa em problema político com cheiro de barro molhado.

Deracre não é enfeite

No Juruá, o Deracre é uma das mãos mais visíveis do governo. Quando o ramal abre, a comunidade lembra. Quando fecha, lembra mais ainda.

Por isso a preocupação com a operação verão é séria. É agora que o serviço precisa andar. Depois que o inverno amazônico chega, a desculpa costuma vir junto com a lama.

Governo tenta conter a leitura

Mailza Assis negou crise e apresentou as mudanças como medidas de gestão. É a resposta esperada de quem está no comando e precisa segurar a imagem de normalidade.

Mas política não se controla apenas com declaração. A leitura se forma no conjunto: Donadoni fora, Sula fora, Zequinha distante, Alan crescendo no Juruá e aliados observando quem será o próximo a atravessar.

A feira como vitrine eleitoral

A Expoacre Juruá tem boi, negócio, show, comida, empreendedor e família andando pelo parque. Mas também tem pré-campanha em estado puro.

Cada aperto de mão vira sinal. Cada foto vira mensagem. Cada ausência vira comentário. Em noite de feira cheia, o político que circula bem sai maior. O que circula acuado sente o peso da multidão.

Trânsito cheio, sinalização falha

A Prefeitura montou transporte gratuito para o público, mas a chegada e a saída tiveram fila grande de veículos. Também houve reclamação sobre falta de sinalização em alguns pontos.

Evento desse tamanho não perdoa improviso. A multidão mostra sucesso, mas também testa a capacidade de organização da cidade.

Empreendedor quer vender

Os empreendedores chegaram à Expoacre Juruá com expectativa positiva. Para muita gente, a feira é a chance de vender em poucos dias o que às vezes demora mês inteiro para girar.

Enquanto político mede força, o pequeno comerciante mede caixa. É ele quem sente primeiro se a festa deu certo.

Segurança em alerta

A Polícia Militar e o Ciosp agiram rápido e apreenderam três motocicletas durante a movimentação da Expoacre. Em noite de público grande, segurança boa é aquela que aparece antes do problema crescer.

A feira movimenta dinheiro, gente e trânsito. Também exige presença firme do Estado.

Até a seleção entrou no clima

No fim do programa, a Copa do Mundo apareceu com torcedor esperançoso, mas sem tanta fé no Brasil.

A frase combina com o momento político do Acre. Tem gente torcendo pelo governo, mas já sem a mesma confiança no jogo.

A cena do dia

A primeira noite da Expoacre Juruá teve música alta, parque cheio e palanque disputado. Mailza abriu oficialmente a feira, mas Alan Rick e Zequinha Lima roubaram parte da cena política.

No Juruá, a festa começou com multidão. A crise, também.

Jornal da Manhã em Colunas – 29 de junho de 2026

Bocalom aposta na produção

Tião Bocalom colocou a produção rural no centro do discurso de pré-campanha ao governo do Acre. Ex-prefeito de Acrelândia por três mandatos e ex-prefeito de Rio Branco por dois, ele voltou a defender o lema “produzir para empregar” e usou a experiência de Acrelândia como vitrine, com café, leite e banana puxando a economia local.

Crítica à florestania

Bocalom também retomou críticas ao modelo político da chamada florestania. A avaliação dele é que o debate ambiental deixou em segundo plano o morador da Amazônia. O discurso reforça a tentativa de ocupar o espaço de candidato ligado à produção, ao emprego e à renda.

Acre dependente de Rondônia

Um dos pontos mais fortes da entrevista foi a crítica à dependência econômica do Acre em relação a Rondônia. Bocalom afirmou que o estado compra de fora produtos básicos como arroz, feijão, milho e leite, enquanto só mantém autossuficiência na carne. A fala deve aparecer com frequência na campanha.

Ouvidoria nos municípios

A pré-campanha de Bocalom tem sido marcada por visitas ao interior. Ele apresenta essas agendas como uma espécie de ouvidoria, com conversas diretas com moradores e levantamento de demandas locais. A estratégia mira especialmente o eleitor dos municípios, onde a pauta da produção costuma ter peso eleitoral.

Kelen no estúdio

A presença de Kelen Rejane Nunes Bocalom, esposa de Tião Bocalom, também foi registrada durante a entrevista. O pré-candidato aproveitou o momento para falar da vida pessoal e reforçar uma imagem mais próxima do eleitor.

Mailza perde sustentação

A governadora Mailza Assis enfrenta um momento de desgaste na articulação para 2026. A avaliação política apresentada no Jornal da Manhã é que a candidatura à reeleição perdeu força depois da saída de Gladson Cameli do governo e da reorganização dos aliados em torno de outros projetos.

Zequinha com Alan Rick

O prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima, aparece no centro da movimentação no Juruá. A expectativa é de apoio a Alan Rick, movimento que amplia o isolamento de Mailza Assis e fortalece o projeto do senador na disputa pelo governo.

Alan Rick ganha terreno

Alan Rick passou a ser o principal beneficiário da debandada na base governista. Com o Republicanos organizado em torno de sua pré-candidatura, o senador tenta consolidar apoios no interior e atrair partidos que antes orbitavam o Palácio Rio Branco.

MDB em rota de saída

O MDB também aparece como peça importante nesse rearranjo. A eventual saída do partido da base de Mailza Assis teria impacto direto na composição eleitoral, principalmente pelo peso da legenda em Cruzeiro do Sul e pela influência de Vagner Sales no Juruá.

Márcio Bittar no cálculo

O senador Márcio Bittar também entra na conta das alianças. O PL tende a pesar na formação do bloco de direita e pode ser decisivo na definição do palanque mais competitivo contra Mailza Assis.

Plano de emergência

Com a perda de aliados, interlocutores do governo já discutem alternativas para evitar isolamento maior. Uma das hipóteses comentadas é abrir mão da candidatura própria e tentar indicar o vice em uma chapa mais forte. A avaliação, no entanto, é que o movimento seria difícil e revelaria o grau de pressão sobre o grupo governista.

Café ganha força no Juruá

A sessão solene do Dia do Café, realizada no Teatro dos Nauas, em Cruzeiro do Sul, reforçou o peso da produção cafeeira na região. Vinte pioneiros foram homenageados, em uma pauta que mistura economia, agricultura familiar e política.

Luiz Gonzaga conduz homenagem

A solenidade foi presidida pelo deputado estadual Luiz Gonzaga. O presidente da Assembleia Legislativa, Nicolau Júnior, estava fora do estado. O ato colocou o café como uma das apostas econômicas mais fortes do Juruá.

Expoacre Juruá aquece bastidores

A véspera da Expoacre Juruá 2026 movimenta Cruzeiro do Sul e também os bastidores da política. A feira começa em 30 de junho e deve reunir público, produtores, empresários e lideranças políticas em um ambiente favorável a conversas eleitorais.

