Com Clodoaldo ao lado, Velloso mira Senado e promete interior mais perto da saúde

O deputado federal Eduardo Velloso transformou a entrevista ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, nesta quinta-feira, 2 de julho, em Cruzeiro do Sul, numa largada pública para tentar ocupar espaço na disputa pelo Senado e vender ao Vale do Juruá uma ideia simples: a saúde será o centro do seu discurso, das suas alianças e da sua tentativa de subir de patamar na política acreana. Ao lado do deputado estadual Clodoaldo Rodrigues, Velloso falou de ressonância destravada, cardiologia, oftalmologia, mutirões, emendas, atendimento nos municípios isolados, ligação com o Peru e de uma pré-candidatura que, nas palavras dele, está “cada vez mais crescendo”. A entrevista ganhou peso porque veio um dia depois de a governadora Mailza Assis aparecer em vídeo tratando o parlamentar como “novo senador”, frase que colocou fogo na sucessão de 2026 e obrigou Velloso a responder, no rádio, se já está dentro da chapa governista.

A pergunta veio direta. Chico Melo lembrou que Velloso havia entrado na política depois de uma vida profissional estável, como médico e empresário, e quis saber o que o empurrou para esse caminho. A resposta levou a conversa para o ponto que o deputado escolheu como território político: a dificuldade de atendimento no interior. Velloso citou a ressonância que estava parada, a chegada da cardiologia, a oftalmologia e a rotina de quem vive em Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo, cidades que dependem de Cruzeiro do Sul quando a dor passa do limite do que o município consegue resolver. “A maior dor das pessoas é a saúde”, disse o deputado, antes de defender que cada município tenha, pelo menos, ortopedista, cirurgião, anestesista, clínico e pediatra.

Essa frase explica por que a entrevista não ficou presa apenas ao jogo eleitoral. No Juruá, saúde é disputa política porque é também a vida concreta de quem precisa sair de madrugada atrás de consulta, de quem espera exame, de quem sofre acidente em campo de futebol e encontra apenas um raio-x sem especialista para fechar diagnóstico, de quem depende de regulação para Rio Branco quando o problema já não pode esperar. Velloso sabe disso. E, como médico, tenta transformar essa experiência em capital político. Na Câmara dos Deputados, ele aparece oficialmente como Eduardo Ovídio Borges de Velloso Vianna, deputado federal do Acre, filiado ao Solidariedade, médico de formação e integrante titular da Comissão de Saúde em 2026.

O anúncio mais imediato da manhã foi a entrega de 103 óculos para famílias sem condições de comprar, numa ação em parceria com o prefeito Zequinha Lima. Velloso disse que tinha o sonho de levar esse atendimento ao Juruá e creditou ao prefeito de Cruzeiro do Sul a execução da agenda. O deputado também citou a parceria com Clodoaldo, Maria Antônia e “Deda” ao afirmar que mais de R$ 10 milhões foram levados apenas para a saúde de Cruzeiro do Sul. Ele ligou esse dinheiro aos mutirões realizados no município e disse que as ações ajudaram a melhorar o atendimento da população.

Os números oficiais da Câmara reforçam o tamanho da aposta de Velloso na área. Em 2026, aparecem no orçamento R$ 11,8 milhões autorizados para estruturação de unidades de atenção especializada em saúde no Acre e R$ 7,5 milhões para custeio temporário da atenção primária. Também há R$ 13,5 milhões em transferências especiais no Estado. No ano anterior, em 2025, a Câmara registrou R$ 7,9 milhões autorizados, empenhados e pagos para custeio da atenção primária e R$ 11,4 milhões pagos em transferências especiais no Acre.

O que Velloso tentou fazer no rádio foi dar rosto a esses valores. A política de emendas costuma chegar ao eleitor como número solto, difícil de acompanhar, mas no interior ela vira ambulância, reforma, mutirão, exame, cadeira em unidade de saúde, iluminação de campo, apoio a instituição social ou quilômetro de asfalto. Foi nesse ponto que Clodoaldo Rodrigues entrou com força na entrevista. Ele não apareceu apenas como aliado sentado ao lado. Apareceu como fiador da relação de Velloso com Cruzeiro do Sul e com o Juruá.

Clodoaldo, cujo nome completo é Francisco Clodoaldo de Souza Rodrigues, é deputado estadual pelo PP na Assembleia Legislativa do Acre. O cadastro oficial do Sistema de Apoio ao Processo Legislativo registra o parlamentar como filiado ao Progressistas e representante da Aleac. Na entrevista, ele fez questão de dizer que não votou em Velloso para deputado federal em 2022, mas acabou encontrando nele o principal parceiro para tocar demandas do mandato. “Quem é patrocinador? Só tenho o Velloso por enquanto”, disse Clodoaldo, numa frase que mostra tanto a gratidão política quanto a dependência de deputados estaduais em relação a emendas federais para atender suas bases.

Clodoaldo citou recursos para a Delegacia de Cruzeiro do Sul, o Educandário, os bombeiros, a Polícia Militar e outras instituições. Falou ainda de R$ 2,8 milhões destinados em dezembro de 2025 para entidades de Cruzeiro do Sul e para a iluminação do campo da Vila Santa Rosa, pedido ligado à vice-prefeita Delcimar Leite. Depois, ampliou a conta: disse que Velloso colocou R$ 3 milhões em suas mãos para o ramal Mariana de Cima e que o total no Deracre chega a R$ 11 milhões para obras na região do Juruá.

