Cruzeiro do Sul confirma caso de meningite bacteriana e reforça vacinação em todas as unidades de saúde

Cruzeiro do Sul confirmou na segunda-feira, 18, um caso de meningite bacteriana em uma criança em idade escolar e reforçou nesta terça-feira, 19, que todas as unidades de saúde do município seguem abastecidas com vacinas do SUS contra formas graves da doença. A vigilância epidemiológica acompanha nove notificações no município. Desse total, três casos foram descartados e seis foram confirmados.

A rede municipal mantém a vacina meningocócica no calendário infantil aos 3 e 5 meses, com reforço aos 12 meses por meio da ACWY, além da dose de reforço para adolescentes de 11 a 14 anos. A vacina pneumocócica faz parte do esquema aos 2 e 4 meses, com reforço aos 12 meses, e também atende grupos com maior risco de complicações, como idosos, pessoas com doenças crônicas, imunossuprimidos e pacientes em tratamento contra o câncer.

A coordenadora municipal de imunização, Thayana Felix, afirmou que a atualização da caderneta vacinal segue como a principal forma de proteção. “A população precisa entender a importância de manter a caderneta de vacinação atualizada. A vacina é a principal forma de prevenção contra várias doenças, inclusive a meningite.” Segundo ela, as unidades urbanas aplicam as doses nos turnos da manhã e da tarde, enquanto as unidades da zona rural funcionam pela manhã. Para receber a vacina, o morador deve apresentar documento pessoal, cartão do SUS e caderneta de vacinação.

No caso confirmado nesta semana, a bactéria identificada foi a Streptococcus pneumoniae. De acordo com a Vigilância Epidemiológica, esse agente não exige quimioprofilaxia dos contatos nem suspensão das aulas, porque não costuma provocar surtos em ambiente escolar. Equipes de saúde foram enviadas à instituição de ensino para orientar a comunidade escolar e acompanhar a situação.

Entre os seis casos confirmados no município estão duas crianças, uma de seis meses e outra de sete anos, além de adultos com idades entre 31 e 43 anos e um idoso de 66 anos. O monitoramento segue em andamento, com investigação dos casos e orientação sobre medidas de controle e prevenção.

A meningite é uma inflamação das meninges, membranas que envolvem o cérebro e a medula espinhal, e pode ser causada por bactérias, vírus ou fungos. A transmissão ocorre principalmente por secreções respiratórias, em situações de contato próximo e prolongado com uma pessoa infectada. Os principais sintomas incluem febre, dor de cabeça intensa, rigidez na nuca, náuseas, vômitos, convulsões, manchas avermelhadas na pele e alterações no estado geral. Em crianças, também podem surgir irritabilidade, sonolência excessiva e dificuldade para se alimentar.

A orientação das autoridades de saúde é que a população procure atendimento médico imediato diante de qualquer sintoma suspeito. A coordenadora estadual de imunização, Renata Aparecida Quiles, afirmou que o calendário vacinal do SUS contempla diferentes vacinas que ajudam na prevenção das meningites. “Nem toda meningite é causada pela mesma bactéria. O SUS possui vacinas que protegem contra diferentes tipos da doença, como a meningocócica, a pneumocócica e outras vacinas do calendário infantil que também ajudam na prevenção das formas graves de meningite.”

Weverton é convocado para a Copa do Mundo de 2026 e recoloca o Acre na Seleção

O goleiro acreano Weverton foi convocado nesta segunda-feira, 18 de maio, por Carlo Ancelotti para defender o Brasil na Copa do Mundo de 2026. Aos 38 anos, o jogador do Grêmio entrou na lista final de 26 nomes e vai disputar o segundo Mundial da carreira, ampliando um feito histórico para o futebol do Acre.

A convocação confirma a presença de Weverton entre os três goleiros escolhidos para o torneio, ao lado de Alisson e Ederson. O nome do acreano já era tratado como uma possibilidade real desde a divulgação da pré-lista, mas a confirmação na relação definitiva encerrou a expectativa em torno de um dos atletas mais experientes do grupo.

Para o Acre, o chamado tem peso simbólico. Em 2022, Weverton se tornou o primeiro jogador nascido no estado a ser convocado para uma Copa do Mundo. Agora, volta ao torneio quatro anos depois e mantém o estado representado no principal palco do futebol mundial, desta vez com mais experiência e trajetória consolidada na Seleção.