Apoio de Ciro Nogueira expõe crise de Mailza e cola pré-candidatura a desgaste judicial no Acre

“Mailza é a prioridade número 1 do nosso partido no Brasil. Sua eleição é muito importante, fundamental, e nós estaremos aí até o fim.” A frase de Ciro Nogueira, que circulou nesta segunda-feira, 29 de junho, tentou estancar a crise aberta em torno da candidatura de Mailza Assis ao governo do Acre em 2026. Mas o efeito político foi outro. No momento em que a pré-campanha da governadora enfrenta ruídos internos, especulações sobre resistências na federação e indefinições de aliados, o gesto mais enfático de apoio veio justamente do presidente nacional do PP, hoje atingido pelo escândalo do Banco Master.

Ciro foi alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal em maio, no inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. Segundo decisão do ministro André Mendonça citada pela Reuters, a investigação aponta que o senador teria atuado em favor do banqueiro Daniel Vorcaro “em troca de vantagens econômicas indevidas”. A defesa nega irregularidades e diz que ele está à disposição para prestar esclarecimentos. O dado pesa porque transforma um apoio partidário em passivo político: em vez de blindar Mailza, o áudio a liga nacionalmente a um dirigente sob investigação.

No Acre, o apoio de Ciro apareceu no pior momento para a governadora. O MDB virou peça central da disputa e ainda não definiu se ficará com Mailza ou se abrirá caminho para outro arranjo. Nos bastidores, dirigentes conversam com os dois lados, preservando margem de negociação e ampliando o poder de barganha do partido. Ao mesmo tempo, Alan Rick se consolidou como principal adversário, liderando a corrida ao Palácio Rio Branco. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 18 de junho mostrou o senador com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 26% de Mailza, embora a atual governadora tenha 67% de aprovação administrativa.

A reação do entorno de Mailza foi de trincheira. Luiz Calixto reafirmou a pré-candidatura da governadora como inegociável e fez cobrança pública aos “oportunistas”, sinal de que a turbulência deixou de ser apenas boato de bastidor e passou a ser enfrentada abertamente pelo núcleo político do governo. Quando um projeto precisa ser defendido a esse ponto por seus articuladores, a crise já não está mais do lado de fora.

Mailza tenta vender a própria imagem como continuidade administrativa e política, mas esse discurso cobra um preço cada vez mais alto. Ela é a continuidade de Gladson Cameli, condenado em 6 de maio pela Corte Especial do STJ a 25 anos e 9 meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa negou as acusações e alegou nulidade de provas, mas a condenação colocou o antigo comando do grupo sob o maior desgaste judicial de sua trajetória recente.

É isso que torna a situação de Mailza mais delicada. De um lado, o apoio mais ruidoso vem de Ciro Nogueira, investigado no caso Banco Master. De outro, o discurso de continuidade a amarra ao legado de Gladson, já condenado pelo STJ. No meio desse aperto, a governadora ainda precisa segurar a base, impedir novas deserções e provar que sua candidatura consegue andar com força própria. Hoje, porém, o que mais salta aos olhos é o oposto: uma pré-campanha encurralada, obrigada a se sustentar entre o barulho dos aliados e o peso do desgaste que eles carregam.

Após Mailza assumir, diárias do governo passam de R$ 10,9 milhões em menos de três meses

Depois que Mailza Assis assumiu definitivamente o Governo do Acre, em 2 de abril, os gastos com diárias entraram em ritmo mais acelerado. Levantamento do IntegraçãoNet no Portal da Transparência mostra que, entre 2 de abril e 26 de junho, já sob a nova governadora, foram pagos R$ 10.909.441,48 em diárias, distribuídos em 6.889 registros.

O valor representa 57,7% de tudo o que aparece na planilha do semestre. Ao todo, de janeiro a junho, a base analisada reúne 11.614 pagamentos, somando R$ 18.898.942,98.

A comparação com o período anterior ajuda a dimensionar a mudança. De janeiro a março, ainda sob Gladson Cameli, os pagamentos somaram R$ 7.420.752,05, em 4.522 registros. Depois da posse de Mailza, em menos de três meses, o governo pagou R$ 3,48 milhões a mais em diárias do que nos três primeiros meses do ano. Na prática, o governo passou a gastar mais porque ampliou a quantidade de deslocamentos custeados com recursos públicos.

A nova apuração amplia uma pauta que o IntegraçãoNet já havia trazido à tona na semana passada, quando revelou os gastos da comitiva de Mailza em Londres. Naquela viagem, divulgada pelo governo como missão internacional para tratar de créditos de carbono, foram localizados R$ 192.004,21 em diárias internacionais para 12 integrantes da comitiva, incluindo Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora.

No caso de Madson, a planilha mostra 21 pagamentos em seu nome entre abril e junho, considerando os registros como Madson Cordeiro de Castro e Madson de Castro Cameli. O total pago a ele no período foi de R$ 38.869,35. Só a diária de Londres aparece no valor de R$ 14.776,85.

A base não mostra pagamento direto de diária em nome de Mailza Assis. O deslocamento da governadora aparece de forma indireta, nas descrições das diárias pagas a outras pessoas. Ao longo do semestre, há 535 registros que mencionam agendas, viagens ou assessoramento à governadora ou vice-governadora, somando R$ 826.471,63. Depois de 2 de abril, já como chefe do Executivo, são 377 registros vinculados a agendas de Mailza, com R$ 524.501,76 pagos a terceiros.

Embora não haja pagamentos diretos de diárias em nome de Mailza Assis, o levantamento permite identificar ao menos 25 agendas ou viagens da governadora, após sua posse, que geraram pagamentos a equipes de apoio, segurança, comunicação e assessoria.

Esse dado não significa que Mailza tenha recebido diárias. Significa que a estrutura de deslocamento em torno da governadora movimentou centenas de pagamentos no semestre, envolvendo segurança, comunicação, assessoria, gabinete e outros setores.

Há ainda outro ponto que segue sem explicação suficiente na gestão anterior. Durante o governo Gladson, o IntegraçãoNet já havia levantado gastos do governo com jato, em contrato com a Ortiz, que superam R$ 12 milhões. Agora, com Mailza no comando, o foco recai sobre outro tipo de despesa: as diárias, que passaram a consumir mais de R$ 10,9 milhões em menos de três meses.

Entre os órgãos com maiores pagamentos após a posse de Mailza estão o Fundo Estadual de Segurança Pública, com R$ 968.614,13; a Secretaria de Justiça e Segurança Pública, com R$ 894.125,97; o Ministério Público, com R$ 852.579,85; o Fundo Estadual de Saúde, com R$ 851.526,18; e o Fundo Especial do Corpo de Bombeiros, com R$ 466.710,29.

O recorte por função também reforça a concentração na segurança. Depois da posse de Mailza, a função Segurança Pública somou R$ 3.617.130,11 em diárias. Em seguida aparecem Essencial à Justiça, com R$ 1.202.742,60; Administração, com R$ 968.333,65; Saúde, com R$ 915.375,65; e Agricultura, com R$ 841.864,42.

Junho chama atenção porque ainda não estava fechado na data final da planilha. Mesmo com registros até 26 de junho, o mês já acumulava R$ 3.805.558,22 em diárias, praticamente no mesmo patamar de maio, que fechou com R$ 3.951.941,16. O ritmo de junho foi o maior do semestre: cerca de R$ 146,3 mil por dia, considerando os 26 dias registrados.