A fala de Clodoaldo também ajudou Velloso a atravessar a parte mais delicada da entrevista: a pergunta sobre Senado. A governadora Mailza Assis havia chamado o deputado de “novo senador”, e a frase foi lida imediatamente como recado sobre a composição da chapa governista. Velloso não cravou lugar na chapa, mas também não recuou. Disse que a pré-candidatura está crescendo e brincou que agora estaria “conquistando o coração” da governadora. Clodoaldo foi mais direto ao defender que Velloso pode ser candidato ao Senado com ou sem a presença formal na chapa de Mailza. Para ele, eleição majoritária tem outro comportamento e o deputado federal já tem condições de disputar.

Essa diferença de tom foi uma das partes mais reveladoras da manhã. Velloso mediu as palavras para não fechar portas. Clodoaldo falou como quem já trabalha a candidatura na rua. O deputado estadual disse que, quando Velloso pensou em disputar o Senado, chegou a aconselhá-lo a buscar a reeleição para a Câmara, mas agora trata o projeto como posto. A avaliação dele tem lógica eleitoral: Velloso entrou no debate com imagem ligada à saúde, circula com entrega concreta no Juruá, mantém interlocução com o governo e tenta ocupar uma vaga num cenário em que a sucessão estadual ainda depende de acordos mal resolvidos entre Mailza, Gladson Cameli, partidos da base e lideranças que querem espaço na majoritária.

A entrevista também atravessou um tema que vai além do Acre e mira a economia regional. Velloso defendeu que o Vale do Juruá pode ser porta de um novo ciclo por causa da ligação com o Peru, especialmente por Pucallpa. Ele falou da presença de autoridades peruanas na ExpoJuruá, entre elas um senador, um governador e representantes daquela região. O argumento do deputado é econômico: uma rota mais barata de transporte atrai quem quer comprar e vender, inclusive mercados asiáticos e a China.

Essa pauta não é detalhe. Quando um deputado fala em saúde no primeiro bloco e em Peru no segundo, ele tenta juntar duas dores antigas do Acre: o isolamento do cidadão diante do serviço público e o isolamento econômico diante dos grandes corredores de comércio. O Juruá conhece os dois problemas. A família que procura atendimento especializado e o comerciante que paga caro pelo frete fazem parte da mesma geografia. Velloso tenta dizer que pode tratar das duas pontas: levar especialista para perto de quem precisa e abrir caminho para que a região deixe de viver como fim de linha.

A presença da médica cardiologista Regiane Velloso, esposa do deputado, deu uma camada concreta ao debate sobre saúde. Ela lembrou que voltou ao Acre em 2006, trabalha como cardiologista na Fundação Hospitalar e ajudou a montar o serviço de alta complexidade em cardiologia, com cateterismo, stent e cirurgia cardíaca. Na entrevista, Regiane disse que, durante a campanha de 2022, percebeu que pacientes do Juruá com infarto não conseguiam chegar a Rio Branco a tempo. A partir daí, nasceu a promessa de levar cardiologia ao Hospital do Juruá. Dois anos depois, segundo ela, o serviço da Hemocárdio já funciona dentro da unidade.

Velloso completou esse ponto com um dado forte: mais de 1.360 procedimentos de coração realizados em Cruzeiro do Sul. Para o deputado, cada procedimento representa vida preservada e deslocamento evitado. Essa é a parte da entrevista com maior capacidade de chegar ao eleitor sem tradução política. Quem já viu um parente enfartar no interior entende a diferença entre ter atendimento perto e depender de viagem para a capital.

No fim, o Jornal da Manhã colocou Velloso diante de três testes ao mesmo tempo. O primeiro foi explicar por que quer o Senado. O segundo foi mostrar o que já entregou. O terceiro foi responder se sua candidatura nasce dentro do projeto de Mailza ou se tem fôlego próprio para sobreviver fora dele. Ele não fechou a equação, mas deixou claro que está em campanha. Falou como pré-candidato, apresentou serviços, chamou aliados para perto, usou a saúde como vitrine e deixou Clodoaldo fazer a defesa mais aberta de seu nome.

A entrevista também mostrou que Clodoaldo quer entregar o mandato com marca própria no Juruá. Ele disse que pode até não ser reeleito, mas desafiou qualquer deputado estadual a provar que colocou mais recursos ou teve mais presença em Cruzeiro do Sul e na região. É uma fala de quem sabe que a disputa de 2026 não será apenas por partido ou palanque. Será por lembrança. Quem levou recurso, quem apareceu, quem atendeu, quem abriu porta e quem sumiu.

Velloso saiu do estúdio com uma frase da governadora nas costas, um aliado estadual ao lado e uma agenda de saúde na mão. Não é pouco. Mas também não resolve tudo. O caminho até o Senado exige mais que mutirão, óculos, emenda e boa entrevista. Exige costura partidária, resistência a crises, capacidade de explicar alianças e, sobretudo, prova de que os recursos anunciados viram serviço permanente. No Juruá, promessa tem prazo curto. O eleitor escuta no rádio pela manhã e cobra na rua no mesmo dia.

É 13! Gastos do governo com voos descritos como jato já passam de R$ 13,5 milhões

Levantamento aponta pagamentos à Ortiz Táxi Aéreo entre 2023 e 2026; despesas aparecem concentradas na Casa Civil e fazem referência ao Contrato CC 34/2023

Os gastos do governo do Acre com fretamento de aeronaves descritas oficialmente como jato já somam R$ 13.507.200,00 em pagamentos à Ortiz Táxi Aéreo.

O valor reúne o levantamento consolidado entre 2023 e 2025, que já apontava R$ 12.440.400,00 pagos em despesas com a palavra “jato” no histórico do serviço, e a atualização feita a partir dos dados de 2026, que acrescentou mais R$ 1.066.800,00.