A convocação também reforça o momento de permanência de Weverton em alto nível. Depois de construir uma carreira vitoriosa no futebol brasileiro, o goleiro chegou ao Grêmio em 2026 cercado de expectativa e seguiu como nome forte na disputa por uma vaga entre os convocados. A experiência acumulada em decisões nacionais e internacionais pesou na escolha da comissão técnica.

Weverton nasceu em Rio Branco, em 13 de dezembro de 1987, e iniciou a carreira no Corinthians. Depois, passou por Remo, Oeste, América-RN, Botafogo-SP, Portuguesa e Athletico-PR, onde ganhou projeção nacional. No Palmeiras, viveu a fase mais vitoriosa da trajetória, com títulos de expressão no Brasil e na América do Sul. Em 2016, entrou para a história ao defender o pênalti decisivo na final contra a Alemanha e ajudar o Brasil a conquistar o ouro inédito no futebol masculino nos Jogos Olímpicos do Rio. Agora, com a convocação para a Copa do Mundo de 2026, acrescenta mais um capítulo de peso a uma carreira que saiu do Acre para o topo do futebol brasileiro.

“Não autorizamos que falem em nome dos povos indígenas”, diz cacique Ninawá sobre agenda de Nikolas Ferreira no Acre

O cacique Ninawá Huni Kuin, presidente da Federação do Povo Huni Kuin no Acre, criticou em vídeo publicado nas redes sociais a visita do deputado federal Nikolas Ferreira ao estado e acusou o senador Márcio Bittar de transformar a pauta indígena em ação de marketing político. Na gravação, ele afirma que os parlamentares não têm autorização para falar em nome dos povos indígenas e os responsabiliza por defender, no Congresso, propostas que atingem direitos territoriais.

Ninawá disse que a ida de Nikolas Ferreira ao Acre, apresentada como visita a comunidades indígenas, não representa os interesses dos povos originários. “Nós não autorizamos que essas pessoas falem em nome dos povos indígenas”, afirmou. Na sequência, atacou a atuação dos dois parlamentares em Brasília e disse que eles tentam construir uma imagem pública positiva enquanto apoiam medidas que, segundo ele, ameaçam os territórios indígenas e favorecem corporações.

No vídeo, o líder indígena também rejeita a associação entre povos indígenas e miséria. “Nós não somos miseráveis, nós vivíamos muito bem antes da colonização”, declarou. Para ele, o modo de vida das comunidades vem sendo comprometido por projetos defendidos e votados por políticos que, segundo sua avaliação, não têm compromisso com os direitos indígenas.

Ao ampliar a crítica, Ninawá afirmou que os povos indígenas querem respeito à autonomia e à forma de vida dentro dos territórios. Ele disse que, em vez de expor a imagem das comunidades, autoridades e parlamentares deveriam investir em políticas públicas. “Deveriam estar fazendo investimento para as políticas públicas”, afirmou. “Esse tipo de pessoa não tem nenhum compromisso com os povos indígenas. Pelo contrário, quer destruir, tomar os territórios em favor dos seus interesses.”

A manifestação do cacique expõe a reação de uma das principais lideranças indígenas do Acre à aproximação de políticos bolsonaristas com a pauta indígena no estado. No vídeo, Ninawá deixa claro que rejeita esse tipo de representação e sustenta que os povos originários devem ser ouvidos por meio de suas próprias lideranças.

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Gladson Cameli vira réu no Caso Colorado e amplia cerco judicial após condenação no STJ

O governador do Acre, Gladson Cameli, virou réu no Superior Tribunal de Justiça no Inquérito 1.674, conhecido como Caso Colorado, em decisão da Corte Especial tomada em 6 de maio de 2026. A nova ação penal apura fraude à licitação e peculato-desvio no Contrato 067/2021, firmado pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Acre com o consórcio liderado pela Construtora Colorado para a duplicação da rodovia AC-405, em obra avaliada em mais de R$ 36 milhões. O avanço do processo abriu uma nova frente criminal contra o chefe do Executivo acreano no mesmo dia em que ele recebeu uma condenação de 25 anos e 9 meses de prisão em outro caso de corrupção.