Leia também: Bonde de Londres: diárias da comitiva de Mailza somam R$ 192 mil em viagem que ainda não apresentou resultado concreto

Bonde de Londres: diárias da comitiva de Mailza somam R$ 192 mil em viagem que ainda não apresentou resultado concreto

A viagem da governadora Mailza Assis a Londres, divulgada como missão internacional para tratar de créditos de carbono, teve R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 integrantes da comitiva. A agenda ocorreu durante a Semana do Clima de Londres, mas ainda não há contrato publicado, valor fechado, cronograma de repasse ou documento que mostre o resultado prático da negociação para o Acre.

O maior valor foi pago a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA: R$ 28.813,04. Em seguida aparece Victor Hugo Rondon Soto, apresentado como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado, com R$ 25.593,12 em diárias.

A lista também inclui Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, da Casa Civil, cada uma com R$ 14.776,85. O mesmo valor foi pago a Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora, que integrou a missão como assessor na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal.

A comitiva ainda teve integrantes da área jurídica, segurança e comunicação. Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, recebeu R$ 14.013,63. Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, receberam R$ 14.241,60 cada um. Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, recebeu R$ 12.796,56. Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, recebeu R$ 11.882,52, e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, R$ 11.849,99.

Na prática, o “Bonde de Londres” levou representação institucional, assessoria, segurança, comunicação, foto, vídeo e equipe técnica para uma negociação que, até agora, segue sem resultado público concreto. Enquanto o dinheiro dos créditos de carbono permanece no campo da promessa, as diárias da viagem já aparecem como despesa efetiva para o Estado.

Mailza em Londres: uma reunião que poderia ter sido um e-mail

Governadora vai ao centro financeiro europeu tratar de créditos de carbono, mas negociação segue sem resultado concreto apresentado ao Acre

A governadora Mailza Assis atravessou o Atlântico com uma comitiva oficial para cumprir agenda em Londres, durante a Semana do Clima, em torno de uma das pautas mais sensíveis e milionárias do governo do Acre: a venda de créditos de carbono. A viagem foi apresentada como missão estratégica para atrair investimentos, fortalecer parcerias e transformar a floresta em pé em benefícios para a população. Mas, depois das fotos, vídeos, discursos e reuniões no centro financeiro europeu, o Acre segue diante da pergunta principal: o que foi efetivamente firmado?

As próprias falas públicas da agenda mostram que o negócio continua aberto. Ao lado de Marisa Drew, alta executiva global de sustentabilidade do Standard Chartered Bank, Mailza disse estar no centro econômico de Londres, mas com o coração voltado para a população acreana. Falou em reverter a preservação da floresta em benefícios para ribeirinhos, povos indígenas, produtores rurais e moradores que mais precisam. Em seguida, definiu o estágio real da agenda ao afirmar que estava ao lado de uma representante de “um banco que estamos negociando os créditos de carbono”.

A frase desmonta o tom de conquista. Se o governo ainda negocia, não há acordo concluído. Marisa Drew reforçou essa leitura ao dizer que o banco e o governo conversam “há alguns meses” sobre como criar um mecanismo financeiro para ampliar os recursos e fazer o dinheiro chegar às pessoas locais. Quando o mecanismo ainda está sendo criado, continuam sem resposta pública o valor fechado, o contrato final, o cronograma de repasse, a governança, a fiscalização, as comunidades beneficiadas e a forma concreta de aplicação do dinheiro.

Na prática, a agenda vendida como compromisso internacional em favor do povo acreano parece ter sido mais uma rodada de tratativas. Uma reunião que, pelo que foi apresentado até agora, poderia ter ocorrido por videoconferência, troca técnica entre equipes ou e-mail institucional.

Não se trata de negar a importância da pauta ambiental. O Acre tem floresta, experiência acumulada em políticas de serviços ambientais, histórico no REDD+ jurisdicional, construído no governo da Frente Popular, e potencial real para disputar recursos internacionais. A questão é outra. Quando uma comitiva oficial viaja a Londres com dinheiro público, segurança, comunicação, assessoria e representação institucional, o mínimo esperado é que o governo volte com algo mais concreto do que uma promessa de futuro, do que um aperto de mãos.

A viagem também precisa ser lida pelo custo público e pelos nomes que compuseram a missão. Levantamento no Portal da Transparência do Acre localizou R$ 192.004,21 pagos em diárias internacionais a 12 beneficiários da agenda oficial em Londres, incluindo Victor Hugo Rondon Soto, apresentado pelo governo como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado.

O maior pagamento foi destinado a Lauro da Veiga Santos, presidente da Companhia de Desenvolvimento e Serviços Ambientais do Acre, a CDSA, que recebeu R$ 28.813,04. Victor Hugo Rondon Soto aparece em seguida, com R$ 25.593,12. Também receberam diárias Elane Cristina da Costa Cabral e Juliana de Oliveira Moreira, ambas da Casa Civil, com R$ 14.776,85 cada uma, e Madson de Castro Cameli, chefe de gabinete e marido da governadora Mailza Assis, que recebeu R$ 14.776,85 para assessorá-la na agenda institucional do Consórcio Amazônia Legal durante a Semana do Clima de Londres.

O pagamento a Madson carrega peso político próprio. Ele não aparece apenas como servidor em uma agenda técnica. É o marido da governadora, chefe de gabinete, acompanhando Mailza em uma viagem internacional cujo resultado concreto ainda não foi apresentado ao público. Em uma missão tratada pelo governo como estratégica para o futuro climático e financeiro do Acre, a presença dele amplia a obrigação de transparência sobre quem foi, por que foi, quanto recebeu e qual função efetiva desempenhou.

A presença de Victor Hugo Rondon Soto exige atenção ainda maior. A Agência de Notícias do Acre o apresentou na comitiva como gerente-geral do Projeto de Crédito de Carbono do Estado. Ao mesmo tempo, Victor é sócio-administrador da VR Consultoria Empresarial LTDA, empresa que recebeu R$ 3.256.745,01 do governo do Acre entre 2023 e 2026, em contratos associados à CDSA e ligados justamente à pauta de captação de recursos, mercado financeiro, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating internacional, relações corporativas e atuação junto a atores nacionais e internacionais.

A comitiva também incluiu Janete Melo de Albuquerque Lima, da Procuradoria-Geral do Estado, com R$ 14.013,63; Aldeir Araujo da Costa, Jeffersson Pereira da Silva e Theanne Louise Gonçalves Souza Medeiros, da Casa Militar, cada um com R$ 14.241,60; Jefson Marques Dourado, da Secretaria de Comunicação, com R$ 12.796,56; Francisco Lucena da Costa Neto, fotógrafo, com R$ 11.882,52; e Joscinei Gomes Bastos, videomaker, com R$ 11.849,99. A missão teve representação institucional, segurança, comunicação, assessoria jurídica, comando da CDSA e presença direta da área do crédito de carbono. Houve equipe para produzir notícia, foto, vídeo e redes sociais. O que ainda não houve foi contrato publicado, valor garantido, cronograma de repasse ou instrumento formal capaz de mostrar o que foi fechado em Londres.