O recorte considera apenas pagamentos cujo histórico oficial menciona expressamente a palavra jato. Ou seja, não entram nessa conta outros fretamentos da Ortiz descritos como monomotor, bimotor, Caravan, transporte aeromédico ou fretamento genérico de aeronave.

Nos dados já consolidados, os pagamentos anteriores somavam 52 linhas de pagamento, referentes a 43 empenhos conciliados, todos vinculados à Secretaria de Estado da Casa Civil. A maior parte dessas despesas aparece associada ao Contrato CC 34/2023, que concentrava R$ 11.113.200,00 do total apurado até 2025.

A atualização de 2026 adiciona quatro novos empenhos pagos, todos registrados em abril pela Casa Civil. As descrições seguem o mesmo padrão: “referente a fretamento de aeronave (jato) conforme T.A. Contrato CC 34/2023”.

Os pagamentos de 2026 identificados foram:

Data – Empenho – Valor pago
27/04/2026 – 4460010383 – R$ 214.200,00
28/04/2026 – 4460010392 – R$ 168.000,00
29/04/2026 – 4460010399 – R$ 432.600,00
30/04/2026 – 4460010417 – R$ 252.000,00

Com isso, o gasto identificado em voos com descrição de jato passa de R$ 12,44 milhões para R$ 13,5 milhões.

A Casa Civil aparece como órgão responsável em todo o recorte de jato levantado até agora. A despesa, portanto, não está distribuída entre diferentes secretarias: está concentrada na estrutura diretamente ligada à chefia do governo.

O levantamento também mostra que o contrato usado para esse tipo de despesa atravessou mais de um exercício financeiro. No histórico dos pagamentos aparecem referências à Ata de Registro de Preços 04/2023, ao Contrato CC 34/2023 e, em um caso anterior, ao Contrato 34/2025. No bloco atualizado de 2026, os quatro pagamentos mencionam novamente o Contrato CC 34/2023, por meio de termo aditivo.

A conta não representa todo o gasto do governo com a Ortiz Táxi Aéreo. Ela trata apenas do recorte mais específico: os pagamentos em que a própria descrição oficial da despesa informa fretamento de aeronave jato.

Foto: Gabriel Wallace/Instagram

Mailza aumenta dúvida sobre rompimento com Gladson

A governadora Mailza Cameli colocou mais lenha na fogueira política ao chamar Eduardo Velloso de “novo senador”, frase que ganhou peso no mesmo momento em que o Palácio Rio Branco mexe em peças ligadas ao ex-governador Gladson Cameli. O gesto poderia passar como gentileza de evento, mas, no Acre de eleição, vira senha: Mailza está apenas agradando aliados ou já começou a caminhar sem a mão de Gladson no volante?

A demissão de Jonathan Donadoni da Casa Civil deu corpo à desconfiança. Donadoni ocupava uma das cadeiras mais estratégicas do governo e era visto como homem de confiança de Gladson dentro do Palácio Rio Branco. Ao tirá-lo da sala principal, Mailza não mexeu apenas em um cargo; mexeu no eixo político herdado do ex-governador.

O gesto em direção a Velloso pesa porque Gladson deixou o governo mirando o Senado, mas hoje carrega uma trava pesada no caminho: foi condenado pela Corte Especial do STJ a 25 anos e nove meses de prisão, em decisão que também o tornou inelegível por oito anos pela Lei da Ficha Limpa. Nesse cenário, a pergunta que corre nos corredores é simples e incômoda: Mailza está apenas reorganizando o governo ou já começou a deixar Gladson para trás?

Avião de Gladson é alvo de nova apreensão pela PF, diz Leonildo Rosas

O avião PT-WGK, registrado em nome do ex-governador Gladson Cameli, entrou novamente no centro da Operação Ptolomeu nesta quarta-feira, 1, depois que o jornalista Leonildo Rosas afirmou que a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão contra a aeronave, em Cruzeiro do Sul. A ordem, segundo Leonildo, teria sido expedida pela ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, e alcançaria um bem que já havia sido tratado pela Procuradoria-Geral da República em pedido de venda antecipada.

No vídeo divulgado, Leonildo disse ter recebido a informação “por uma pipira”, expressão que costuma usar para se referir a fontes de bastidor. Em seguida, afirmou que a aeronave estava sob responsabilidade de Gladson como fiel depositário e teria sido usada em viagem a Cruzeiro do Sul durante a Expoacre Juruá. “A Polícia Federal, na tarde desta quarta-feira, cumpriu o mandado de busca e apreensão emitido pela ministra Nancy Andrighi. Ou seja, o avião que estava como fiel depositário para o Dancinha foi apreendido”, disse o comentarista, usando o apelido pelo qual costuma se referir ao ex-governador.

O avião chegou em Cruzeiro do Sul na terça-feira, 30 de junho

O peso da informação está no histórico PT-WGK. A aeronave aparece na Cautelar Inominada Criminal nº 87/DF, ligada à Operação Ptolomeu, investigação que apura supostos desvios de recursos públicos no Acre. Em manifestação assinada pelo subprocurador-geral da República Carlos Frederico Santos, ainda em 2023, a PGR tratou de medidas cautelares sobre bens atribuídos a Gladson e pediu providências para evitar a perda de valor de patrimônio sob sequestro e indisponibilidade judicial.

No mesmo documento, a PGR identifica o avião como Beech Aircraft 8, matrícula PT-WGK, número de série TH-1644. Peritos da Polícia Federal avaliaram a aeronave em R$ 3.476.000,00 e calcularam desvalorização média de 3,51% nos 12 meses anteriores ao parecer. Com base nesses dados, a Procuradoria pediu ao STJ a alienação antecipada do avião e de cinco veículos ligados ao caso, sob o argumento de que bens móveis exigem manutenção constante, perdem valor com o tempo e podem se deteriorar antes do julgamento definitivo.