No voto que embasou o recebimento da denúncia, a ministra Nancy Andrighi descreveu uma estrutura marcada pelo controle familiar e pela simulação de concorrência nas licitações. A investigação sustenta que a Construtora Colorado tinha como “proprietário de fato” Eládio Cameli, pai do governador, enquanto Linker Cameli, primo de Gladson, aparecia apenas como sócio formal. Para a relatora, o material reunido no inquérito aponta interferência direta no resultado do certame. “Há fundados indícios de que Gladson e Eládio direcionaram a concorrência para a vitória da Colorado, frustrando o caráter competitivo”, registrou.

A apuração também reuniu mensagens extraídas de celulares apreendidos na operação. Em um dos diálogos considerados centrais, Gladson cobra o primo sobre o aproveitamento das oportunidades abertas pelo governo e afirma: “Todo mês [eu] tô soltando pacotes de obras, depois não pode é vir dizer que eu não tô avisando”. Os investigadores tratam o conteúdo como peça importante para sustentar a suspeita de proximidade entre o núcleo político e a empresa beneficiada pelos contratos.

Embora o mérito da ação penal tramite no STJ, o Supremo Tribunal Federal já analisou desdobramentos do caso em diferentes momentos. Em 3 de outubro de 2024, o ministro Edson Fachin negou o habeas corpus 228.193, apresentado pela defesa para derrubar as medidas cautelares impostas ao governador. Na decisão, Fachin manteve as restrições ao apontar “fortes indícios de autoria” e afirmar que as provas indicavam a “posição de liderança da organização criminosa” por parte de Gladson Cameli. Em 14 de novembro de 2024, o ministro voltou a rejeitar outro pedido da defesa no HC 248.709/DF, também voltado às cautelares. Já em 14 de abril de 2026, o ministro André Mendonça analisou a Reclamação 93.197/DF e determinou o desentranhamento de alguns Relatórios de Inteligência Financeira, sem suspender o andamento do julgamento.

O novo revés judicial ocorreu no mesmo 6 de maio de 2026 em que Gladson Cameli foi condenado pela Corte Especial do STJ, na Ação Penal 1.076, a 25 anos e 9 meses de prisão em regime inicial fechado. Sob relatoria de Nancy Andrighi, o processo tratou do Caso Murano e resultou em condenação por dispensa indevida de licitação, peculato-desvio, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e pertencimento a organização criminosa.

Nesse processo, a engrenagem descrita pela acusação girava em torno da contratação da Murano Construções por adesão a uma ata de registro de preços da Secretaria de Infraestrutura. Sem estrutura para atuar no Acre, a empresa teria funcionado como fachada para repassar obras e pagamentos à Construtora Rio Negro, ligada a Gledson Cameli, irmão do governador. O dinheiro desviado, segundo a condenação, percorreu empresas interpostas, entre elas a Seven, até ser usado na compra de uma Toyota Hilux e no pagamento de um apartamento de luxo no condomínio Alameda Jardins, em São Paulo.

Com a abertura de uma nova ação penal no Caso Colorado e a condenação já imposta no Caso Murano, Gladson Cameli passa a enfrentar um dos momentos mais graves de sua trajetória política e jurídica. A condenação colegiada no STJ também produz efeito eleitoral e torna o governador inelegível com base na Lei da Ficha Limpa.

Fotos: Secom/AC

Acre embarca primeira carga de carne bovina para Singapura e amplia presença no mercado externo

O Acre deu neste sábado mais um passo na expansão das exportações de carne bovina ao embarcar a primeira carga com destino a Singapura, mercado considerado um dos mais rigorosos do Sudeste Asiático. A remessa saiu da unidade do Nosso Frigorífico e reforça o avanço da indústria local, que ampliou investimentos, elevou a produção e abriu espaço em novos destinos internacionais.

A operação ocorre em meio à mudança de escala vivida pelo setor no estado. Em cinco anos, o número de países compradores da carne acreana passou de cinco para 17. A expectativa das empresas é fechar o ano com embarques para 25 mercados. A carga enviada a Singapura deixou a planta industrial em um rodotrem com cerca de 27 toneladas e seguirá até o Porto de Itajaí, em Santa Catarina, antes do transporte para a Ásia.