Relatório de despesas por fornecedor mostra que os pagamentos à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, foram registrados como prestação de serviços de consultoria. Os objetos associados aos empenhos conversam diretamente com a vitrine montada em Londres: captação de recursos, mercado financeiro, bancos de investimento, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, rating financeiro internacional, relações corporativas e atuação junto a atores públicos e privados no Brasil e no exterior.

O ano de 2025 concentrou a maior parte dos pagamentos, com mais de R$ 2,5 milhões. Entre as despesas aparecem serviços voltados à obtenção de rating financeiro internacional do programa de créditos de carbono jurisdicionais do Acre e à avaliação de integridade do Programa Jurisdicional de REDD+ ISA Carbono para habilitação em negociações de mercado financeiro. Por isso, a cobrança não se resume ao que Mailza foi buscar em Londres. A questão é o que o Acre já recebeu depois de pagar consultorias milionárias para estruturar justamente essa pauta de carbono, mercado internacional e captação de recursos.

Mudando o rumo, depois de anos de nada resolvido

O governo apresenta a missão como abertura de uma nova fronteira para o desenvolvimento sustentável. A trajetória recente, porém, é mais complexa do que a comunicação oficial deixa transparecer. Antes do Standard Chartered assumir o centro da negociação, o Acre caminhava pela rota da Coalizão LEAF/Emergent, iniciativa internacional voltada à certificação e comercialização de créditos de carbono florestal jurisdicional. No fim de 2023, o Estado chegou a assinar carta de intenções nesse caminho, apresentado como alternativa com regras rígidas de governança, integridade ambiental e repartição de benefícios.

Depois, a estratégia mudou. A negociação passou a ser conduzida com o banco britânico Standard Chartered, em modelo mais ligado ao mercado financeiro internacional. O banco anunciou acordo para vender créditos de carbono florestal do Acre ao longo de cinco anos, com possibilidade de levar milhões de créditos ao mercado a partir de 2026. O discurso oficial fala em floresta em pé, integridade, comunidades locais e destinação de 72% dos recursos líquidos aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

No papel, a promessa é poderosa. Na vida real, ela depende de respostas que ainda não chegaram ao público: quanto será vendido, a que preço, para quem, quando o dinheiro entrará, quanto ficará com intermediários, quem fiscalizará a conta, quem decidirá a aplicação dos recursos e como as comunidades terão controle sobre aquilo que o governo negocia em nome delas.

Essas perguntas estão no centro da crise de confiança instalada em torno da política de carbono do Acre. Organizações da sociedade civil e representantes da governança do Sisa passaram a questionar a forma como a CDSA conduziu as negociações. A Comissão Estadual de Validação e Acompanhamento, a Câmara Temática Indígena e a Câmara Temática das Mulheres são espaços que deveriam acompanhar decisões dessa magnitude. As críticas apontam falta de transparência e diálogo insuficiente com esses instrumentos de controle social.

A reportagem do Varadouro, publicada com o título “Vende-se carbono”, colocou a mudança da rota LEAF para o Standard Chartered no centro do atrito entre a CDSA e a sociedade civil. Lideranças relataram que a governança soube das tratativas pela imprensa oficial e que o argumento do sigilo comercial passou a impedir o acesso a informações sobre uma política pública construída historicamente com participação social.

Depois, organizações entregaram carta ao governador Gladson Cameli pedindo mudanças na CDSA e no Sisa. A cobrança era por transparência, revisão da condução política e fortalecimento dos espaços de participação. 

Outras vozes, a mesma pergunta

A Comissão Pró-Indígenas do Acre também levou a crise para dentro da história do próprio Sisa. Em artigo publicado em 20 de abril de 2026, Simen Kokkvoll e Aldalúcia F. Carvalho reconhecem que o sistema criado pela Lei Estadual nº 2.308, de 2010, fez o Acre virar referência em serviços ambientais e REDD+ jurisdicional, especialmente com o Programa REM, que arrecadou mais de US$ 50 milhões em 15 anos por meio do ISA Carbono. Mas os autores apontam que os pilares que deram força ao modelo — transparência, participação social e controle — passaram a ser justamente seus pontos mais frágeis.

O texto mostra que a revisão da Estratégia de Repartição de Benefícios, em 2025, ampliou a fatia dos povos indígenas de 12% para 22% e definiu 26% para territórios extrativistas, 24% para produtores e agricultores familiares e 28% para o Estado. A crítica, porém, é que percentual não basta. Sem critérios claros, acompanhamento público, relatórios atualizados e funcionamento real da CEVA e das câmaras temáticas, a repartição de benefícios vira promessa sem controle social.

A parte mais sensível para a agenda de Londres está na atuação da CDSA. Segundo Kokkvoll e Aldalúcia, a partir de 2025 a companhia passou a conduzir negociações internacionais de créditos de carbono sem comunicação prévia à governança do Sisa. As tratativas com o Standard Chartered e o rompimento com a LEAF/Emergent aparecem como marco de uma crise institucional marcada por falta de transparência e pelo uso do argumento de “sigilo comercial”.

É essa crítica que torna a viagem de Mailza mais delicada. O Acre não discute apenas vender ou não vender carbono. Discute quem decide, com quais documentos, sob qual controle público e com que participação dos povos indígenas, extrativistas, agricultores familiares e sociedade civil. O governo fala em transformar floresta em benefício. A CPI-Acre recoloca a pergunta que vem antes de qualquer contrato: quem autorizou a negociação e como a confiança será reconstruída dentro da governança que sustentou o Sisa por mais de uma década?

Também pesa a consulta aos povos indígenas e comunidades tradicionais. O Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Acre recomendaram que o governo garanta consulta livre, prévia e informada antes da inclusão de territórios indígenas e tradicionais no Programa ISA Carbono. A recomendação afirma que as comunidades devem ter o direito de decidir se querem ou não participar do programa e, se desejarem, desenvolver seus próprios projetos de crédito de carbono.

Esse ponto é decisivo. Não basta o governo fazer reuniões regionais sobre repartição de benefícios e depois apresentar isso como autorização ampla para negociar créditos de carbono em nome de territórios e modos de vida de povos tradicionais. Consulta sobre divisão futura de recursos não é a mesma coisa que consentimento sobre a comercialização dos créditos. Uma coisa é discutir percentuais. Outra é decidir se o território, a floresta, a permanência das comunidades e seus modos de vida podem servir de base para uma operação financeira internacional.

É aí que a agenda de Londres fica mais frágil. Mailza diz que está negociando para garantir que o dinheiro chegue à população. Marisa Drew diz que o banco conversa há meses sobre como criar o mecanismo financeiro. O governo fala em compromisso. O banco fala em modelo. A Agência fala em parceria firmada. Mas, no centro da floresta, continuam sem resposta pública as perguntas essenciais: quem autorizou, quem foi consultado, onde estão as atas, qual é o contrato, qual é o valor, qual é o prazo e qual é a garantia de que o dinheiro chegará aos ribeirinhos, indígenas, extrativistas e produtores familiares citados nos discursos oficiais.