A venda antecipada, nesse tipo de medida, não transfere automaticamente o valor ao poder público. O bem é convertido em dinheiro e o montante fica depositado em conta judicial até decisão final. Se a condenação for mantida e houver determinação de ressarcimento, os valores podem ser usados para reparar o dano. Se a medida for revertida, o dinheiro retorna a quem tiver direito reconhecido pela Justiça.

A situação do PT-WGK se soma ao quadro jurídico mais amplo de Gladson. Em 6 de maio de 2026, a Corte Especial do STJ condenou o ex-governador a 25 anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado, pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A decisão também fixou multa, indenização ao Estado do Acre no valor de R$ 11,7 milhões e perda do cargo de governador, embora Gladson já tivesse renunciado ao mandato no mês anterior com a intenção de disputar o Senado.

A maioria dos ministros acompanhou o voto da relatora, Nancy Andrighi, que atribuiu a Gladson posição de comando no esquema investigado pela Operação Ptolomeu. A defesa negou as acusações, contestou a validade das provas e ainda pode recorrer. O próprio Ministério Público Federal, ao tratar da condenação, reconheceu que a decisão não encerra a disputa judicial.

Leonildo também relacionou a suposta apreensão à situação eleitoral do ex-governador. Segundo ele, Gladson apresentou embargos de declaração contra a condenação, mas o recurso não teria sido julgado antes do recesso do STJ. Na avaliação do comentarista, a candidatura ao Senado “subiu ao telhado”, salvo se houver decisão favorável no Supremo Tribunal Federal.

O caso também recupera uma pergunta feita antes pelo Arenga du Acre, antiga página de humor político que havia chamado atenção para a movimentação do PT-WGK. A provocação era direta: “Quem está voando o avião de Gladson?”

A página apontava que a aeronave aparecia em consulta ao Registro Aeronáutico Brasileiro como registrada em nome de Gladson Cameli, com restrição judicial de transferência, e questionava quem estaria pilotando ou autorizando voos recentes. O ponto era objetivo: se o PT-WGK estava no nome do ex-governador, sob restrição judicial, e se Gladson também era investigado em caso relacionado à obtenção de registro de piloto, os registros operacionais da aeronave deveriam esclarecer quem vinha usando o avião.

Com a fala de Leonildo Rosas, a pergunta feita pelo Arenga deixa o terreno da provocação política e ganha densidade jurídica. O PT-WGK passa a reunir, em uma mesma cena, três linhas de desgaste para Gladson: o patrimônio sob vigilância judicial, a condenação imposta pelo STJ e a incerteza sobre seu projeto eleitoral.

Jornal da Manhã em Coluna – 1º de julho de 2026

A coluna desta quarta-feira reúne bastidores, comentários e informações levadas ao ar no Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM 99,9, apresentado por Chico Melo, com análise política de Rogério Wenceslau e cobertura de Gledisson Albano e Mazinho Rogério na primeira noite da Expoacre Juruá 2026.

A feira abriu, a política também

A Expoacre Juruá começou com parque cheio, show de Nattanzinho Lima e a velha cena de Cruzeiro do Sul quando a cidade vira ponto de encontro do interior inteiro. Mas, por trás da música, dos estandes e da poeira dos carros na BR-405, a política abriu sua própria porteira.

A governadora Mailza Assis fez a abertura oficial da feira. Só que a noite não foi apenas de governo. Foi também de adversários circulando, aliados medindo distância e pré-candidatos testando o calor do público.

Alan Rick no mesmo terreiro

O senador Alan Rick chegou à Expoacre Juruá como pré-candidato ao governo e com o prefeito Zequinha Lima ao lado. Em política, a imagem às vezes fala antes do microfone.

Alan não foi à feira apenas para cumprimentar expositor. Foi ocupar espaço. E ocupar espaço no Juruá, em noite de abertura, diante de empresários, produtores, lideranças e visitantes de fora, é mandar recado para o Acre inteiro.

Zequinha mudou a temperatura

A presença de Zequinha Lima no campo de Alan Rick mexe com a conta do Palácio Rio Branco. O prefeito de Cruzeiro do Sul não é um apoio qualquer. Ele governa o principal município do Juruá e conhece como poucos o peso político de uma feira cheia.

Quando Zequinha sai de perto de Mailza e aparece ao lado de Alan, não é só uma troca de palanque. É um movimento que encoraja outros insatisfeitos a fazer a própria travessia.

A fila começou a andar

Rogério Wenceslau resumiu o momento com uma frase que ficou no ar: “A fila tá andando e tá andando rápido”.

A debandada do governo deixou de ser murmúrio de gabinete. Agora aparece em praça pública, em feira, em entrevista, em chegada de comitiva. O barco ainda navega, mas já tem passageiro olhando para a margem.

Falta conversa no Palácio

Wenceslau foi direto ao ponto ao falar em falta de sensibilidade e falta de articulação. Governo que perde ouvido político começa a perder antes no detalhe: uma liderança que não atende, um prefeito que se sente pequeno, uma promessa que fica sem resposta.

No Acre, ninguém rompe de repente. Primeiro avisa. Depois se cala. Quando aparece ao lado do adversário, a decisão já amadureceu faz tempo.

Donadoni fora da Casa Civil

A exoneração de Jonathan Donadoni da Casa Civil caiu no meio da semana como mais uma peça solta no tabuleiro. A Casa Civil é o lugar da costura. Quando quem costura sai, o rasgo aparece mais.

O governo tratou a mudança como decisão administrativa. Wenceslau devolveu a pergunta que incomoda: “Será que sabem a diferença entre decisão de governo e decisão de estado?”.