O movimento acompanha a ampliação da estrutura frigorífica no Acre. O Nosso Frigorífico emprega cerca de 450 trabalhadores e concentra quase metade dos investimentos anunciados pelo setor nos últimos anos. Diretor da empresa, Murilo Leite afirmou que a abertura de novos mercados encerra uma longa espera da cadeia produtiva local. “O nosso frigorífico concentra praticamente metade dos investimentos realizados no setor nos últimos anos. Isso representa geração de emprego, renda e desenvolvimento econômico para o Acre. Nós tentávamos há muitos anos avançar nesses mercados e hoje estamos vivendo um momento histórico”, disse.

Nos últimos três anos, os frigoríficos instalaram ou anunciaram cerca de R$ 120 milhões em investimentos no estado. Na unidade responsável pelo embarque deste sábado, a capacidade de abate subiu de 400 para 800 animais por dia, enquanto o processamento industrial passou de 100 para 500 animais diariamente. A expansão elevou o volume de produção e fortaleceu a cadeia da pecuária acreana.

Além de Singapura, a carne produzida no Acre já segue para compradores na América do Sul, na Ásia e no Oriente Médio. Para atender parte dessa demanda, as empresas adaptaram protocolos industriais e passaram a operar também com exigências específicas de mercados externos, como o abate halal, adotado para países muçulmanos, entre eles a Arábia Saudita.

Murilo Leite atribuiu a abertura comercial ao trabalho de articulação feito nos últimos anos entre empresários e representantes do governo brasileiro. “O Jorge enxergou o potencial que o Acre tinha, especialmente no setor de proteína. Ele fez um chamamento para que os empresários acreditassem. Levou os empresários do Acre para o mundo e colocou o estado na rota das exportações. Sem esse apoio, sem a diplomacia restabelecida e sem o trabalho do ministro Carlos Fávaro no Ministério da Agricultura, nós não estaríamos vivendo esse momento”, afirmou.

Ex-presidente da ApexBrasil, Jorge Viana afirmou que o avanço do setor revela uma nova fase da economia acreana. “Isso não acontecia no Acre e está acontecendo agora. E é só o começo. É emocionante ver jovens formados na Universidade Federal do Acre trabalhando aqui, mulheres liderando equipes, pequenos produtores participando desse crescimento e a carne acreana chegando ao mundo inteiro”, disse.

Ele também relacionou o crescimento das exportações à agenda de promoção comercial construída nos últimos anos. “Foram dezenas de encontros empresariais organizados para abrir mercados para o Brasil. E hoje vemos aqui o resultado: geração de empregos, crescimento econômico e o Acre entre os estados que mais ampliaram as exportações nos últimos anos. Onde eu vou, eu levo o Acre junto, porque minha vida é aqui”, afirmou.

A ampliação das vendas externas não ficou restrita a uma única empresa. Outras indústrias do segmento também reforçaram operações no estado, em um cenário de expansão da atividade pecuária e de diversificação dos mercados compradores. Para o setor, o embarque deste sábado inaugura uma nova etapa para a proteína animal produzida no Acre. “O empresariado acreditou, investiu e fez acontecer. Hoje é um momento de celebração para todo o setor frigorífico acreano”, declarou Murilo Leite.

Acre pode ter redução de 4,51% na tarifa de energia elétrica a partir de julho de 2026

Consumidores do Acre poderão ter redução média de 4,51% na tarifa de energia elétrica a partir de julho de 2026, caso a proposta em pauta na Agência Nacional de Energia Elétrica seja confirmada na reunião marcada para terça-feira, 19 de maio. O anúncio foi feito neste sábado, 16 de maio, por Gladson Camelí, que afirmou ter levado o pedido à diretoria da Aneel após acompanhar a discussão sobre o reajuste no estado.

Segundo Camelí, o efeito médio previsto anteriormente era de 11,54% em dezembro, mas a articulação junto à agência resultou na possibilidade de redução para 4,51%. “A partir de julho de 2026, os consumidores acreanos vão ter redução na tarifa de energia elétrica graças a um pedido meu junto à Agência Nacional de Energia Elétrica”, afirmou.

A proposta, de acordo com a manifestação do ex-governador, beneficiaria consumidores de todo o estado e pode aliviar o orçamento das famílias em meio ao peso da conta de luz nas despesas mensais. A definição depende da deliberação do colegiado da Aneel, prevista para 19 de maio.