A contradição está diante do Acre. O governo usa a imagem dos povos da floresta para valorizar a negociação em Londres, enquanto parte das instâncias de representação e controle social questiona a forma como a negociação foi conduzida. O discurso fala em dignidade, futuro e prosperidade. As cobranças falam em consulta, transparência e governança.

No fim, a ida a Londres parece menos uma entrega e mais uma tentativa de revestir de solenidade uma negociação que continua aberta. A Agência de Notícias do Acre anunciou a missão como oportunidade para posicionar o Estado no centro das discussões internacionais sobre mecanismos financeiros, mercado de carbono e captação de recursos. Depois, publicou que Mailza e a executiva do banco “firmaram compromisso em favor do povo acreano”. Mas o conteúdo das falas aponta para outro cenário: o mecanismo financeiro ainda está sendo desenhado, o recurso ainda não está garantido e o caminho de chegada do dinheiro às comunidades ainda precisa ser comprovado.

Se houve contrato, que seja publicado. Se houve valor, que seja informado. Se houve cronograma, que seja apresentado. Se houve compromisso jurídico, que seja disponibilizado. Se houve consulta aos povos afetados, que sejam divulgadas as atas, os protocolos, os registros e as respostas dadas às recomendações do MPF, do MPAC e das organizações da sociedade civil.

Enquanto o dinheiro do carbono segue no campo da promessa, os custos da agenda já são concretos. Diárias foram pagas. Consultorias foram pagas. A comunicação oficial foi mobilizada. A comitiva viajou. E o povo acreano continua sem saber quanto virá, quando virá, por qual contrato virá e como o recurso chegará, de fato, às comunidades citadas nos discursos.

O governo pode dizer que a negociação é complexa. E é. Mercado de carbono jurisdicional, ART/TREES, repartição de benefícios, consulta prévia, governança do Sisa, rating internacional e venda por banco global não são temas simples. Justamente por isso, exigem mais transparência, não menos. Exigem mais controle social, não menos. Exigem mais cuidado com os povos da floresta, não apenas o uso de suas imagens e nomes nos discursos oficiais.

A reunião em Londres poderia ter sido um e-mail porque, até agora, trouxe a público essencialmente uma atualização de tratativas: o governo negocia, o banco conversa, o mecanismo financeiro está sendo construído e a promessa é fazer o dinheiro chegar. Mas isso o Acre já sabia. O que o Acre ainda não sabe é o principal: o que foi realmente fechado, quanto isso vale e quando a população verá algum resultado concreto.

Bocalom rejeita ser vice e mantém candidatura ao governo do Acre

O ex-prefeito de Rio Branco Tião Bocalom voltou a negar, nesta quarta-feira (24), qualquer possibilidade de compor como vice em uma chapa governista e manteve a candidatura ao governo do Acre nas eleições deste ano. Filiado ao PSDB, ele disse que deixou a Prefeitura de Rio Branco para disputar o Palácio Rio Branco e não para ocupar posição secundária em uma aliança com a governadora Mailza Assis, do PP.

“Alguém acha que eu deixei a prefeitura para ser vice de alguém? Quem espalha esse tipo de boato quer me tirar da frente, porque sabe que ganharei o governo. Ninguém tem nem a coragem de vir com essa conversa comigo”, afirmou Bocalom.

A declaração ocorre em meio às articulações para a sucessão estadual, num cenário em que partidos da base governista discutem alianças, composição de chapa e espaços nas disputas para o Senado, Assembleia Legislativa e Câmara Federal. Bocalom tenta se firmar como alternativa fora da chapa de Mailza e aposta no legado de sua passagem pela Prefeitura de Rio Branco para sustentar a campanha.

O ex-prefeito disse que seu grupo começou a distribuir à população um jornal com realizações de sua gestão municipal. Segundo ele, a receptividade nas ruas mostra que há espaço para crescimento eleitoral. “Meu pessoal está distribuindo um jornal com as minhas realizações como prefeito, e noventa por cento dos que são abordados para receber o material, recebe e ainda me elogia. O povo quer o Bocalom no governo”, afirmou.

Bocalom também pretende usar como bandeira de campanha o argumento de que não responde a processos por mau uso de recursos públicos nas gestões em Acrelândia e Rio Branco. Mesmo aparecendo atrás de adversários em pesquisas recentes, ele minimizou os levantamentos e disse confiar no desempenho nas urnas.

“São pesquisas feitas para agradar. Quando foi que uma pesquisa me colocou na liderança? Sempre me colocaram como sem chance de ser eleito, e quando as urnas são abertas o Bocalom é que ganha. Foi assim nas duas últimas eleições para a prefeitura da capital”, disse.

A posição de Bocalom reduz, no momento, a possibilidade de uma composição com a chapa governista e mantém a disputa pelo governo aberta entre os principais nomes colocados no tabuleiro eleitoral acreano.

“Medo de morrer”, relata ex-esposa de Madson Cameli; vítima de agressão cobra Justiça 

Melissa Sampaio contou, em entrevista exclusiva ao Grupo Integração, detalhes da violência que afirma ter sofrido durante o relacionamento com Madson de Castro Cameli, seu ex-marido, denunciado pelo Ministério Público do Acre por lesão corporal e violência psicológica. A fala veio depois que vídeos atribuídos ao caso passaram a circular em grupos de mensagens e nas redes sociais. Melissa não entregou os vídeos à reportagem. Ela foi procurada para falar sobre o conteúdo que já circulava e, ao responder, abriu uma parte dura da própria história: a lembrança de agressões, o medo de morrer, a sensação de viver sob intimidação e a angústia de ver o processo caminhar lentamente enquanto o homem que ela acusa segue ocupando espaços de poder.

“É muito difícil para mim revisitar essas lembranças”, disse Melissa. Ela afirmou que as agressões não eram apenas verbais. “Existiam agressões físicas, psicológicas. Viver com Madson Cameli era viver pisando em ovos. Eu nunca sabia qual seria a reação dele diante de uma situação simples do dia a dia e estava sempre tentando evitar conflitos para salvar um casamento na expectativa de uma mudança que nunca acontecia.”

“Viver pisando em ovos”

Melissa contou que falar sobre o assunto ainda exige esforço. “É muito difícil para mim revisitar essas lembranças”, afirmou. Segundo ela, as agressões não eram apenas verbais. “Existiam agressões físicas, psicológicas. Viver com Madson Cameli era viver pisando em ovos. Eu nunca sabia qual seria a reação dele diante de uma situação simples do dia a dia e estava sempre tentando evitar conflitos para salvar um casamento na expectativa de uma mudança que nunca acontecia.”

A frase descreve uma rotina de medo antes mesmo da agressão. É a mulher medindo cada palavra, cada gesto e cada silêncio para tentar evitar uma explosão. É a casa deixando de ser abrigo e virando território de vigilância. Melissa afirma que passou anos tentando preservar um casamento enquanto esperava uma mudança que não veio.