Decisão de governo cobra conta

Toda governadora pode trocar secretário. Isso faz parte do comando. O problema é o momento, o método e o efeito político da troca.

Quando a base já reclama, quando prefeitos se movem e quando aliados históricos começam a sair, uma exoneração na Casa Civil deixa de ser ato interno. Vira termômetro de crise.

Sula sai e o ramal sente

A saída de Sula Ximenes do Deracre pesa porque o órgão não vive apenas dentro do gabinete. O Deracre chega no ramal, na ponte, na estrada de barro, na operação verão e no produtor que espera a máquina antes da chuva voltar.

Sula pediu exoneração reclamando de compromissos não cumpridos e falta de condições para tocar o trabalho. Isso transforma uma troca administrativa em problema político com cheiro de barro molhado.

Deracre não é enfeite

No Juruá, o Deracre é uma das mãos mais visíveis do governo. Quando o ramal abre, a comunidade lembra. Quando fecha, lembra mais ainda.

Por isso a preocupação com a operação verão é séria. É agora que o serviço precisa andar. Depois que o inverno amazônico chega, a desculpa costuma vir junto com a lama.

Governo tenta conter a leitura

Mailza Assis negou crise e apresentou as mudanças como medidas de gestão. É a resposta esperada de quem está no comando e precisa segurar a imagem de normalidade.

Mas política não se controla apenas com declaração. A leitura se forma no conjunto: Donadoni fora, Sula fora, Zequinha distante, Alan crescendo no Juruá e aliados observando quem será o próximo a atravessar.

A feira como vitrine eleitoral

A Expoacre Juruá tem boi, negócio, show, comida, empreendedor e família andando pelo parque. Mas também tem pré-campanha em estado puro.

Cada aperto de mão vira sinal. Cada foto vira mensagem. Cada ausência vira comentário. Em noite de feira cheia, o político que circula bem sai maior. O que circula acuado sente o peso da multidão.

Trânsito cheio, sinalização falha

A Prefeitura montou transporte gratuito para o público, mas a chegada e a saída tiveram fila grande de veículos. Também houve reclamação sobre falta de sinalização em alguns pontos.

Evento desse tamanho não perdoa improviso. A multidão mostra sucesso, mas também testa a capacidade de organização da cidade.

Empreendedor quer vender

Os empreendedores chegaram à Expoacre Juruá com expectativa positiva. Para muita gente, a feira é a chance de vender em poucos dias o que às vezes demora mês inteiro para girar.

Enquanto político mede força, o pequeno comerciante mede caixa. É ele quem sente primeiro se a festa deu certo.

Segurança em alerta

A Polícia Militar e o Ciosp agiram rápido e apreenderam três motocicletas durante a movimentação da Expoacre. Em noite de público grande, segurança boa é aquela que aparece antes do problema crescer.

A feira movimenta dinheiro, gente e trânsito. Também exige presença firme do Estado.

Até a seleção entrou no clima

No fim do programa, a Copa do Mundo apareceu com torcedor esperançoso, mas sem tanta fé no Brasil.

A frase combina com o momento político do Acre. Tem gente torcendo pelo governo, mas já sem a mesma confiança no jogo.

A cena do dia

A primeira noite da Expoacre Juruá teve música alta, parque cheio e palanque disputado. Mailza abriu oficialmente a feira, mas Alan Rick e Zequinha Lima roubaram parte da cena política.

No Juruá, a festa começou com multidão. A crise, também.

Nicolau Júnior destaca tradição e impacto econômico da Expoacre Juruá

A Expoacre Juruá 2026 foi aberta nesta terça-feira, 30, em Cruzeiro do Sul, com a presença do presidente da Assembleia Legislativa do Acre, deputado Nicolau Júnior, que destacou a importância da feira para a economia regional, os pequenos negócios, o agronegócio e a valorização das tradições do Vale do Juruá.

“A Expo Juruá já é tradição aqui da nossa região. Todo mundo espera esse momento”, afirmou Nicolau Júnior, ao falar sobre o papel da feira no calendário econômico e cultural de Cruzeiro do Sul. Para o parlamentar, o evento reúne famílias, movimenta a cidade e cria oportunidades para produtores, comerciantes e empreendedores locais.

A feira ocorre na Arena do Juruá e segue até 5 de julho, com programação voltada a negócios, exposições, rodeio, atividades culturais e shows nacionais. A abertura teve prova dos Três Tambores e apresentação de Natanzinho Lima, dando início a seis noites de programação gratuita.

Nicolau Júnior também ressaltou que a Expoacre Juruá se consolidou como vitrine para quem produz e empreende no interior do estado. “É uma festa que cresce a cada edição e movimenta muito a nossa economia”, disse o presidente da Aleac.

A movimentação durante os dias de feira alcança hotéis, restaurantes, transporte, comércio varejista, vendedores ambulantes, produtores rurais e trabalhadores temporários. A presença de visitantes de municípios do Vale do Juruá amplia a circulação de dinheiro em Cruzeiro do Sul e fortalece setores que dependem diretamente do aumento no fluxo de pessoas.

Além da programação de entretenimento, a Expoacre Juruá abre espaço para produtos regionais, agricultura familiar, artesanato, serviços e negócios ligados ao campo. A feira também aproxima representantes institucionais, empresários e produtores, criando um ambiente de integração econômica em uma das regiões mais importantes do Acre.

A edição de 2026 reforça o peso da feira como evento popular e econômico. Para Nicolau Júnior, a Expoacre Juruá deixou de ser apenas uma festa tradicional e passou a representar uma agenda estratégica para geração de renda, fortalecimento do empreendedorismo e valorização da identidade regional.