Gefron apreende motocicleta com registro de furto durante ação em Mâncio Lima

Uma motocicleta com registro de furto foi apreendida por agentes do Grupo Especial de Fronteira (Gefron) durante uma operação realizada em Mâncio Lima, no interior do Acre, nesta semana. A abordagem ocorreu durante fiscalização de rotina na região de fronteira, área considerada estratégica para o combate a crimes.

O veículo foi identificado após verificação dos dados durante a ação policial. A consulta confirmou a restrição por furto, o que levou à apreensão imediata da motocicleta. O caso foi encaminhado às autoridades competentes para os procedimentos legais e devolução ao proprietário.

As operações do Gefron fazem parte de um conjunto de ações voltadas à repressão de crimes como tráfico, contrabando e circulação de bens ilícitos na faixa de fronteira. O trabalho inclui patrulhamento constante, abordagens e checagens em tempo real de veículos e pessoas.

A atuação integrada com outras forças de segurança amplia o alcance das operações e reforça o controle nas áreas próximas à divisa internacional. A investigação segue para identificar possíveis responsáveis pelo crime relacionado ao veículo recuperado.

TRF1 mantém condenação por uso indevido de conhecimento Ashaninka sobre murumuru no Acre

A decisão divulgada nesta sexta-feira pelo Ministério Público Federal recoloca no centro do debate o direito dos povos indígenas sobre o uso econômico de conhecimentos tradicionais na Amazônia. A 11ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região manteve a condenação do pesquisador Fábio Fernandes Dias e da empresa Tawaya por exploração indevida de saberes associados ao murumuru do povo Ashaninka do Rio Amônia, no Acre, e fixou indenização por danos materiais correspondente a 20% do faturamento bruto obtido com produtos derivados da espécie, além de R$ 200 mil por danos morais coletivos.

A decisão representa mais uma vitória judicial dos Ashaninka em uma disputa que se arrasta há décadas e envolve pesquisa científica, biodiversidade, propriedade intelectual e repartição de benefícios. O julgamento reforça o entendimento de que o aproveitamento comercial do murumuru não pode ser dissociado da pesquisa realizada dentro do território indígena, com participação direta da comunidade e regras previamente estabelecidas sobre a titularidade dos resultados.

O caso teve origem nos anos 1990, quando a Apiwtxa, associação que representa os Ashaninka do Rio Amônia, firmou parceria para desenvolver um projeto de uso sustentável dos recursos naturais da Terra Indígena Kampa do Rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo. A iniciativa buscava alternativas de geração de renda sem destruição da floresta. Nesse contexto, o pesquisador Fábio Fernandes Dias atuou como técnico do projeto e acompanhou estudos sobre óleos, sementes, essências, folhas, polpas e castanhas de diversas espécies nativas.

Foi nesse processo que o murumuru passou a chamar atenção pelo potencial de uso na indústria de cosméticos. A controvérsia começou depois do encerramento da parceria, quando Dias fundou a empresa Tawaya e passou a desenvolver produtos a partir de óleos e gorduras extrativistas. Os Ashaninka sustentaram que o uso comercial do murumuru nasceu da pesquisa feita no território indígena, com conhecimento compartilhado pela comunidade, e que esse patrimônio não poderia ser apropriado como iniciativa individual nem explorado sem consentimento e sem divisão dos ganhos.

Ao longo da disputa, ganhou força o entendimento de que os indígenas não atuaram apenas como fornecedores de informação ou de matéria-prima. Eles participaram da construção do conhecimento que deu valor econômico ao produto. O convênio firmado à época previa que relatórios, testes, mapas, fotografias e demais resultados da pesquisa pertenciam conjuntamente às instituições envolvidas e que eventual patente, marca, processo ou rendimento exigiria nova pactuação.

O processo judicial começou em 2007, depois de apuração aberta pelo MPF no Acre sobre o uso indevido do conhecimento tradicional associado ao povo Ashaninka. Em 2013, a Justiça Federal já havia condenado o pesquisador e a Tawaya ao pagamento de indenização, além de determinar providências ligadas à patente e à entrega de documentos da pesquisa. Em 2019, a empresa também sofreu derrota na esfera administrativa, com a manutenção de multa de R$ 5 milhões por uso indevido do conhecimento tradicional e ausência de repartição de benefícios.