O medo do mata-leão

O relato mais grave aparece quando Melissa fala sobre o jiu-jitsu. Ela afirma que Madson era lutador e usava isso para intimidá-la. “Houve episódios em que me aplicou golpes de mata-leão e me imobilizou. A sensação que eu tinha quando ele fazia isso era uma sensação desesperadora de morte. Era algo tão absurdo, tão assustador, que eu não consigo nem explicar direito o que passava pela minha cabeça naquele momento. Eu só sentia pavor, pois achava que ia morrer.”

Melissa disse que o medo daquele golpe passou a ser maior do que a dor física. “Chegou um momento em que eu pedia a ele que, se fosse me bater, podia fazer qualquer coisa, mas que não me aplicasse o mata-leão. Aquilo me apavorava mais do que qualquer outra agressão. Eu preferia suportar a dor física do que sentir novamente aquela sensação de que estava morrendo.”

O episódio do celular

Melissa também relatou o episódio envolvendo um vídeo que, segundo ela, acabou vindo a público depois de sair do processo. Ela afirma que, após uma briga em que teria sido agredida, decidiu gravar Madson admitindo que havia batido nela. “Quando descobriu, ele tomou meu celular, me bateu tanto e ainda aplicou um mata-leão. Eu fiquei desesperada porque ele disse que ia arremessar meu celular na parede, como fez com tantos outros celulares. Eu implorei para que ele não quebrasse o celular.”

Na mesma sequência, Melissa afirma que Madson exigiu que ela pedisse perdão. “Ele disse que eu teria que pedir perdão a ele. O Madson pediu para eu ficar de joelhos no chão e implorar o perdão dele, mesmo sendo eu a vítima de toda aquela situação. Foi uma das maiores humilhações que vivi.” Ela contou que os vídeos foram apagados, mas não retirados da lixeira do celular. “Foi como eu recuperei e enviei para o meu e-mail.”

A dor não é saudade

Melissa fez questão de separar a dor que sente hoje de qualquer vínculo afetivo com Madson. Ela não quer que sua fala seja confundida com sofrimento pelo fim do relacionamento. A angústia, segundo ela, nasce do que afirma ter sofrido e da sensação de impunidade.

“O que eu sofro hoje é pelo mal que ele me fez e pela impunidade. Por estar sendo injustiçada. Isso me deixa chateada. A morosidade da Justiça”, afirmou.

Esse ponto muda o centro da história. Melissa não fala como alguém presa à ausência do ex-marido. Fala como uma mulher que diz ter se libertado de uma relação violenta, mas que ainda se vê obrigada a conviver com as marcas do que viveu porque o processo não chega a uma resposta.

O processo que parece nunca andar

“O mais difícil é que, anos depois, por conta de um processo que parece nunca andar, eu continuo tendo que reviver algo que já deveria ter sido apurado pela Justiça. Cada vez que preciso falar sobre isso, é como se eu voltasse um pouco para aqueles momentos”, disse Melissa.

A frase resume o peso da morosidade em casos de violência contra a mulher. A denúncia deveria abrir caminho para proteção e resposta. Mas, quando o processo anda devagar, a vítima continua presa ao fato. Precisa recontar, explicar, lembrar, responder, sustentar a própria palavra e enfrentar a dúvida pública enquanto tenta reconstruir a vida.

A espera diante da ascensão pública

No caso de Melissa, a espera tem uma camada política. Enquanto ela cobra uma resposta da Justiça, Madson aparece em espaços públicos e passou a circular no núcleo do poder estadual, ao lado da governadora Mailza Assis, sua atual esposa. Para uma mulher que acusa o ex-marido de agressões, ver o homem denunciado sorrindo, ocupando espaço e ascendendo publicamente antes de uma decisão definitiva pode ferir de novo.

Melissa não pede condenação fora dos autos. Pede que sua dor não seja engolida pelo tempo. Justiça lenta, em casos de violência doméstica, pode virar uma nova forma de sofrimento porque mantém a mulher ligada ao trauma enquanto a vida do acusado segue em outra velocidade.

Denunciar não deveria virar uma batalha sem fim

Nos últimos dias, Melissa também cobrou publicamente que iniciativas de defesa das mulheres discutam a celeridade dos processos de violência doméstica e familiar. Para ela, proteger mulheres não se resume a campanhas, programas ou eventos. A proteção precisa chegar no processo que anda, na audiência que acontece, na decisão que vem antes da prescrição e no acolhimento de quem teve coragem de denunciar.

A história de Melissa toca em uma ferida conhecida por muitas mulheres. Antes da denúncia, existe medo. Depois da denúncia, muitas vezes vem a exposição. E, quando a Justiça demora, chega outra violência: a obrigação de continuar vivendo perto da própria dor, esperando que o Estado trate como urgência aquilo que já custou demais para ser contado.

O que Melissa pede agora é simples e profundo: ser ouvida sem ter que reviver tudo indefinidamente. Enquanto o processo contra Madson Cameli segue sem uma resposta definitiva, sua fala deixa uma cobrança direta às instituições. Uma mulher que denuncia violência não pode passar anos presa ao mesmo medo para provar que merece Justiça.

Mailza quer Zequinha no barco ou quer empurrar o prefeito para fora?

A cada novo movimento do Palácio Rio Branco no Juruá, uma pergunta ganha força nos bastidores da política acreana: o grupo da governadora Mailza Assis quer mesmo manter o apoio do prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima?

A dúvida não nasce do nada. Zequinha não é um aliado qualquer. É prefeito da segunda maior cidade do Acre, foi reeleito em uma disputa dura, pertence ao mesmo campo político de Gladson Cameli e Mailza Assis, esteve ao lado do grupo em momentos decisivos e sempre foi tratado como peça importante para qualquer projeto governista no Juruá.

Mas os gestos recentes do governo caminham em outra direção.

O incômodo de Zequinha já havia aparecido publicamente. Em abril, o prefeito disse que não tomaria decisões com base em boatos, mas admitiu insatisfação com atitudes do governo em relação a Cruzeiro do Sul. A frase foi direta: ele sempre quis ser aliado, mas parecia que algumas pessoas não queriam essa aliança.

Na mesma entrevista, Zequinha apontou um problema que agora fica ainda mais evidente: a tentativa de ampliar alianças não pode significar o isolamento de quem já é de casa. Em outras palavras, o prefeito cobrou respeito aos aliados históricos.

De lá para cá, o cenário não melhorou. Pelo contrário.

Nos últimos dias, a governadora Mailza nomeou quatro integrantes da família do ex-vereador Leandro Cândido dos Santos em cargos comissionados no governo estadual. Leandro Cândido, apontado na imprensa local como ligado ao grupo do ex-prefeito Vagner Sales e opositor de Zequinha em Cruzeiro do Sul, foi nomeado em cargo na estrutura do Estado. Outros três integrantes da família Cândido também foram nomeados na Secretaria de Educação.

A nomeação pode até ser defendida administrativamente pelo governo, mas politicamente tem leitura clara no Juruá: o Palácio está dando espaço e estrutura a um grupo adversário do prefeito dentro da própria cidade.