Foto: Sérgio Vale

Mailza exonera Jonathan Donadoni da Casa Civil; advogado era nome forte herdado da gestão Gladson

A governadora Mailza Assis exonerou Jonathan Xavier Donadoni do cargo de secretário de Estado da Casa Civil. A decisão foi publicada no Diário Oficial do Estado desta terça-feira, 30, por meio do Decreto nº 14.905-P, assinado no dia 26 de junho. O ato não apresenta justificativa para a saída.

Jonathan Donadoni ocupava uma das funções mais estratégicas do governo. A Casa Civil é a pasta responsável por organizar a tramitação dos atos do Executivo, fazer a ponte institucional entre secretarias e concentrar parte importante da articulação administrativa e política do Palácio Rio Branco.

Donadoni chegou ao comando da Casa Civil ainda na gestão do então governador Gladson Cameli. Em abril de 2022, foi anunciado pelo próprio governo como novo secretário-chefe da pasta, substituindo Rômulo Grandidier. À época, Gladson afirmou que o advogado chegava para “somar” à equipe.

Segundo informações divulgadas pelo governo quando ele assumiu o cargo, Jonathan Xavier Donadoni é advogado, natural de Mato Grosso do Sul e chegou ao Acre em 2006, após ser aprovado em concurso para defensor público do Estado. Antes de comandar a Casa Civil, também atuou como procurador-geral do Município de Cruzeiro do Sul nas gestões dos ex-prefeitos Vagner Sales e Ilderlei Cordeiro.

A exoneração ocorre em meio ao processo de reorganização política e administrativa do governo Mailza. Donadoni era visto como um dos nomes mais ligados ao núcleo de Gladson dentro da máquina estadual, o que dá à saída peso simbólico na formação de uma equipe mais alinhada à atual governadora.

Em abril deste ano, após rumores sobre uma possível saída de Donadoni do governo, Mailza chegou a negar publicamente qualquer mudança no comando da Casa Civil e afirmou que a equipe estava “muito bem organizada”. Pouco mais de dois meses depois, a exoneração foi oficializada no Diário Oficial.

Até o momento, o decreto publicado nesta terça-feira apenas formaliza a saída de Jonathan Donadoni. Não há, no mesmo ato, indicação do nome que passará a comandar a Casa Civil.

Nos bastidores, a exoneração de Jonathan Donadoni é lida como mais um sinal de desgaste entre o grupo de Mailza Assis e aliados ligados ao ex-governador Gladson Cameli. Interlocutores do governo afirmam que parte dos compromissos costurados ainda na transição não estaria sendo cumprida, o que teria ampliado o descontentamento dentro da própria base. Nessa leitura interna, dois nomes aparecem como centrais na condução desse novo arranjo de poder no Palácio Rio Branco: Ney Amorim e Madson Cameli, apontados por fontes como peças de forte influência nas movimentações políticas e administrativas do governo.

Bocalom defende produção e renda em entrevista ao Jornal da Manhã

O pré-candidato ao Governo do Acre Tião Bocalom usou a entrevista concedida nesta segunda-feira (29) ao Jornal da Manhã, da Rádio Integração FM, em Cruzeiro do Sul, para defender um projeto econômico baseado na produção rural, na geração de emprego e no aumento da renda da população. Ex-prefeito de Acrelândia e de Rio Branco, ele afirmou que o Estado precisa voltar a produzir mais e depender menos de outros mercados. “Produzir para empregar, se não roubar o dinheiro dá”, disse.

Bocalom citou a experiência em Acrelândia como base do discurso político que pretende levar à disputa estadual. Ele afirmou que o município avançou na produção de café, leite e banana e passou a exportar esses produtos, o que, na avaliação dele, mudou a circulação de dinheiro na cidade. “Dinheiro vem melhor na vida das pessoas”, afirmou, ao defender que a produção seja tratada como eixo central para a economia acreana.

O pré-candidato também vinculou a passagem pela Prefeitura de Rio Branco à mesma lógica administrativa. Mesmo com os impactos da pandemia nos dois primeiros anos de gestão, Bocalom afirmou que manteve a ideia de unir produção, emprego e dinheiro no bolso da população. Para ele, o desenvolvimento precisa chegar primeiro ao cidadão. “Cidadão com dinheiro no bolso tem autoestima, cabeça levantada”, disse.

Durante a entrevista, Bocalom criticou a condução de políticas ambientais adotadas no Acre nas últimas décadas e voltou a atacar o conceito de “florestania”. “Esqueceram que tinha alguém mais importante que a árvore e o bicho — o ser humano que tá na Amazônia”, afirmou. Ele disse que a defesa do homem amazônico sempre fez parte de sua trajetória política. “Hoje vejo todo mundo falar, até a turma antiga da esquerda: temos que cuidar do ser humano. É o que eu falei a vida inteira.”

A dependência do Acre em relação a produtos vindos de Rondônia também entrou no centro da entrevista. Bocalom afirmou que o Estado compra de fora itens básicos da alimentação e da produção agropecuária, como arroz, feijão, milho e leite. “Só não compra carne, que somos autossuficientes”, disse. Em seguida, comparou o cenário atual com o passado. “Antigamente o Acre vendia pra Rondônia. Hoje compra tudo de lá.”

O ex-prefeito disse que tem percorrido municípios acreanos em uma espécie de “ouvidoria” para ouvir demandas da população e montar uma proposta de governo. A estratégia, afirmou, é conversar diretamente com moradores, produtores e lideranças locais para mapear problemas que se repetem nas cidades e transformar essas demandas em ações voltadas à produção, emprego e infraestrutura.