A decisão tornada pública hoje amplia o alcance dessa reparação ao estabelecer indenização calculada sobre o faturamento bruto com produtos derivados do murumuru. O julgamento também reafirma um ponto central na disputa: o conhecimento tradicional, o território, a participação da comunidade e o desenvolvimento comercial do produto fazem parte da mesma cadeia de valor.

Para os Ashaninka, o resultado reforça um princípio que ultrapassa este caso específico. A discussão não se limita ao uso de uma palmeira amazônica, mas ao reconhecimento de que povos indígenas produzem conhecimento, participam da construção de soluções econômicas ligadas à floresta e têm direito de decidir sobre o uso desse patrimônio e de receber parte justa dos benefícios gerados.

Saúde e cidadania alcançam todos os presos do Acre em ação encerrada em Cruzeiro do Sul

Cruzeiro do Sul foi o último destino da Ação de Cidadania que levou atendimento de saúde e serviços de assistência a 100% dos reeducandos do sistema prisional do Acre. A etapa final ocorreu nesta sexta-feira, 15 de maio, na unidade Manoel Néri da Silva, no Vale do Juruá, encerrando uma mobilização que percorreu cinco municípios e oito unidades prisionais com consultas médicas, vacinação, testes rápidos, coleta de exames e atendimento odontológico para a população privada de liberdade e para servidores.

A força-tarefa reuniu o Instituto de Administração Penitenciária do Acre, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública e a Secretaria de Estado de Saúde, em articulação com a Secretaria Nacional de Políticas Penais, a Fundação Oswaldo Cruz, o Ministério da Saúde e as secretarias municipais de saúde. Em Cruzeiro do Sul, a ação somou 829 atendimentos. No balanço geral, foram alcançados 5.221 reeducandos em todo o estado.

O percurso começou por Senador Guiomard, seguiu por Rio Branco, Sena Madureira e Tarauacá, até chegar a Cruzeiro do Sul. Em Senador Guiomard, foram atendidos 506 presos. Em Rio Branco, 2.972. Em Sena Madureira, 450. Em Tarauacá, 464. A última etapa consolidou o alcance integral da população carcerária acreana.

Além da assistência aos internos, a programação incluiu cuidados voltados aos profissionais do sistema, com serviços como massagem, auriculoterapia e ventosaterapia. A proposta foi ampliar a atenção à saúde dentro das unidades e atender também quem atua diretamente na rotina prisional.

O diretor da unidade de Cruzeiro do Sul, Elves Barros, classificou a mobilização como inédita. “Foi um marco, foi histórico essa ação de hoje. Nunca tinha acontecido uma ação dessa magnitude”, afirmou. A assistente social Nayana Neves, que atua há 17 anos no sistema, disse que nunca havia acompanhado uma ação desse porte e associou a iniciativa à necessidade de atenção à saúde física e emocional dos servidores.

Na avaliação da coordenação da ação, o trabalho também abriu caminho para o mapeamento do perfil epidemiológico da população prisional no Acre. O levantamento permite identificar doenças recorrentes, rastrear casos que exigem acompanhamento e organizar encaminhamentos para tratamento. O coordenador da Senappen, Kleber Carlos Morais, afirmou que a iniciativa fortalece o planejamento da assistência nas unidades e amplia a capacidade de resposta da rede de saúde.

Entre os reeducandos, o atendimento foi recebido como oportunidade de acesso a cuidados que nem sempre chegam com rapidez ao ambiente prisional. Um dos internos atendidos relatou que precisava de assistência médica e odontológica e afirmou que o cuidado com a saúde também faz parte do processo de reconstrução de vida.

Com o encerramento em Cruzeiro do Sul, o Acre conclui uma operação de alcance estadual voltada à ampliação do acesso à saúde no sistema penitenciário, com foco em diagnóstico, prevenção e dignidade para presos e servidores.

Doce como mel, Mâncio Lima vira a queridinha da bancada federal

Mâncio Lima, conhecida como a terra do mel, vive um momento especialmente doce na relação com Brasília. De uma só vez, a Prefeitura aparece recebendo apoio de senadores e deputados federais de diferentes campos políticos, todos colocando recursos no município e todos ganhando espaço na vitrine montada pela gestão do prefeito Zé Luiz.