Para aliados de Zequinha, esse é o tipo de gesto que não combina com o discurso de manutenção da aliança. Se o governo quer o prefeito no barco, por que entrega espaço justamente a quem faz oposição a ele em Cruzeiro do Sul?

A situação fica ainda mais delicada porque não se trata de um episódio isolado.

O deputado federal Zezinho Barbary, aliado de Mailza e figura ativa nas agendas do governo, também passou a atacar publicamente Zequinha. Em evento oficial no Juruá, Zezinho criticou a ausência de representantes da Prefeitura de Cruzeiro do Sul em solenidade de entrega de máquinas. Zequinha respondeu no dia seguinte, defendendo diálogo, respeito institucional e afirmando que divergências políticas não deveriam ser levadas para eventos administrativos, principalmente com a presença da governadora.

Mailza, teoricamente a líder do grupo, estava no centro da cena política. Mas, até aqui, não houve sinal público de uma intervenção firme para conter o desgaste entre seus próprios aliados.

Esse silêncio também comunica.

A coluna Tricas&Futricas, do AC24h, trouxe nesta terça-feira mais lenha para a fogueira ao registrar o sentimento de aliados de Zequinha de que estariam sendo “jogados ao vento”. A nota fala em suspeita de abandono do prefeito pelo Palácio Rio Branco, cita a nomeação de adversários políticos em cargos-chave do Estado em Cruzeiro do Sul e aponta que, aparentemente, já não haveria mais interlocução efetiva com o prefeito.

O quadro, portanto, é mais amplo do que uma simples intriga local. Há uma sequência de sinais políticos: Zequinha reclama de isolamento; adversários do prefeito ganham espaço no Estado; Zezinho Barbary o confronta publicamente; o Palácio não demonstra força para pacificar a base; e as informações internas que chegam à redação indicam que muitos aliados já avaliam pular fora do barco de Mailza.

O problema para a governadora é que, na política, abandono também se mede por gesto. E os gestos do governo com Zequinha parecem cada vez menos de aproximação e cada vez mais de empurrão.

Se Mailza quer mesmo o apoio do prefeito de Cruzeiro do Sul, precisa responder a uma pergunta simples: por que seu governo age como se Zequinha fosse dispensável?

Porque, se o Palácio continuar tratando aliados históricos como peça secundária, não será surpresa se o barco de Mailza começar a perder passageiros justamente no Juruá, região onde ela mais precisa mostrar força.

Mailza busca crédito de carbono em Londres enquanto Acre paga R$ 3,2 milhões em consultoria dos próprios cofres

A governadora Mailza Assis chegou a Londres para apresentar o Acre como vitrine ambiental, buscar espaço no mercado internacional de crédito de carbono e reforçar a imagem de um Estado capaz de transformar floresta em pé em dinheiro novo. A agenda ocorre enquanto a Companhia Agência de Desenvolvimento de Serviços Ambientais S.A., a CDSA, já pagou R$ 3.256.745,01 à VR Consultoria Empresarial LTDA, entre 2023 e 2026, com recursos próprios do Tesouro Estadual, para serviços ligados à pauta ambiental, financeira e climática que agora sustenta o discurso acreano fora do país.

A empresa, inscrita no CNPJ 44.204.117/0001-62, aparece nos registros de pagamento da CDSA, estatal que atua na elaboração de projetos, na gestão de ativos ambientais e na captação de recursos no mercado de carbono. A própria companhia descreve a VR Consultoria, também apresentada como VR Carbon Partners, como empresa especializada em negócios e políticas de desenvolvimento, com experiência em captação de recursos, trânsito no mercado financeiro, bancos de investimento, capitais de risco e administração de fundos de investimento. 

O ponto que pesa politicamente é a origem do dinheiro. Os pagamentos localizados aparecem com a fonte 15000100, classificada como Recursos Próprios do Tesouro Estadual. Na prática, a conta não aparece vinculada a dinheiro internacional já captado com crédito de carbono, nem a repasses diretos do KfW, da Alemanha, do Reino Unido ou de algum fundo climático. É dinheiro do próprio Estado do Acre financiando a engrenagem que tenta vender ao mercado global a promessa de receita futura com carbono.

A maior parte dessa despesa se concentrou em 2025. Dos R$ 3,25 milhões identificados, R$ 2.534.924,05 foram pagos somente naquele ano, quando o governo intensificou a estratégia de certificação, negociação e apresentação internacional dos créditos de carbono jurisdicionais. Antes disso, a empresa havia recebido cerca de R$ 75,6 mil em 2023 e R$ 448,7 mil em 2024. Em 2026, já aparecem mais R$ 197,4 mil em pagamentos.

Os registros analisados trazem contratos e empenhos associados a consultorias para temas ambientais, Sisa, Programa ISA Carbono, REDD+, créditos de carbono jurisdicionais, mercado financeiro internacional e articulação com atores públicos e privados. Na apuração aparecem o Contrato nº 6/2025 e os Contratos nº 12/2023 e nº 12/2025, todos ligados à agenda climática e ambiental conduzida pela CDSA.

É nesse ponto que a viagem de Mailza a Londres deixa de ser apenas uma agenda institucional e passa a exigir prestação de contas. Se o Acre já pagou mais de R$ 3,2 milhões, com dinheiro dos próprios cofres, para estruturar a pauta do crédito de carbono, o governo precisa dizer o que recebeu em troca. Houve venda efetiva de créditos? Entrou dinheiro novo na conta do Estado? Alguma comunidade indígena, extrativista, ribeirinha ou agricultora familiar já recebeu recurso dessa política? Ou o Acre ainda paga caro para vender uma promessa que não se materializou?

A agenda londrina foi organizada para aproximar o Acre de empresas e bancos que operam no centro do mercado climático. Entre os compromissos divulgados estão reuniões com a Sylvera, empresa que avalia a qualidade de créditos de carbono, e com representantes do Standard Chartered Bank, instituição financeira global ligada a finanças sustentáveis, financiamento de transição e mobilização de capital climático. O governo trata a viagem como parte de uma diplomacia climática e financeira para ampliar a confiança internacional nos ativos ambientais acreanos.

A discussão sobre crédito de carbono precisa ser colocada no lugar certo. O Acre tem uma estrutura legal antiga, construída em torno do Sisa e do Programa ISA Carbono, e tenta converter reduções jurisdicionais de desmatamento em créditos certificados pelo padrão ART/TREES. Mas o Estado ainda não tem, pelas informações públicas disponíveis, crédito ART/TREES emitido, venda concluída, comprador final identificado, receita comprovada no caixa estadual ou repasse demonstrado às comunidades. O que existe é uma candidatura avançada à certificação e uma tentativa de entrada no mercado internacional.

O próprio ART informou, em 26 de março de 2026, que aceitou os documentos enviados pelo Acre para o período de crédito 2023-2027, junto com o relatório de monitoramento de 2023. Essa aceitação permite que o programa siga para validação e verificação independente. A emissão de créditos serializados depende de validação, verificação e aprovação posterior pelo conselho do ART. Portanto, aceitação documental não é certificação final nem dinheiro garantido. 