A entrevista também teve um tom pessoal quando Bocalom apresentou a esposa, Kelly, que estava no estúdio. “O amor está no ar”, disse, em clima descontraído. Ele também falou da relação familiar ao afirmar: “Deus me mandou uma metade espetacular.”

Ao longo da conversa, Bocalom associou sua pré-candidatura à ideia de retomada econômica pela produção. A mensagem repetida na entrevista foi a de que o Acre precisa produzir mais, gerar renda localmente e reduzir a saída de mão de obra. “Produzir para empregar” foi o eixo usado por ele para resumir a proposta que pretende apresentar na corrida pelo governo.

Apoio de Ciro Nogueira expõe crise de Mailza e cola pré-candidatura a desgaste judicial no Acre

“Mailza é a prioridade número 1 do nosso partido no Brasil. Sua eleição é muito importante, fundamental, e nós estaremos aí até o fim.” A frase de Ciro Nogueira, que circulou nesta segunda-feira, 29 de junho, tentou estancar a crise aberta em torno da candidatura de Mailza Assis ao governo do Acre em 2026. Mas o efeito político foi outro. No momento em que a pré-campanha da governadora enfrenta ruídos internos, especulações sobre resistências na federação e indefinições de aliados, o gesto mais enfático de apoio veio justamente do presidente nacional do PP, hoje atingido pelo escândalo do Banco Master.

Ciro foi alvo de mandado de busca e apreensão da Polícia Federal em maio, no inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master. Segundo decisão do ministro André Mendonça citada pela Reuters, a investigação aponta que o senador teria atuado em favor do banqueiro Daniel Vorcaro “em troca de vantagens econômicas indevidas”. A defesa nega irregularidades e diz que ele está à disposição para prestar esclarecimentos. O dado pesa porque transforma um apoio partidário em passivo político: em vez de blindar Mailza, o áudio a liga nacionalmente a um dirigente sob investigação.

No Acre, o apoio de Ciro apareceu no pior momento para a governadora. O MDB virou peça central da disputa e ainda não definiu se ficará com Mailza ou se abrirá caminho para outro arranjo. Nos bastidores, dirigentes conversam com os dois lados, preservando margem de negociação e ampliando o poder de barganha do partido. Ao mesmo tempo, Alan Rick se consolidou como principal adversário, liderando a corrida ao Palácio Rio Branco. Pesquisa Real Time Big Data divulgada em 18 de junho mostrou o senador com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 26% de Mailza, embora a atual governadora tenha 67% de aprovação administrativa.

A reação do entorno de Mailza foi de trincheira. Luiz Calixto reafirmou a pré-candidatura da governadora como inegociável e fez cobrança pública aos “oportunistas”, sinal de que a turbulência deixou de ser apenas boato de bastidor e passou a ser enfrentada abertamente pelo núcleo político do governo. Quando um projeto precisa ser defendido a esse ponto por seus articuladores, a crise já não está mais do lado de fora.

Mailza tenta vender a própria imagem como continuidade administrativa e política, mas esse discurso cobra um preço cada vez mais alto. Ela é a continuidade de Gladson Cameli, condenado em 6 de maio pela Corte Especial do STJ a 25 anos e 9 meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. A defesa negou as acusações e alegou nulidade de provas, mas a condenação colocou o antigo comando do grupo sob o maior desgaste judicial de sua trajetória recente.

É isso que torna a situação de Mailza mais delicada. De um lado, o apoio mais ruidoso vem de Ciro Nogueira, investigado no caso Banco Master. De outro, o discurso de continuidade a amarra ao legado de Gladson, já condenado pelo STJ. No meio desse aperto, a governadora ainda precisa segurar a base, impedir novas deserções e provar que sua candidatura consegue andar com força própria. Hoje, porém, o que mais salta aos olhos é o oposto: uma pré-campanha encurralada, obrigada a se sustentar entre o barulho dos aliados e o peso do desgaste que eles carregam.

CNPJs ligados a Assem Cameli recebem R$ 42 milhões do governo; com evolução após aproximação de Madson e Mailza

Os pagamentos do Governo do Acre a CNPJs ligados ao entorno empresarial e associativo de Antônio Assem Melo Cameli, pai de Madson Cameli, mudaram de tamanho a partir de 2023, ano em que a aproximação entre Madson e Mailza Assis passou a circular no ambiente político acreano. Hoje, Mailza governa o Estado, Madson é marido dela e ocupa a chefia do Gabinete Pessoal da governadora. Entre 2020 e 23 de junho de 2026, seis CNPJs relacionados a esse universo receberam R$ 42.028.255,33 dos cofres estaduais.

Até 2022, a soma anual ainda caminhava em faixa menor. Foram R$ 2,44 milhões em 2020, R$ 2,2 milhões em 2021 e R$ 4,66 milhões em 2022. Depois da aproximação de Madson com Mailza, os valores subiram para R$ 8,12 milhões em 2023, R$ 10,44 milhões em 2024 e R$ 12,61 milhões em 2025. Em três anos antes de 2023, os pagamentos chegaram a R$ 9,3 milhões. Nos três anos seguintes, alcançaram R$ 31,17 milhões. A diferença passa de R$ 21 milhões e representa alta de quase 235%.

A planilha não entrega uma sentença. Entrega uma pergunta difícil para o governo. Por que os pagamentos a CNPJs ligados ao entorno empresarial de Assem Cameli saltaram depois que Madson se aproximou de Mailza e passou a circular no núcleo de poder que hoje comanda o Acre? Essa resposta não cabe em nota protocolar. Precisa aparecer nos contratos, nos convênios, nas licitações, nos pareceres e nas assinaturas que liberaram cada real.

