Alan Rick não respondeu como quem despista. Ao ser perguntado sobre a vontade de ter Zequinha Lima em seu projeto, foi direto ao ponto: disse que a vontade é “no corpo todo”. A frase saiu com jeito de brincadeira, mas na política acreana esse tipo de declaração raramente fica só no campo da simpatia.
O senador sabia o que estava dizendo. Estava em Cruzeiro do Sul, no território político de Zequinha, diante de uma plateia que entende o peso de cada gesto. Chamou o prefeito de amigo, elogiou sua gestão, lembrou a parceria de campanha e fez questão de dizer que nunca deixou de atender os pedidos do município. Em outras palavras, Alan não apenas abriu a porta. Colocou tapete vermelho.
Zequinha também não fechou a porta. Preferiu o caminho mais cuidadoso, como costuma fazer quem sabe que está sendo observado por vários lados. Disse que conversa com todos os que pretendem governar o Acre. Citou Mailza, Bocalom e Alan. Lembrou que Mailza é do seu partido e que teve papel importante em sua trajetória. Disse que Bocalom é amigo. Mas, quando falou de Alan, destacou algo concreto: recursos, emendas e presença em Cruzeiro do Sul.
Foi aí que a fala institucional ganhou temperatura política.
Zequinha afirmou que Alan tem história no município, que todos os anos destinou recursos para ajudar Cruzeiro do Sul e citou a revitalização do Mercado Público Municipal como exemplo dessa relação. O recado, sem precisar ser dito em tom de rompimento, foi entendido: o prefeito não pretende se afastar de quem ajuda sua cidade.
A frase mais importante de Zequinha talvez tenha sido essa. Não pela cortesia, mas pelo cálculo. Ao dizer que precisa estar ao lado dos políticos que ajudam o Acre, o prefeito se coloca numa posição confortável. Não rompe com Mailza, não se entrega a Alan, não fecha com Bocalom. Mas deixa claro que apoio político, para ele, precisa ter retorno administrativo.
É nesse ponto que a aproximação entre Alan e Zequinha deixa de ser apenas troca de elogios e entra no terreno da engenharia eleitoral.
Alan quer crescer no Juruá. Zequinha é hoje a principal liderança municipal da região. Para o senador, ter o prefeito de Cruzeiro do Sul ao lado não seria apenas ganhar um apoio. Seria abrir uma avenida política no segundo maior colégio eleitoral do Acre e reduzir o espaço de movimentação dos adversários.
Para Zequinha, o jogo também é evidente. Ele não precisa correr. Está no comando da Prefeitura, foi reeleito, tem base, tem vitrine e virou peça disputada no tabuleiro estadual. Se entrar no projeto de Alan, dificilmente será para ocupar a plateia. A pergunta que se impõe é outra: qual pedaço da mesa lhe será oferecido?
É aí que aparece a questão do vice.
Nos bastidores, a hipótese de Zequinha indicar o nome para a vice de Alan deixou de ser especulação solta e passou a circular como uma senha política. A lógica é simples: se o prefeito entregar peso regional, estrutura e presença no Juruá, vai querer algo mais que promessa de parceria futura. Vai querer uma marca na chapa.
O nome mais lembrado é Marcelo Siqueira.
Ex-secretário municipal de Saúde, professor doutor da Ufac e filiado ao PSD, Marcelo saiu da gestão de Zequinha em abril e passou a ser tratado como uma peça possível para 2026. Não é um nome aleatório. Tem vínculo com o grupo do prefeito, passou por uma secretaria sensível, circula no campo técnico e pode ser apresentado como representante do Juruá sem obrigar Zequinha a deixar a Prefeitura.
Essa é a vantagem política de Marcelo. Ele poderia carregar a digital de Zequinha na chapa de Alan, enquanto o prefeito permaneceria em Cruzeiro do Sul com a máquina municipal nas mãos. Para Alan, seria um gesto objetivo em direção ao Juruá. Para Zequinha, seria a confirmação de que seu apoio não foi recebido como favor, mas como sociedade política.
Mas Marcelo não corre sozinho nesse tabuleiro.
Janaína Terças, secretária municipal de Turismo, Empreendedorismo e Inovação, aparece como uma possibilidade com outro tipo de leitura. Seu nome permitiria ao grupo de Zequinha apresentar uma alternativa ligada à economia, ao turismo, à inovação e ao discurso de desenvolvimento regional. Em uma campanha estadual, especialmente com o Juruá no centro da conversa, Janaína poderia representar uma tentativa de mostrar Cruzeiro do Sul não apenas como base eleitoral, mas como território de oportunidades.
A presença de Janaína numa lista de possibilidades também teria um efeito simbólico: colocaria uma mulher do entorno de Zequinha em uma composição majoritária e abriria espaço para uma narrativa menos tradicional, mais conectada a empreendedorismo, geração de renda e fortalecimento econômico do interior. Não seria a escolha mais óbvia, mas justamente por isso poderia funcionar como gesto de renovação controlada dentro do grupo.
Milca Santos é outro nome que precisa ser observado.
À frente da Assistência e Desenvolvimento Social, Milca ocupa uma área de contato direto com famílias, bairros, comunidades e pessoas em situação de vulnerabilidade. Em campanha, isso não é detalhe. A assistência social é uma das pontes mais sensíveis entre a gestão e a vida cotidiana da população. Um nome vindo dessa área poderia ajudar a compor uma imagem de cuidado, presença territorial e atenção às demandas mais concretas das famílias.
Se Marcelo Siqueira carrega o perfil técnico e administrativo, Janaína fala com desenvolvimento e economia, e Milca Santos dialoga com o campo social. São três possibilidades diferentes para uma mesma equação: como Zequinha poderia transformar sua força em Cruzeiro do Sul em espaço real dentro da chapa de Alan Rick.
O pano de fundo de tudo isso é a crise recente entre Zequinha e o governo Mailza. Não houve rompimento formal. Houve ruído. E, em política, ruído também comunica. O prefeito demonstrou incômodo com setores do governo, aliados falaram em isolamento, e colunas políticas passaram a registrar a possibilidade de seu grupo olhar para Alan ou Bocalom.
Mailza tenta manter a relação institucional. Zequinha também evita queimar pontes. Mas a dúvida já foi instalada: o prefeito está apenas ampliando diálogo ou preparando uma mudança de lado?
Alan percebeu a fresta e entrou por ela.
Ao dizer que a vontade de ter Zequinha é “no corpo todo”, o senador fez mais do que uma gentileza pública. Ele produziu uma imagem política. Deixou claro para o Juruá, para os aliados e para os adversários que o prefeito de Cruzeiro do Sul é prioridade em sua estratégia.
Zequinha respondeu à altura, mas com freio de mão puxado. Elogiou Alan, lembrou as emendas, destacou a parceria, mas não assinou adesão. É o movimento típico de quem sabe que seu passe valorizou.
A partir de agora, a questão não é mais saber se Alan quer Zequinha. Isso já foi dito. Também não é saber se Zequinha conversa com Alan. Ele mesmo confirmou.
A pergunta que realmente importa é outra: Alan está disposto a entregar a vice ao grupo de Zequinha?
Porque carinho político, por si só, não fecha aliança. Foto bonita ajuda. Frase espirituosa rende manchete. Elogio aquece o ambiente. Mas chapa majoritária se decide em outro balcão.
Se o acordo avançar, o vice será o recibo.