O acordo com o Standard Chartered também precisa ser lido com precisão. O banco britânico anunciou em agosto de 2025 um acordo exclusivo de cinco anos para vender créditos jurisdicionais do Acre, com expectativa de até 5 milhões de créditos em 2026 e potencial de até US$ 150 milhões. A Reuters registrou, porém, que o acordo não é venda antecipada e que não há compromisso de vender créditos agora. A diferença é decisiva: trata-se de uma estrutura de comercialização futura, não de receita já recebida pelo Estado.

Cada crédito de carbono costuma representar 1 tonelada de CO₂ equivalente. Então, quando o Standard Chartered fala em “potencialmente 5 milhões de créditos chegando ao mercado em 2026”, está falando de até 5 milhões de toneladas de CO₂ equivalente que poderiam ser convertidas em créditos jurisdicionais do Acre, se passarem por validação, verificação e emissão no padrão ART/TREES. O banco anunciou que atuará como vendedor exclusivo desses créditos por cinco anos.  

Essa fronteira entre expectativa e resultado é o centro da cobrança. O Acre se apresenta em Londres como liderança ambiental, mas ainda precisa mostrar a cadeia completa do negócio: crédito certificado, auditoria concluída, contrato assinado, comprador definido, valor recebido, repartição executada e benefício chegando aos territórios. Sem isso, a política de carbono fica mais forte no discurso internacional do que na vida concreta de quem mantém a floresta em pé.

A repartição de benefícios é outra zona sensível. O governo publicou o Decreto nº 11.732/2025 para ratificar a estratégia do Programa ISA Carbono, com 28% dos benefícios financeiros para o Estado e 72% para beneficiários do Sisa. Dentro desse percentual, a divisão anunciada reserva 22% para povos indígenas, 26% para comunidades extrativistas e 24% para agricultores familiares. O governo também afirma que a construção envolveu consultas nas cinco regionais do Acre, com participação de cerca de 1.800 pessoas.

A controvérsia não desaparece com a edição do decreto. Em abril de 2025, MPF e MPAC recomendaram que o governo do Acre e o Instituto de Mudanças Climáticas garantissem consulta livre, prévia e informada antes de incluir territórios indígenas e comunidades tradicionais no Programa ISA Carbono. Os órgãos cobraram que as comunidades tenham direito de decidir se querem participar e, caso queiram, desenvolver seus próprios projetos. Também defenderam que consultas públicas regionais do Fórum Participativo Estadual não fossem tratadas como consulta válida nos termos exigidos pela Convenção 169 da OIT. Existe documentação formal, território por território, povo por povo, mostrando que os povos indígenas aceitaram participar da comercialização dos créditos de carbono feita pelo governo estadual?

Esse debate ganha mais peso porque o mercado de carbono não compra apenas toneladas de CO₂ evitadas. Compra confiança. Um crédito jurisdicional precisa carregar integridade ambiental, segurança jurídica, governança fundiária, respeito a direitos territoriais, consulta adequada e prova de que a redução de emissões não existe só no papel. Quando qualquer uma dessas peças falha, o ativo perde valor, atrai contestação e pode ficar parado antes mesmo de chegar ao comprador.

É aqui que entra a derrota recente do Acre no Supremo Tribunal Federal. Em março de 2026, o STF declarou inconstitucional norma estadual que permitia a transferência de áreas de florestas públicas estaduais para particulares com base em dez anos de posse ou uso. O julgamento ocorreu nas ADIs 7764, 7767 e 7769, movidas pelo Conselho Nacional das Populações Extrativistas, pela Procuradoria-Geral da República e pelo Partido Verde. A Corte derrubou a regra por entender que ela abria caminho para título de domínio definitivo em florestas públicas, reduzia proteção ambiental, dispensava exigências como estudos técnicos e análise de impacto, contrariava normas federais e feria a vedação ao retrocesso ambiental.

A decisão atinge a vitrine ambiental no ponto mais frágil. Enquanto o governo Mailza-Gladson tenta convencer investidores em Londres de que o Acre é um porto seguro para créditos de carbono de alta integridade, o STF teve de barrar uma regra estadual que fragilizava a proteção de florestas públicas. A contradição não impede o Acre de buscar financiamento climático, mas aumenta o risco jurídico, político e comercial da operação. Para bancos, certificadoras e compradores internacionais, floresta pública sob ameaça fundiária é problema de integridade.

O risco não é abstrato. O caso do Pará já virou alerta para os estados amazônicos. Em 2025, o MPF foi à Justiça para pedir a anulação de contrato bilionário de crédito de carbono, citando venda antecipada e ausência de consulta prévia, livre e informada. Em 2026, o órgão também recomendou ao ART a suspensão da certificação e da venda de créditos do Pará até a solução judicial da disputa. O Acre tenta se diferenciar porque o acordo com o Standard Chartered não foi estruturado como venda antecipada, mas a lição permanece: sem consulta robusta, transparência contratual e segurança territorial, o mercado de carbono pode virar passivo judicial.

A Fase II do Programa REM Acre também impõe cautela. Financiado pela Alemanha, por meio do KfW, e pelo Reino Unido, o programa foi apresentado com 30 milhões de euros para execução entre 2017 e 2021, com 70% dos recursos destinados a beneficiários locais e 30% ao fortalecimento do Sisa, de instrumentos de REDD+ e de políticas de controle do desmatamento. Em 2024, novos acordos empurraram a execução até 2026, com liberação de aproximadamente 11 milhões de euros para finalização da fase. Um programa pensado para cinco anos caminha para quase uma década de execução.

O histórico ambiental recente também não permite triunfalismo. O governo usa a queda do desmatamento como trunfo e há redução nos números mais recentes. Ainda assim, a Nota Técnica do Ministério Público do Acre sobre desmatamentos, embargos e multas trata de fragilidades na responsabilização de infratores, na cobrança efetiva de multas, no registro de embargos e na inscrição de débitos em dívida ativa. Para uma política de carbono, fiscalização fraca não é detalhe administrativo. É ameaça direta à qualidade do crédito que o Estado pretende vender.

O Acre deve buscar recursos ambientais. A floresta acreana presta um serviço real ao Brasil e ao mundo, e quem vive nesses territórios precisa ser remunerado por isso. Mas o caminho entre Londres e a ponta não pode ser ocupado apenas por consultorias, viagens, apresentações e promessas. Resultado é crédito emitido, dinheiro recebido, contrato público, comunidade consultada, benefício repartido e floresta protegida por lei e por fiscalização.

A pergunta que acompanha Mailza em Londres, portanto, continua a mesma: depois de mais de R$ 3,2 milhões pagos à VR Consultoria com recursos próprios do Tesouro, o Acre está perto de vender créditos de carbono ou apenas financiando a construção de uma narrativa internacional? A resposta precisa aparecer em documentos, números, contratos e repasses. Até lá, a conta é do contribuinte acreano, a promessa é do governo e o risco está sobre a floresta.