A maior parte do dinheiro passou pela Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, a ACECS. A entidade recebeu R$ 25.487.150,00 entre 2022 e 2025, principalmente para bancar a Expoacre Juruá, feiras de negócios, o réveillon em Cruzeiro do Sul e as comemorações do Dia do Trabalhador. Só a Expoacre Juruá e eventos de negócios ficaram com R$ 16.629.760,00. O réveillon somou R$ 5.384.140,00. O Dia do Trabalhador consumiu R$ 3.473.250,00. Uma pergunta fica no ar. Por que o governo tem esses custos com esses eventos através da Associação?

A ACECS não é empresa de Assem Cameli. Associação privada não tem dono como uma loja, uma construtora ou uma empresa de navegação. Também não se pode transformar a passagem de uma pessoa pela diretoria em prova automática de controle patrimonial. O que existe é uma relação antiga, pública e política entre Assem e a entidade. Ele foi presidente por dois mandatos, atuou como vice-presidente, aparece em cadastros públicos como diretor e tentou voltar ao comando da associação em dezembro de 2024, quando sua chapa perdeu a eleição interna por 50 votos a 44.

Em janeiro de 2024, Assem aparece como vice-presidente da Associação Comercial de Cruzeiro do Sul em encontro com o prefeito Zequinha Lima, com Mailza Assis, então vice-governadora, e com o secretário de Segurança, coronel José Américo, para tratar de crimes contra o patrimônio no centro da cidade.

Em abril de 2025, no Centro Integrado de Comando e Controle do Juruá, Assem retomou essa trajetória ao falar da volta do serviço 190 para Cruzeiro do Sul. “Enquanto exerci o cargo de vice-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Cruzeiro do Sul, lutei pelo retorno dos serviços do 190 para cá”, disse. A frase ajuda a entender o lugar que ele ocupa há anos no Juruá: empresário, dirigente associativo e interlocutor de governos em temas sensíveis para o comércio local.

Entre as empresas privadas, a maior soma ficou com a A. A. M. Cameli, conhecida como Navegação Rápido Juruá. O CNPJ recebeu R$ 12.881.356,83 no período, quase sempre por locação de balsa com rebocador ao Deracre. É a balsa que faz a travessia entre Cruzeiro e Rodrigues Alves. Os pagamentos atravessaram todos os anos da série: R$ 2,19 milhões em 2020, R$ 1,5 milhão em 2021, R$ 1,91 milhão em 2022, R$ 1,81 milhão em 2023, R$ 1,85 milhão em 2024, R$ 2,37 milhões em 2025 e R$ 1,22 milhão em 2026, ainda com dados parciais até 23 de junho.

A N Construções Ltda também entrou na rota dos pagamentos. A empresa recebeu R$ 3.263.354,97 entre 2020 e junho de 2026. Depois de cair para R$ 43,8 mil em 2023, voltou a receber valores maiores: R$ 402,5 mil em 2024, R$ 800,1 mil em 2025 e R$ 318,5 mil em 2026. Os serviços envolvem locação de máquinas e veículos pesados ao Deracre e aluguel de imóvel para uma unidade do Iteracre.

Outros CNPJs aparecem com valores menores, mas completam o mapa financeiro em torno do mesmo sobrenome e do mesmo ambiente empresarial. A A M Camili Eireli recebeu R$ 229.331,26. A Sampaio e Camili Comércio Varejista de Produtos Alimentícios Ltda recebeu R$ 132.847,36. A A S Melo Ltda ficou com R$ 34.214,91.

Em 2026, já com Mailza no comando do Estado, a Associação Comercial voltou a aparecer ao lado do governo na campanha Compra Premiada, em Cruzeiro do Sul. A ação reuniu Seict, Federacre, ACECS e Rede Ativa, teve adesão de mais de 200 empresas e movimentação estimada em R$ 15 milhões no comércio local. O sorteio ocorreu no Shopping Copacabana, empreendimento associado a Assem Cameli, apresentado pelo governo como proprietário do local e empreendedor do setor comercial e industrial do Juruá.

O caso avança sobre uma fronteira delicada da política acreana: onde termina a relação privada e onde começa o dever de proteção do dinheiro público. Assem Cameli é pai de Madson. Madson se aproximou de Mailza por volta de 2023, casou-se com ela e hoje trabalha dentro do gabinete da governadora. No mesmo intervalo, os pagamentos a CNPJs ligados ao ambiente empresarial e associativo de Assem cresceram de forma expressiva. A ACECS, entidade comandada por ele no passado, recebeu a maior fatia. As empresas privadas mantiveram contratos relevantes, sobretudo com o Deracre.

Nos bastidores do governo e entre fornecedores que dependem de pagamentos do Estado, a queixa ganhou nome e sobrenome. Madson Cameli passou a ser descrito por interlocutores como alguém que fala a partir do centro do poder, cobra deferência e deixa no ar a ideia de que as decisões passam por ele. A frase que corre longe dos gabinetes é mais crua: “ele bate no peito para dizer que é ele quem manda”. Essa postura, repetida em conversas reservadas por políticos e empresários, abriu ruídos na base, azedou relações internas e aumentou a irritação de quem presta serviço ao governo, entrega o que foi contratado e espera receber enquanto vê o caixa público atravessado por influência familiar, disputa política e desconfiança.

A resposta que o Estado deve à população precisa ser concreta. Quais contratos cresceram? Quais convênios foram assinados? Houve chamamento público? Houve licitação? Que órgãos autorizaram as despesas? Quem fiscalizou a entrega dos serviços? Que barreiras foram criadas para impedir conflito de interesse depois que o marido da governadora passou a ocupar uma sala no coração do Palácio? No Acre, onde quase todo poder tem nome, sobrenome e endereço conhecido, transparência não pode ser favor. É obrigação.