Para a população, a notícia é boa. Dinheiro pago significa possibilidade real de melhorar atendimento, comprar insumos, manter unidades funcionando e reforçar serviços básicos. Mas, na política, quando o mel escorre de todos os lados, também cabe perguntar: por que tanta disposição da bancada federal em adoçar justamente Mâncio Lima?

A prefeito divulgou que R$ 6.507.780 já estão na conta do município para reforçar a saúde, por meio do Incremento PAP, voltado ao custeio da Atenção Primária. A lista reúne quase um retrato da bancada acreana: R$ 2 milhões do senador Sérgio Petecão, R$ 500 mil do senador Márcio Bittar, R$ 500 mil do senador Alan Rick, R$ 2,126 milhões do deputado federal Zezinho Barbary, R$ 200 mil do deputado federal Eduardo Velloso e R$ 1.181.780 da deputada federal Antônia Lúcia.

A frase escolhida pela comunicação da Prefeitura diz muito: “tá na conta da Prefeitura”. Não é uma promessa distante, não é só foto em gabinete, não é apenas reunião em Brasília. É dinheiro pago. E, politicamente, dinheiro pago fala alto, principalmente em ano de movimentação pré-eleitoral.

O prefeito Zé Luiz também entrou no tom. Ao encerrar agenda em Brasília, escreveu nas redes sociais que voltava com “o coração cheio de gratidão” e com a certeza de que a gestão está “no caminho certo”, buscando investimentos e melhorias para Mâncio Lima. Em seguida, agradeceu aos parlamentares parceiros que, segundo ele, estão contribuindo para fortalecer a saúde do município, garantir mais atendimento, estrutura e qualidade de vida à população.

A fala é institucional, mas tem cálculo político. Zé Luiz aparece como o prefeito que vai a Brasília, abre portas, conversa com todos e volta com resultado. Não escolhe apenas um padrinho. Agradece a vários. E, com isso, transforma a Prefeitura em ponto de convergência de interesses da bancada federal.

A pergunta que fica é simples: Mâncio Lima está recebendo porque tem mais demanda, porque tem melhor articulação, porque o prefeito soube se posicionar ou porque o município virou vitrine política no Juruá?

A cidade tem necessidades reais. É município de fronteira, com comunidades distantes, população rural, desafios de transporte, saúde e infraestrutura. Não se discute se Mâncio Lima precisa de investimento. Precisa. O que se discute é o peso político dessa escolha e se a distribuição dos recursos está sendo equilibrada em relação às demais prefeituras da região.

Rodrigues Alves, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Cruzeiro do Sul e outros municípios do Juruá também enfrentam filas na saúde, problemas de ramais, deslocamentos difíceis, comunidades isoladas e pressão sobre os serviços públicos. Estão recebendo na mesma intensidade? Têm o mesmo acesso aos gabinetes? Conseguem transformar emenda em dinheiro pago com a mesma velocidade?

A própria Prefeitura já vinha alimentando essa narrativa de força em Brasília. Antes desse pacote de mais de R$ 6,5 milhões para a saúde, a gestão anunciou quase R$ 10 milhões em recursos federais para infraestrutura, abastecimento de água, saúde e maquinários. Um bom dinheiro pra cidade, hein.

Ou seja, não é um episódio isolado. É uma sequência. Agenda em Brasília, foto com parlamentar, anúncio de recurso, card nas redes sociais, agradecimento público e reforço da imagem de uma gestão com trânsito federal. A Prefeitura entendeu que emenda parlamentar não é apenas orçamento. É também narrativa.

E a bancada também sabe disso. Cada senador e deputado que aparece destinando recursos para Mâncio Lima planta presença no município. Mostra serviço. Ocupa espaço. Fortalece laços locais. Em ano pré-eleitoral, esse tipo de relação vale muito mais do que uma simples postagem de agradecimento.

Por isso, o caso de Mâncio Lima merece ser observado além da comemoração. A cidade está recebendo recursos importantes, mas a concentração de apoios acende uma questão política: a bancada federal está olhando para o Juruá com critérios equilibrados ou cada parlamentar está escolhendo onde o retorno político parece mais promissor?

Na terra do mel, Brasília parece ter encontrado uma colmeia disputada. A população pode ganhar com os recursos. Mas a política também está de olho na colheita.